E depois dos milhões na IA? O que reserva 2026 às big tech
A inteligência artificial tanto domina a lista de oportunidades para as principais tecnológicas do mercado como gera desafios. O principal? Perceber se os investimentos avultados geram proveitos.
O investimento está feito, agora é preciso pô-lo a render. Se 2025 foi o ano em que se multiplicaram os anúncios de milhões na área da inteligência artificial (IA), 2026 deverá ser um período para avaliar a consolidação dessa tecnologia . É este o sentimento dos especialistas ouvidos pelo Observador que acompanham o setor tecnológico e empresas como a Amazon, Apple, Microsoft, Meta, Google, Nvidia e OpenAI. Tudo para perceber se a IA é realmente capaz de dar frutos às tecnológicas ou se continuará a alimentar o debate sobre uma bolha semelhante à das dot-com.
"O mercado entrou numa fase de maturidade onde já não basta anunciar inovações em IA” , diz ao Observador Vítor Madeira, analista da XTB. "Os investidores estão a exigir mais pelo agressivo investimento em capital que se traduza em margens de lucro tangíveis e crescimento do fluxo de caixa livre”, acrescenta. "2026 pode ser o ano em que o mercado separará as empresas que utilizam a tecnologia para criar novos fluxos de receita daquelas que a utilizam apenas como uma ferramenta de sobrevivência”, contextualiza. "A eficiência operacional e a capacidade de monetizar a inteligência artificial serão os verdadeiros diferenciais competitivos”, completa Madeira.
Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, segue o mesmo raciocínio, antecipando "uma crescente exigência quanto ao retorno dos avultados investimentos realizados nos últimos anos no setor da IA ”. Além disso, profetiza que o tema da "continuação da consolidação da inteligência artificial” seja "acompanhado por maior pressão regulatória, sobretudo na União Europeia”.
É que, conforme nota Dan Gilman, investigador sénior em política da concorrência do International Center for Law & Economics, "há vários desafios regulatórios e legais para as empresas líderes do setor tecnológico”. Ao Observador, contextualiza que "a um nível mais amplo, as atividades regulatórias e de fiscalização estaduais, federais e estrangeiras voltadas para a IA continuam a ser um desafio importante e emergente” para as tecnológicas. Também não ignora os temas dos "desafios na área da concorrência, que continuam agressivos e que refletem uma certa animosidade em relação às big tech , e não apenas preocupações tradicionais e fundamentadas com a concorrência”.
Amazon enfrenta pressão das compras online , mas com "oportunidade na robótica”
Passados mais de 30 anos, o principal negócio da Amazon ainda é o segmento de compras online . Até setembro de 2025, os últimos resultados disponíveis da Amazon, o comércio eletrónico gerou mais de 80% dos 503 mil milhões de dólares de receitas da empresa. Tendo em conta o peso desta atividade, Paulo Rosa, economista sénior do Carregosa, explica que a Amazon "deverá continuar a enfrentar pressão sobre as margens do negócio do retalho , devido aos elevados custos logísticos e operacionais”. Para este especialista, será um desafio especialmente se se manifestar um "contexto de consumo mais seletivo”.
Mas é unânime entre quem acompanha as movimentações do setor que há algumas oportunidades para a Amazon contrabalançar este desafio. A primeira está ligada à Amazon Web Services (AWS), a divisão de infraestrutura de computação cloud . Nos primeiros nove meses de 2025, esta divisão viu o lucro operacional aumentar 13% em termos homólogos, para 33,1 mil milhões de dólares, o equivalente a 28,3 mil milhões de euros.
Em 2026, a "AWS deverá continuar a ser o principal motor de crescimento, beneficiando da procura por serviços de cloud e inteligência artificial”, diz o economista Paulo Rosa, ainda que preveja um " ambiente de concorrência mais apertada” para a tecnológica.
Henrique Valente, analista da ActivTrades, realça ao Observador que em 2025 a AWS beneficiou com o crescimento da "procura por infraestrutura de IA”. "A combinação entre cloud, retalho e anúncios permitiu manter o crescimento, mesmo com investimento elevado em data centers ”, destaca. Para este analista, "em 2026, o foco do mercado estará em três pontos: manter o crescimento da AWS sem pressão excessiva nas margens, continuar a expandir a publicidade e lidar com um ambiente regulatório mais exigente, sobretudo na Europa.”
No velho continente, tem crescido o debate sobre a soberania digital, com vários países europeus a sinalizar a vontade de ter uma menor dependência de serviços cloud estrangeiros, nomeadamente dos EUA. A pressão cresceu ao ponto de empresas como a AWS ou a Microsoft, através da sua divisão Azure, anunciarem a disponibilidade de serviços adaptados para os clientes europeus.
Microsoft quer ser "voz da razão” na relação entre EUA e Europa. Tecnológica reforça compromissos no digital em tempos de tensão geopolítica
Com ou sem a dúvida da soberania, Vítor Madeira, da XTB, considera que a Amazon já se diferencia "ao aplicar a IA em todas as suas áreas de negócio” , mas que a "grande oportunidade” da empresa liderada por Andy Jassy "reside na automação robótica dos armazéns”. Detalha que essa aposta "promete ganhos de eficiência críticos, num momento em que o retalho enfrenta a concorrência agressiva de plataformas chinesas, como por exemplo, a Alibaba” e é "mais sensível às oscilações do consumo global” .
Apple pode estrear-se nos dobráveis e firmar uma "parceria decisiva” com a Google
Desde o fim de 2025 que a Apple parece estar num processo de transição. O final de ano fica marcado por um êxodo de executivos que alimentou as dúvidas sobre a saída de Tim Cook.
Entre reformas e saídas para rivais, há um "êxodo de executivos” na Apple. Os ventos de mudança sopram na dona do iPhone?
Se a incerteza se mantém nesse tema, os analistas ligados à área de dispositivos dão como praticamente certa a estreia da Apple num novo segmento: o dos smartphones dobráveis. Um mundo do qual, até agora, a tecnológica se tem mantido afastada . " Há tantos rumores e tantas pistas que é quase inconcebível que a Apple não tenha um telemóvel dobrável. O que me intriga é ver como vão fazer isso”, comenta Ben Wood, da consultora britânica CCS Insight. De qualquer forma, acredita que outros produtos da Apple possam já ter servido para fazer parte do trabalho de casa necessário para um telefone dobrável. "Podemos olhar para o iPhone Air”, o smartphone fino apresentado pela Apple em setembro , "como um ponto de partida para um dobrável” que permitiu à empresa testar as questões de engenharia para um novo formato.
O "salto” do iPhone Air "impossivelmente fino” para tentar reavivar a curiosidade, as renovações no Apple Watch e a falta de novidades de IA
Além disso, também nota que "vai ser fascinante perceber o que é que vão fazer no campo do software ”, lembrando que a Apple já tem alguma experiência nessa matéria. "Já têm centenas de aplicações otimizadas para um ecrã grande” como há num foldable . "Podem ter uma oportunidade única de levar parte da experiência do iPad para um dobrável.”
Mesmo sem arriscar palpites sobre as características de um dobrável em versão iPhone, Wood tem uma certeza: "vai ser um produto muito caro”, apontando para uma faixa de "preços entre 1.500, 1.700, 2 mil euros, na configuração mais avançada”. "Será uma nova faixa de segmento premium ”, até para a Apple, realça. "Mas, para ter um produto nesta faixa de preço terá de ser algo com materiais extraordinários”, alerta.
Francisco Jerónimo, da IDC, não tem dúvidas de que a Apple está a trabalhar num dobrável. "Está mais do que confirmado” , diz ao Observador. Mesmo que "nada esteja anunciado, as informações e os detalhes sobre a cadeia de abastecimento são tantos que neste momento já nem dá para fazer de conta que não se sabe o que aí vem”, concretiza este especialista.
A confiança é tanta que a IDC até já divulgou previsões sobre o mercado de smartphones para 2026 que incluem o iPhone dobrável. A consultora espera que o mercado global dos dobráveis possa crescer 30% em relação a 2025, amparado pela aposta da Apple. Pelas contas da consultora, um iPhone dobrável poderá "captar até 34% do valor de mercado dos dobráveis no primeiro ano de lançamento” . Francisco Jerónimo refere que não será difícil chegar a este valor de mercado tendo em conta o preço do produto. É que a análise da IDC aponta para um smartphone ainda mais caro, "numa média de 2.400 dólares”, cerca de 2.040 euros.
Este especialista nota que a Apple se estará a preparar para entrar num segmento de smartphones onde algumas marcas, nomeadamente a Samsung, já têm espaço consolidado. Se a antecipar ou não a chegada de um iPhone dobrável, a Samsung fechou 2o25 com a novidade de um telefone que se dobra em duas zonas, o Trifold.
Mas há mais expectativas em relação à Apple em 2026. "Vai ser muito importante ver o que a Apple está a fazer em termos de inteligência artificial, nomeadamente ao nível da Siri”, a assistente virtual da Apple, diz Francisco Jerónimo, da IDC. "Tem sido o principal desafio nesta jornada de tornar os telefones mais inteligentes e trazer funcionalidades que sejam mais avançadas do que aquelas que existem”, explica o vice-presidente de dados e analítica da IDC EMEA. Para Jerónimo, é neste momento "claro que a Siri está muito atrás da concorrência” , especialmente quando se compara com as interações possíveis de ter com o ChatGPT ou o Gemini no telefone.
Com o mercado a pressionar a Apple para dar resposta na IA, começaram a surgir algumas notícias de uma possível aliança entre a dona do iPhone e a gigante Google na IA. Segundo uma notícia da Bloomberg, as duas empresas estarão a fechar um acordo que custaria à Apple mil milhões de dólares por ano para poder usar a tecnologia do Gemini para dar força à Siri. Dan Ives, analista da Wedbush, explica ao Observador que, a acontecer, esta parceria "será decisiva para a Siri ao dar força aos esforços de IA da Apple”.
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No campo dos desafios, Vítor Madeira, analista da XTB, continua a ver "a exposição logística” da empresa à China "como um risco geopolítico relevante”. Também o tema da escassez de chips de RAM no mercado, a memória do smartphone , deverá afetar a empresa, ainda que Francisco Jerónimo reconheça que a Apple esteja mais acautelada neste campo devido aos contratos e à sua dimensão no mercado.
Para 2026, a IDC estima que a escassez "sem precedentes” de chips de memória, causada pela viragem dos fabricantes para responder à procura de componentes para a indústria de IA, possa vir a penalizar o mercado de smartphones.
Google poderá ter "ano decisivo” no equilíbrio entre a pesquisa e a ascensão da IA generativa
A Google, que é controlada pela Alphabet, é hoje em dia muito mais do que o seu motor de pesquisa. Há ainda a publicidade online, a loja de aplicações, o negócio do mercado da computação cloud (Google Cloud) e está presente no mercado de hardware , através de telefones Pixel e outros gadgets. E, claro, no segmento da IA, com a empresa a apostar as fichas no Gemini.
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Em 2026, a casa-mãe Alphabet "deverá beneficiar da diversificação do portefólio”, antecipa Paulo Rosa, do Banco Carregosa. Mas aponta um desafio claro para a dona do Google: "O equilíbrio entre o peso do negócio de publicidade e os investimentos de longo prazo em áreas como a saúde, mobilidade e inteligência artificial”. Para o especialista, a empresa terá de assegurar "disciplina financeira e foco estratégico, ou seja, controlo de custos e capacidade de gerar crescimento sustentado”.
Henrique Valente, analista da ActivTrades, considera que "a Alphabet beneficiou claramente do ciclo de investimento em IA”, notando o crescimento da divisão de cloud e a integração de IA em vários serviços. Mas sublinha que "em 2026 o foco passa da adoção para a monetização”. "O mercado vai querer provas de que a Alphabet consegue transformar a IA em crescimento de receitas”, alerta.
Vítor Madeira, da XTB, contextualiza que a empresa "beneficia de uma integração vertical única”, em que controla "desde o design dos chips (TPU) até à plataforma de distribuição”, dando como exemplo o Google e o YouTube. Mas não ignora que a aposta na IA não gera apenas pressão para ver frutos de investimento. "A Google enfrenta a ameaça da substituição do seu motor de pesquisa por meios de pesquisa alternativos, como por exemplo os chatbots/grandes modelos de linguagem (LLM)”, diz.
A empresa começou por integrar os resumos de IA , que dão alguma informação básica sobre os temas. Em outubro , chegou a Portugal o modo de IA, que permite responder a questões mais complexas e a fazer questões adicionais. Ambas as opções coexistem com a pesquisa "tradicional”, que implica abrir ligações e explorar sites onde há publicidade. Foi nesse mercado, o dos anúncios online , que a Google foi crescendo até se tornar numa gigante da internet. Até setembro de 2025, a publicidade gerou receitas de 74,2 mil milhões de dólares (63,3 mil milhões de euros), mais do que os 65,9 mil milhões de dólares do mesmo período de 2024 (56,2 mil milhões de euros).
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Desde que a IA foi ganhando espaço na pesquisa que os analistas levantam dúvidas sobre se esta tecnologia não se arrisca a canibalizar o motor de receitas da empresa. Em teoria, ao ler os resumos — mesmo que com alguns erros — os utilizadores podem dispensar abrir ligações, afetando o comportamento dos anúncios. Paulo Rosa, do Banco Carregosa, considera mesmo que 2026 "será um ano decisivo para o motor de pesquisa Google”, que está a ser "pressionado pela ascensão da IA generativa”. Em 2026, a empresa terá de "evoluir as experiências de pesquisa mais de ‘conversa’, mantendo a relevância do seu modelo publicitário”, explica.
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No novo ano, a Google "continuará sob forte escrutínio regulatório, sobretudo na Europa e nos EUA, no que toca à concorrência e ao uso de dados”, nota Paulo Rosa, do Banco Carregosa. É que 2026 traz mais uma etapa do processo ligado à área da tecnologia para anúncios. Em abril do ano passado, a juíza Leonie M. Brinkema, do tribunal da Virgínia, decidiu que a Google tem um monopólio na área da tecnologia para anúncios ( adtech ). A empresa recorreu da decisão e, após um julgamento entre setembro e novembro, aguarda uma decisão sobre os remédios. Ainda não há data para a decisão ser conhecida.
Dan Ives, da Wedbush, não acredita que o desfecho deste caso possa trazer amargos de boca à tecnológica. "A Google vai ser capaz de lidar com isto” , diz, recordando o desfecho do caso do monopólio na pesquisa. "A vitória contra o Departamento de Justiça foi um enorme virar de jogo nos EUA.”
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Meta trocou o metaverso pela IA, onde pode ter oportunidades nos óculos
Não é de agora que a Meta, a dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, sinaliza que quer ir além do mundo das aplicações. Através de aquisições de outras empresas, Mark Zuckerberg apostou no vídeo, depois na realidade virtual (com a compra da Oculus, em 2014) e, em 2021, decidiu fazer do metaverso a sua aposta principal. Traçou um objetivo a longo prazo, canalizando milhões de dólares para esta tendência dos mundos virtuais.
Até que a indústria se começou a virar para outras áreas, sobretudo a IA generativa. A Meta, que já tinha planos na área da IA, também se foi afastando de forma gradual do metaverso. Na reta final de 2025, a Bloomberg avançou que a companhia iria cortar em 30% o orçamento do metaverso. Um porta-voz da empresa confirmou "a mudança de parte do investimento” do metaverso para outras áreas, como a IA e os dispositivos wearable .
Com o 22.º aniversário no horizonte, a Meta apresenta "um crescimento sólido da publicidade, apoiado por melhorias em IA que aumentaram a eficácia dos anúncios e o tempo de utilização das plataformas”, contextualiza Henrique Valente, analista da ActivTrades. Nos primeiros nove meses de 2025, a Meta viu as receitas aumentarem 26% em termos homólogos, para 141 mil milhões de dólares (120 mil milhões de euros). A publicidade gerou quase 98% das receitas da Meta até setembro do ano passado. É, sem sombra de dúvidas, o negócio principal para a empresa, "que ajudou a compensar o elevado investimento em IA” , diz Henrique Valente. Em novembro, a tecnológica anunciou que quer investir 600 mil milhões de dólares (511,5 mil milhões de euros) só nos EUA, ao longo de três anos, para expandir a infraestrutura de IA.
"Em 2026, o mercado vai olhar para a capacidade da Meta continuar a extrair mais valor da publicidade e avançar na monetização do WhatsApp, enquanto gere o risco regulatório na Europa e o impacto dos custos do metaverso nas margens”, assegura o analista da ActivTrades.
Também Paulo Rosa, do Banco Carregosa, defende que a tecnológica "deverá continuar a enfrentar desafios na monetização de novas plataformas, em particular no metaverso”. Para o economista, a "IA deverá assumir um papel central na personalização de conteúdos, na publicidade e nas ferramentas para os criadores”. Mas, tal como as restantes gigantes do setor, também será "crucial apresentar aos investidores, ao mercado e aos seus acionistas um cabal retorno dos avultados investimentos realizados nos últimos anos”.
O entusiasmo com o metaverso esfumou-se para dar lugar à febre da IA?
Na reta final de 2025, a Meta anunciou a aquisição da empresa de agentes de IA Manus , uma startup com fundadores chineses que se tornou viral em março. Ao longo dos próximos meses também haverá vários olhos postos nos frutos desta aquisição. Não foi revelado o montante de aquisição, mas a Bloomberg avançou que a Manus terá custado dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) à empresa de Zuckerberg.
Os novos "colegas” de trabalho que "um dia vão queixar-se aos recursos humanos”. O que são os agentes de IA que estão a chegar às empresas?
Além da utilização de IA nas suas plataformas, há ainda outro uso desta tecnologia que Zuckerberg quer experimentar. E que, segundo alguns especialistas, pode vir a crescer como oportunidade para a Meta: a área dos óculos com IA. A empresa já tem alguns modelos no mercado, mas há potencial de crescimento, asseguram os analistas.
Mark Zuckerberg ainda aposta no metaverso — mas acha que agora os óculos com IA são o caminho
Francisco Jerónimo, da consultora IDC, refere que os Meta Ray-Ban, óculos com uma câmara e ligação direta aos serviços da Meta, podem crescer como "uma forma alternativa” para o uso de ferramentas de IA. Uma perspetiva que também é mencionada por Ben Wood, da consultora britânica CCS Insight. "Acho que Mark Zuckerberg conta uma história muito boa sobre os óculos serem uma excelente forma de interagir com a IA”, diz ao Observador. "Ter uns óculos que conseguem ver o que o utilizador vê, poder falar com eles e ouvir… É uma excelente forma de interagir com a IA.”
Além disso, realça a escolha de parceiro da Meta para o desenvolvimento dos óculos conectados. "A decisão mais inteligente da Meta foi fazer um acordo com a EssilorLuxottica para os óculos, como uma parceria exclusiva, que lhes dá acesso a várias marcas” relevantes do mercado. "Se fossem só óculos da Meta poderia haver alguma resistência, do género ‘hum, não sei se quero ter uns óculos do Facebook'”. Mas ao ter a Ray-Ban e os Wayfarer, que é um modelo tão clássico e abrangente, muito aceite na sociedade, isso deixa-os numa posição em que as pessoas podem chegar a uma loja com a ideia de querer comprar uns óculos de sol e saírem com uns smart glasses. Acho que é uma direção muito interessante.”
Na rede social Threads, Zuckerberg deu em dezembro algumas pistas sobre o futuro desta área, ao revelar a contratação de Alan Dye, ex-líder de design da Apple, para chefiar a divisão Reality Labs. "Estamos a entrar numa nova era em que os óculos de IA e outros dispositivos vão mudar a forma como nos ligamos à tecnologia e uns aos outros”, explicou. "O potencial é enorme, mas o que importa mais é que essas experiências pareçam naturais e verdadeiramente centradas nas pessoas. Com este novo estúdio, estamos focados em tornar cada interação cuidadosa, intuitiva e criada para servir as pessoas.”
Microsoft centra IA nas empresas, numa altura em que "relação com OpenAI se torna menos exclusiva”
A caminhar para o 51.º aniversário , em abril, a empresa mais antiga desta lista foi das primeiras a tirar partido económico da aposta na inteligência artificial. Henrique Valente, analista da ActivTrades, considera que a dona do Windows "confirmou-se em 2025 como uma das principais vencedoras do ciclo da IA, com o crescimento do Azure”, a área de computação cloud , "a sustentar a narrativa de mercado e a absorver grande parte do investimento em infraestrutura”. É que, logo no arranque de 2025, a Microsoft anunciou um número redondo de 80 mil milhões de dólares para investimento em IA.
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Este analista dá como exemplo "a exposição transversal a cloud , software e IA” que garantiu à empresa previsibilidade num contexto de gastos elevados”. Em 2026, defende, "o foco passa a ser a monetização” desta tecnologia. "O mercado vai querer ver o Copilot traduzir-se em crescimento recorrente, sem pressão excessiva sobre margens, num momento em que a relação com a OpenAI se torna menos exclusiva e a concorrência em IA se intensifica.”
A Microsoft foi uma das primeiras — e até há bem pouco tempo principais — investidoras na empresa de Sam Altman. Em outubro de 2025, foi anunciado um "novo capítulo” na relação entre as empresas, que, entre várias mudanças, determinou que a OpenAI pode desenvolver produtos em parceria com outras empresas além da Microsoft. Além disso, a Microsoft também passou a deter 27% da OpenAI.
Também Vítor Madeira, da XTB, considera que um dos principais objetivos da dona do Windows passará por "tentar provar que o seu ecossistema Copilot é indispensável para o mundo empresarial” , enquanto "enfrenta custos de computação que podem comprimir as suas margens de software”.
"A Microsoft deverá beneficiar de uma maior integração da inteligência artificial no seu ecossistema de produtos empresariais”, completa Paulo Rosa, do Banco Carregosa. "O desafio dever-se-á centrar na sustentação desse crescimento num mercado de cloud altamente competitivo e responder às exigências regulatórias associadas ao uso de IA em ambientes empresariais.”
O economista considera que "a Microsoft deverá continuar a posicionar-se como um cabal parceiro tecnológico estratégico das empresas e instituições públicas, com foco em produtividade, segurança e fiabilidade”.
O novo ano deverá ainda trazer a implementação de 12.600 unidades de processamento da Nvidia no data center da Start Campus, em Sines, que vão estar ao serviço da Microsoft. Em novembro, Brad Smith, presidente da tecnológica, revelou que ter esta capacidade de computação ao serviço da empresa representa um investimento de 10 mil milhões de dólares (8,6 mil milhões de euros).
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Nvidia vai conseguir manter o ritmo de crescimento?
É cada vez mais difícil falar sobre inteligência artificial sem mencionar a Nvidia, a empresa que desenvolveu os chips que sustentam uma boa parte da infraestrutura de IA global. Pelo destaque no mercado, a empresa liderada por Jensen Huang conseguiu fechar 2025 não com um mas com dois marcos de capitalização bolsista: no verão a chegada à marca dos quatro biliões de dólares e, em outubro, dos cinco biliões.
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Henrique Valente, analista da ActivTrades, considera que a Nvidia se afirmou "como o principal barómetro da IA e, por consequência, do mercado como um todo” . "A forte procura por GPU [unidades de processamento gráfico] para data centers sustentou um crescimento excecional, levando a receitas recorde e a uma valorização histórica em bolsa”, refere. "Em 2026, o mercado vai focar-se em dois pontos: a capacidade da Nvidia manter este ritmo de crescimento à medida que aumenta a produção da nova geração de chips e a forma como gere os riscos geopolíticos, sobretudo ligados às restrições de exportação para a China.”
É que, sendo uma empresa norte-americana, a Nvidia esteve sujeita às limitações decretadas pelos EUA nos artigos a vender à China, com receio de que a tecnologia chinesa possa vir a ultrapassar a norte-americana na IA. Em outubro, Jensen Huang afirmou que a Nvidia "passou de uma quota de mercado de 95% para 0%” na China, relatando o impacto da proibição. No entanto, em dezembro a administração Trump aliviou as regras para as exportações dos chips da Nvidia para a China, o que poderá reavivar a posição da tecnológica norte-americana.
Além das dúvidas sobre o mercado chinês, a Nvidia tem ainda outros desafios, nomeadamente a concorrência de outras empresas. A AMD já deu sinais de não querer abandonar a corrida e, conforme nota Vítor Madeira, da XTB, "as margens operacionais da Nvidia podem ser ameaçadas à medida que os seus maiores clientes começam a desenvolver os seus próprios chips customizados, tal comos os TPU da Google, para reduzir a dependência externa”.
Em novembro, uma notícia sobre as TPU, as unidades de processamento de tensores, desenvolvidas pela Google, fizeram mexer as ações da Nvidia. Tudo porque foi avançado que a Meta estaria em conversações com a Google para adquirir TPU desenvolvidas pela gigante de pesquisa. Num só dia, as ações da Nvidia caíram 4% devido à notícia avançada pelo site The Information.
Paulo Rosa, do Banco Carregosa, acredita que a empresa "deverá continuar a beneficiar da procura por hardware de IA ”, mas que em 2026 o "foco deverá estar na expansão para software , plataformas e soluções integradas, bem como na diversificação para setores como automóvel, robótica e computação científica”.
OpenAI. Dona do ChatGPT terá de passar à rentabilidade e desvendar o mistério do trabalho com Jony Ive
A OpenAI pode não ser uma big tech como as restantes mencionadas. Mas, entre anúncios com gigantes e várias parcerias, a empresa de Sam Altman foi conquistando espaço no setor tecnológico.
"Este ano, a OpenAI esteve no epicentro da revolução da inteligência artificial generativa, com o ChatGPT a ganhar escala global e a empresa a acelerar a adoção no segmento empresarial”, começa por contextualizar Henrique Valente, da ActivTrades. "O crescimento das receitas e da base de utilizadores reforçou a perceção de que a OpenAI deixou de ser apenas um laboratório de investigação para se tornar uma plataforma tecnológica com peso económico real.” Em dezembro, a OpenAI revelou que o ChatGPT é utilizado por 800 milhões de pessoas semanalmente.
Ao mesmo tempo, este analista não ignora o "volume de investimento necessário para sustentar o ritmo de inovação” que pressiona a empresa. Acredita que será por esse prisma que o mercado vai analisar o desempenho da OpenAI, sobretudo " a capacidade de a empresa transformar escala em rentabilidade, diversificar fontes de receita e reduzir dependências estratégicas, num contexto de concorrência crescente e de exigência crescente por modelos de negócio sustentáveis”.
Será um ano para enfrentar "um equilíbrio delicado entre inovação, sustentabilidade financeira e enquadramento regulatório”, acrescenta Paulo Rosa. "A pressão para demonstrar modelos de negócio viáveis economicamente será crescente, enquanto aumentam as exigências éticas e de segurança”, explica. "A empresa estará sob forte pressão para justificar investimentos que já ascendem a várias centenas de milhares de milhões de dólares em infraestruturas, computação e desenvolvimento de modelos, num contexto em que os custos operacionais permanecem muito elevados.”
É que, como diz Paulo Rosa, "apesar do crescimento das receitas, a empresa continua a gastar mais do que ganha, acumulando perdas de vários milhares de milhões de dólares”. Nesse sentido, considera que "o sucesso da OpenAI dependerá da capacidade de transformar liderança tecnológica em modelos de negócio sustentáveis, sem comprometer a confiança, segurança e adoção”. E, ao mesmo tempo, como lidará com a concorrência. Em dezembro, foi notícia o "alerta vermelho” declarado por Sam Altman devido à aproximação de concorrentes como a Google.
OpenAI declara "alerta vermelho” pela aproximação da concorrência, incluindo a da Google
Vítor Madeira, da XTB, coloca a fasquia noutro ponto — a forma como a OpenAI pode vir a fazer "a transição para os agentes de IA autónomos” . "Mas a empresa enfrenta a fraqueza estrutural de não possuir um ecossistema de distribuição próprio (como um sistema operativo), dependendo de parcerias com a Microsoft e a Apple para chegar ao utilizador final, enquanto lida com custos de treino dos modelos que têm atingido valores astronómicos”, concretiza.
Há ainda mais um desafio para a empresa: o mistério sobre a "família de produtos” pensada para a IA que motivou a aquisição da empresa de Jony Ive. O ex-designer da Apple, conhecido pelo design do iPhone, vendeu a sua Io por 5,6 mil milhões de dólares à OpenAI , em maio de 2025. Porém, até agora, há poucos sinais sobre o que está a ser desenvolvido.
OpenAI compra startup de Jony Ive, ex-designer da Apple que criou o iPhone, por 5,6 mil milhões de euros
Pelo meio, a OpenAI terá ainda de lidar com todos os processos que tem em tribunal, seja por infrações a direitos de autor como pelo uso do ChatGPT. Na segunda área, um dos casos de maior destaque é o processo apresentado pela família Raine, que processou a OpenAI após a morte do filho adolescente de 16 anos. Os pais de Adam Raine processaram a empresa em agosto, acusando a tecnológica da morte do filho por falhas de conceção do chatbot e nas limitações dos avisos.