Espanhóis sabiam do risco de apagão
Falha de energia com pouco impacto na economia nacional Efeito "transversal” do corte apaga 20 milhões da metalurgia
Red Eléctrica já sabia do risco de apagão há dois meses
Alertou para o "perigo hipotético” de um apagão, com "desconexões de geração” de energia elétrica que poderiam ser "severas”. Em causa estaria o excesso de renováveis e o fim das centrais fósseis
O risco de apagão generalizado na Península Ibérica já era conhecido pela Red Elétrica Espanhola (REE), que há apenas dois meses, no seu relatório anual de 2024, alertou para este "perigo hipotético”. Nessa altura, a empresa falava já em eventuais "desconexões de geração” de energia elétrica que poderiam ser "severas” e afetar "significativamente” o abastecimento, por conta da elevada penetração de fontes de energia renovável, assinala o El País.
Já a Redeia, empresa-mãe da REE, também emitiu alertas relacionados com o encerramento de centrais a carvão, gás natural e nucleares no país, o que reduz a resiliência do sistema elétrico face a imprevistos, bem como a chamada "potência firme, o equilíbrio da rede, a sua robustez e inércia”.
Depois de o pior cenário possível se ter, de facto, tornado realidade, com Portugal e Espanha mergulhados na "escuridão” por cerca de 12 horas, adensam-se agora as teorias sobre os "misteriosos eventos” que causaram um apagão nunca antes visto. Em conferência de imprensa, a REE explicou o que aconteceu no espaço de apenas 5 segundos, a partir das 11h33 desta segunda-feira: primeiro foi registada uma "espécie” de quebra de geração de energia na região sudoeste de Espanha, da qual o sistema recuperou; 1,5 segundos depois, uma segunda perda de produção; e 3,5 segundos mais tarde houve uma "disrupção na conexão” entre Espanha e França, que isolou a Península Ibérica da rede elétrica europeia. Seguiu-se um "’shutdown’ massivo” das centrais renováveis espanholas, à qual o sistema ibérico não conseguiu "sobreviver”, entrando em "extrema falência” e "colapso”, descreveu Eduardo Prieto, diretor de Serviços e Operações da REE.
"Estas não são ainda conclusões definitivas, porque não temos informações completas”, disse o responsável, acrescentando que a rede elétrica ibérica ficou mesmo "a zeros”. Nas palavras do presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, nestes cinco segundos registou-se uma quebra repentina de 60% da energia que o país estava a consumir no momento. Em menos de nada, 15 gigawatts "desapareceram” do sistema. No momento do apagão, o mix energético do país vizinho era dominado sobretudo por energia solar e eólica.
"Isto é algo que jamais aconteceu”, admitiu o primeiro-ministro espanhol, acrescentando que "os especialistas ainda não conseguiram determinar o que provocou esta perda súbita no abastecimento de eletricidade, mas ainda iram fazê-lo”. Sánchez "não afastar nenhuma hipótese, nenhuma possibilidade”, e promete responsabilizar os "operadores privados” e tomar medidas para garantir que não aconteça novamente. Negou ainda que a interrupção tenha sido causada pela falta de energia nuclear e anunciou que Espanha solicitará um relatório independente de Bruxelas (ideia apoiada por Portugal).
Por seu lado, a REE descartou que o apagão tenha sido causado por um ciberataque, erro humano ou algum fenómeno meteorológico ou atmosférico incomum. E aponta para dois episódios de "desconexão de geração”, provavelmente com origem na energia solar.
Especialistas alertam para hipótese de "erro humano” No entanto, na opinião de Nuno Ribeiro da Silva, ex-secretário de Estado da Energia e antigo presidente da elétrica espanhola Endesa em Portugal, culpar o solar "não faz sentido nenhum” e não descarta o cenário de erro humano. "Portugal já operou vários dias seguidos só com renováveis e não aconteceu nada. Se havia solar a mais em Espanha naquele dia, a responsabilidade de acautelar a situação era do operador do sistema”, disse Ribeiro da Silva ao Negócios, descrevendo o apagão como "algo inédito” e "um soco no estômago da rede”.
O especialista acredita que sairá um "relatório preliminar em dias” e que as causas técnicas serão conhecidas em breve, ainda esta semana, sendo importante apurar o que aconteceu naqueles cinco segundos e porque não foi possível travar o "contágio”. Depois há que tirar ilações e lições para o futuro. Poderá voltar a acontecer? "É sempre possível, mas a probabilidade é ínfima, como um terramoto ou a queda de um avião. A rede funcionou durante décadas e isto nunca aconteceu antes”, referiu.
Por seu lado, Jerónimo Cunha, ex-diretor-geral da DGEG e responsável pela área de Energia na EY, sublinhou ao Negócios a necessidade de manter um investimento contínuo e a um maior ritmo nas redes elétricas, para adaptar o sistema à crescente penetração de energias renováveis, por natureza mais intermitente. "A gestão da rede não está adaptada à realidade atual, por isso é necessário aumentar a capacidade da rede, para lhe dar mais redundância e segurança”, disse, sublinhando também a "falta de inércia” na rede, uma espécie de "alimentação mínima contínua” para o sistema nunca chegar a zero.
Na sua visão, isto poderia ser feito, por exemplo, a partir dos geradores que ainda se mantém funcionais na central a carvão do Pego. Concorda também com a existência de mais centrais em Portugal com função de "arranque autónomo”. Além da Tapada do Outeiro e Castelo de Bode, o Governo já veio dizer que quer as centrais do Baixo Sabor e Alqueva a atuar como "black start”. Outra recomendação passa pelo uso de sistemas de inteligência artificial para antecipar fenómenos adversos, avaliar cenários e otimizar o sistema. Também Jerónimo Cunha alerta que um novo apagão pode voltar a acontecer Numa análise mais técnica, António Vidigal, especialista e consultor em energia, escreveu no LinkedIn que se tratou de uma "oscilação súbita nos fluxos de potência”. Depois disso, "a rede ibérica ficou isolada em ilha e foi caindo como um baralho de cartas”. "Numa primeira análise, parece ter sido uma perturbação ampliada pela baixa inércia do sistema ibérico na altura do incidente”, refere Vidigal, dando conta que antes do apagão Espanha estava com 18,3 GW de solar, 3,6 GW de eólica, 202 MW de hídrica, 3,4 GW de nuclear, 1,6 GW de gás natural, 230 MW de carvão, e a exportar 4,2 GW.
Já Pedro Amaral Jorge, presidente da APREN, diz que a relação entre o apagão e a energia solar não está provada. "O funcionamento do sistema elétrico depende do equilíbrio permanente entre potência disponibilizada e consumida. Se isto não acontecer, os sistemas desligam-se automaticamente, desencadeando um efeito dominó de desconexões. Depois disto, a recuperação da rede é um processo gradual e altamente exigente”.
Por último, João Bernardo, ex-diretor-geral da DGEG, defendeu no LinkedIn que "a segurança energética é uma prioridade indiscutível”, argumentando, tal como já tinha feito no passado, que o encerramento das centrais a carvão do Pego e de Sines (em 2021) "trouxe algumas fragilidades ao sistema elétrico nacional que, até ao momento, o reforço das renováveis e o aumento da interligação com Espanha não conseguiram colmatar”. "A proximidade temporal dos encerramentos aumentou a vulnerabilidade do sistema. Além de fornecerem 1.884 MW de potência firme e despachável (equivalente a cerca de 8 GW de potência solar ou eólica), estas centrais eram também fontes críticas de inércia elétrica, elemento essencial para a estabilidade do sistema”.
"A produção solar, apesar de crescente e desejável, enfrenta limitações. Se a rede falhar, os inversores solares tendem a desligar-se. Ao contrário, as grandes centrais térmicas (a carvão, gás ou biomassa) contribuem ativamente para a estabilidade”, referiu ainda João Bernardo, dizendo que "Portugal se vê forçado a recorrer às importações de eletricidade de Espanha”.
"Portugal já operou vários dias seguidos só com renováveis e não aconteceu nada.", NUNO RIBEIRO DA SILVA Ex-secretário de Estado da Energia
A gestão da rede não está adaptada à realidade atual. É preciso aumentar a capacidade, para lhe dar mais redundância e segurança.", JERÓNIMO CUNHA Ex-diretor-geral da DGEG
"A produção solar tem limitações. Já as centrais térmicas contribuem para a estabilidade.", JOÃO BERNARDO Ex-diretor-geral da DGEG
"Blackout” transversal apaga 20 milhões da metalurgia
Há quem ainda esteja a apurar os impactos causados pelo apagão de segunda-feira, mas a metalurgia atira um número provisório para cima da mesa. Exportações e encomendas podem sofrer alterações num setor que se pauta por ser "cumpridor”.
O apagão geral de segunda-feira forçou a paragem de máquinas bem oleadas que nem os geradores conseguiram colocar a funcionar. A diretora-geral da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), Mafalda Gramaxo, dá conta de um impacto de elevada magnitude, que pode mesmo superar os 20 milhões de euros.
"O primeiro prejuízo direto é a não produção e a não faturação. Há empresas que têm geradores, mas não conseguem suportar a carga das máquinas mais pesadas, chega apenas para a secção da faturação e para os computadores de apoio”, vinca a diretora da AIMMAP. "A média da perda de horas não trabalhadas, e falamos de parte do primeiro turno e todo o segundo, é de 16 milhões de euros”, explica.
A este valor é acrescido o prejuízo de máquinas danificadas durante o corte de energia, cujos custos de manutenção "são elevados”.
A AIMMAP destaca ainda o custo direto que as empresas sentiram assim que o interruptor se desligou, entre encomendas por fazer, potencial perda de novos contactos e a não produção. "As médias e grandes empresas estão a reportar prejuízos de 75 a 100 mil euros. Não há custos inferiores a 50 mil euros”, adianta Mafalda Gramaxo.
Impacto generalizado
O presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Luís Miguel Ribeiro, diz ao Negócios que todos os setores de atividade foram afetados, sendo que "em se-José Gageirotores como a indústria transformadora o impacto é potencialmente mais significativo”.
Na Simoldes, a falta de energia foi apenas um dos problemas. A incapacidade de enviar etiquetas foi mais grave.
"As indústrias agroalimentares sofreram bastante com a longa paragem das linhas de produção.", RAFAEL ALVES ROCHA, Diretor-geral da CIP
Também Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, garante que os prejuízos "foram transversais ao tecido empresarial”, embora "as indústrias agroalimentares tenham sofrido bastante com a longa paragem das linhas de produção”. O diretor revela mesmo que produtos perecíveis tiveram de ser destruídos, dando o exemplo concreto dos produtos lácteos.
Embora os geradores tenham salvo operações, "várias empresas mantiveram a sua atividade encerrada durante longas horas”, mas o penso rápido "não permitiu alcançar a normalidade”, adianta a AEP.
Questionados sobre se estão a pensar avançar com um pedido de apoio para colmatar as perdas sentidas, Luís Miguel Ribeiro sustenta que estes são bem recebidos: "apoios excecionais a situações excecionais são sempre bem-vindos”.
A AIMMAP parece ser mais esperançosa, admitindo a possibilidade de se pensar nesta solução para mitigar alguns impactos. "Esperamos que esteja a ser pensada uma forma de apoiar as empresas”, apela Mafalda Gramaxo.
Comunicação foi o principal problema da Simoldes
O grupo Simoldes foi um dos que se viu forçado a suspender a produção nacional por falta de energia. O CEO da Simoldes Plásticos, Domingos Pinto, diz ao Negócios que o impacto será elevado, mas que poderia ser bastante superior se o evento se tivesse prolongado no tempo. "A produção esteve totalmente parada em Portugal entre as 11h30 e a meia-noite, mas a falta de energia não foi o problema”, aponta o responsável. "A falta de comunicações foi o principal problema, e fomos trabalhando com limitações até ficarmos incontactáveis”, explica. Domingos Pinto adianta que embora tenham fábricas a produzir peças no estrangeiro, foi impossível fazer o envio das mesmas. "As nossas fábricas lá fora não conseguiam enviar os produtos por não estarmos a conseguir fazer as etiquetas digitais”. Sem o envio dos produtos, essencial ao funcionamento, a Simoldes teria apenas "stock” para "um dia ou dia e meio”, o que seria difícil de gerir caso o problema se tivesse prolongado.
Contudo, a diretora parece mais preocupada nos impactos que vão surgir nas próximas semanas. "O setor é muito resiliente e está a trabalhar. Mas não podemos esquecer o impacto que este apagão vai ter nas exportações e nas entregas, porque falamos de um dia sem produção”, sustenta.
Já o diretor da CIP parece mais contido. "É tempo de reativar a atividade económica a 100%. As contas dos prejuízos, e possíveis medidas a adotar para a mitigação desses custos, far-se-ão a seu tempo depois do levantamento exaustivo da situação”.
Apagão começou poucos minutos depois das 11:30 de segunda-feira e o serviço começou a ser reposto ao início da noite.
Apagão histórico com impacto pequeno na economia nacional
Sem eletricidade durante cerca de 12 horas, a economia portuguesa poderá ter perdido perto de 0,1% do seu PIB trimestral. Impacto imediato é pequeno, mas analistas mostram-se mais preocupados sobre o que diz o apagão das fragilidades do setor elétrico nacional.
A economia pode ter perdido cerca de 0,1% do seu valor trimestral com o apagão desta terça-feira, dado o peso do setor energético no PIB português, um impacto imediato pequeno, mas que deixa os analistas em alerta para outras fragilidades no futuro.
Fábricas e transportes parados, supermercados fechados, voos nos aeroportos desviados. O apagão que deixou Portugal sem eletricidade durante grande parte desta segunda-feira, 28 de abril, limitou fortemente a atividade da economia portuguesa durante cerca de 12 horas, a partir das 11:33. Mas com que impacto no PIB?
Se durante o apagão a atividade foi reduzida, com o fornecimento da eletricidade estabelecido a 100% - os casos onde ainda não existe luz são localizados e devem-se a falhas próprias -, os analistas ouvidos pelo Negócios esperam que a esmagadora maioria da atividade económica que não foi realizada no dia do apagão seja agora rapidamente recuperada.
No entanto, a quebra de produção elétrica terá, só por si, impacto na economia, dado o seu peso no PIB. "O que não será recuperado é a própria produção de energia. Estamos a falar de quase um dia. Um dia num trimestre corresponde a 1% do PIB trimestral, a energia vale cerca de 10% disso, talvez menos, o impacto pode ser até 0,1%”, admite João Borges de Assunção, que dirige o Núcleo de Estudos Económicos (NECEP) da Universidade Católica. Considerando os valores do PIB do segundo trimestre de 2024 apurados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), um impacto dessa dimensão significa cerca de 55 milhões de euros.
Em outros setores, de maior dimensão no PIB ou mais dependentes de energia, a atividade não ficou totalmente parada. Porexemplo, na indústria é comum existirem "sistemas de ‘backup’” que podem ter atenuado a falha elétrica e, consequentemente, a quebra na produção.
Isso aconteceu, por exemplo, no setor financeiro. Embora a rede Multibanco, operada pela SIBS, tenha continuado a operar, a falta de energia em caixas ATM e em dispositivos de pagamento provocou dificuldades. Alguns bancos tiveram de colocar as agências a funcionar à porta fechada. Mas a negociação na bolsa de Lisboa decorreu com normalidade e a Euronext esteve a operar com recurso a geradores.
Outro setor que poderá ter sido mais afetado foi o da restauração, mas sem uma paralisação total - o fecho dependeu da capacidade de pagamentos a dinheiro e de funcionar ou não com recurso a geradores e com fogões a gás - Borges de Assunção desvaloriza o impacto.
No geral, o apagão teve um "impacto que se espera que seja pequeno, que não afeta o crescimento potencial da economia, nem o emprego. Não muda nada”, afirma o professor da Católica.
Apagão deixa questões para o futuro
Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, concorda: "Não se prevê qualquer impacto mensurável no PIB, dada a curta duração do evento e a natureza temporária das perturbações”.
DO MOMENTO DA QUEDA À RECUPERAÇÃO
Produção e consumo de eletricidade entre as 00:00 e as 23:45 do dia 28 de abril, em MW
O apagão generalizado é visível no gráfico disponibilizado pela Redes Energéticas Nacionais (REN), com uma queda quase total na produção e consumo de eletricidade em Portugal. A rede elétrica funciona em equilíbrio o que significa que a oferta tem de igualar a procura. Os dados disponibilizados têm um intervalo de 15 minutos. É possível verificar que a reposição foi sendo gradual a partir do final da tarde.
QUANTO PESA O SETOR NA ECONOMIA?
Os dados indicam um peso próximo de 1% na riqueza produzida no país para o setor da produção e distribuição de eletricidade, gás, vapor e ar frio. O último dado disponível é de 2022.
Em causa está a elevada dependência da rede espanhola e a falta de redundância técnica, considera. Por isso, defende, "o episódio realça a importância de reforçar a resiliência dos sistemas elétrico, digital e logístico”.
Paulo Rosa considera ainda que o apagão deixa "uma lição financeira importante”: a necessidade de dispor de dinheiro físico quando os meios de pagamento eletrónico falham. "Este cenário levanta questões sobre até que ponto o futuro euro digital do BCE poderá substituir por completo o numerário tradicional, sobretudo em situações de falha energética ou tecnológica”, comenta. O analista do Banco Carregosa aponta também a fragilidade das criptomoedas nestes casos.
Ao mesmo tempo, o apagão pode dificultar a interpretação do impacto das tarifas de Donald Trump sobre os produtos portugueses e, consequentemente, o PIB. Para Borges de Assunção, "elas, sim, podem mudar alguma coisa” na economia portuguesa.
"Num contexto em que estamos à procura dos sinais da guerra comercial na economia portuguesa no segundo trimestre, esta perturbação vai dificultar a interpretação dos dados”, disse. O professor da Católica dá como exemplo os números da utilização do multibanco e das vendas a retalho. Ainda assim, a dificuldade pode colocar-se no segundo trimestre, mas em termos anuais dissipa-se, aponta.
O apagão e o costume
As causas para o apagão que colocou a Península Ibérica às escuras serão conhecidas, em detalhe, lá mais à frente. Terão mesmo de o ser, de modo a evitar uma situação que demonstrou a vulnerabilidade de Portugal e Espanha em matéria de segurança energética.
O que se passou tem de ser percebido e explicado de forma minuciosa, não para crucificar responsáveis, mas sim para evitar a sua repetição. Até porque, tanto quanto se sabe, não se verificou qualquer tipo de fenómeno extraordinário que possa ser identificado como a causa para este inédito apagão.
Por outro lado, importa admitir que a REN, a E-Redes e a EDP acabaram por responder de forma satisfatória a um quadro que era suscetível de criar um caos prolongado no tempo.
Depois temos o costume. O costume é a oposição a atirar culpas para o Governo e este a colocar-se em bicos dos pés, garantido que conseguiu pôr cobro à crise. Pelo caminho houve governantes a dar tiros nos pés, por exemplo, o responsável pela Coesão Nacional que admitiu a possibilidade de um ciberataque, enquanto a ministra da Administração Interna nem sequer deu sinal de vida.
Em período de eleições, o aproveitamento propagandístico do apagão tornou-se ainda mais flagrante. As intervenções servem apenas para ocupar o espaço mediático com putativas soluções que depois se perdem no tempo.
A título de exemplo basta lembrar a promessa feita em 2019 pelo então Governo PS de construir um oleoduto para abastecer o aeroporto de Lisboa no rescaldo de uma greve de motoristas de mercadorias perigosas que cortou o abastecimento àquela infraestrutura. O projeto nunca saiu do papel e no ano passado o atual governo acabou mesmo por o excluir pela simples razão de que nunca mais houve uma paralisação com as dimensões daquela que esteve na base do referido anúncio.
A ideia avançada pelo primeiro-ministro de criar uma comissão técnica independente para avaliar a gestão desta crise que só tomará posse após as eleições legislativas de 18 de maio reúne todas as condições para se inscrever na mesma categoria da promessa do oleoduto verbalizada em 2019. Contém os danos políticos imediatos, mas o decorrer do tempo transforma-a numa excrescência que se vai diluindo na memória coletiva. O costume é a oposição atirar culpas ao Governo e este pôr-se em bicos dos pés.
As causas para o apagão que colocou a Península Ibérica às escuras serão conhecidas, em detalhe, lá mais à frente. Terão mesmo de o ser, de modo a evitar uma situação que demonstrou a vulnerabilidade de Portugal e Espanha em matéria de segurança energética.
O que se passou tem de ser percebido e explicado de forma minuciosa, não para crucificar responsáveis, mas sim para evitar a sua repetição. Até porque, tanto quanto se sabe, não se verificou qualquer tipo de fenómeno extraordinário que possa ser identificado como a causa para este inédito apagão.
Por outro lado, importa admitir que a REN, a E-Redes e a EDP acabaram por responder de forma satisfatória a um quadro que era suscetível de criar um caos prolongado no tempo.
Depois temos o costume. O costume é a oposição a atirar culpas para o Governo e este a colocar-se em bicos dos pés, garantido que conseguiu pôr cobro à crise. Pelo caminho houve governantes a dar tiros nos pés, por exemplo, o responsável pela Coesão Nacional que admitiu a possibilidade de um ciberataque, enquanto a ministra da Administração Interna nem sequer deu sinal de vida.
Em período de eleições, o aproveitamento propagandístico do apagão tornou-se ainda mais flagrante. As intervenções servem apenas para ocupar o espaço mediático com putativas soluções que depois se perdem no tempo.
A título de exemplo basta lembrar a promessa feita em 2019 pelo então Governo PS de construir um oleoduto para abastecer o aeroporto de Lisboa no rescaldo de uma greve de motoristas de mercadorias perigosas que cortou o abastecimento àquela infraestrutura. O projeto nunca saiu do papel e no ano passado o atual governo acabou mesmo por o excluir pela simples razão de que nunca mais houve uma paralisação com as dimensões daquela que esteve na base do referido anúncio.
A ideia avançada pelo primeiro-ministro de criar uma comissão técnica independente para avaliar a gestão desta crise que só tomará posse após as eleições legislativas de 18 de maio reúne todas as condições para se inscrever na mesma categoria da promessa do oleoduto verbalizada em 2019. Contém os danos políticos imediatos, mas o decorrer do tempo transforma-a numa excrescência que se vai diluindo na memória coletiva.
O costume é a oposição atirar culpas ao Governo e este pôr-se em bicos dos pés.