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13 março 2026 08h05

Estreito de Ormuz: portugueses já sabiam da importância dos chokepoints

Estreito de Ormuz: portugueses já sabiam da importância dos chokepoints

Por: PAULO MONTEIRO ROSA

Economista Sénior do Banco Carregosa

 

O petróleo do Golfo Pérsico é essencialmente "waterborne”, ou seja, o seu escoamento depende do transporte marítimo, mas pode tornar-se quase "landlocked” quando o Estreito de Ormuz fica praticamente fechado, já que este estreito funciona como o principal gargalo para a saída do petróleo e do gás natural da região para os mercados globais, apesar de existirem algumas rotas alternativas de exportação.

 

O transporte marítimo continua a ser o meio mais barato para transportar grandes quantidades de mercadorias. No mar, o atrito é relativamente baixo, permitindo transportar a custos reduzidos grandes cargas, sobretudo "commodities” agrícolas (trigo, milho, café, soja), energéticas (petróleo e gás natural) e metais industriais (cobre, alumínio, níquel, zinco). Assim, ao longo da história, essa realidade fixou populações e atividades económicas no litoral, em particular em cidades com grandes portos, funcionando como pontos de entrada e saída de mercadorias entre os mercados globais e o interior dos países.

 

Sabendo da importância do mar para o comércio global, o Golfo Pérsico não é geograficamente um "landlocked”, mas na prática torna-se quase como se fosse quando o Estreito de Ormuz está bloqueado ou quase bloqueado. Isto acontece porque praticamente todas as exportações de petróleo dos países do Golfo — como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Irão — dependem dessa passagem marítima para chegar ao oceano aberto. Em condições normais, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia atravessam o estreito, representando cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo. O Estreito de Ormuz tem apenas 39 km de largura, e as rotas de navegação úteis são ainda mais estreitas, tornando-o no mais importante "chokepoint” energético do planeta.

 

A nível global existem também outros importantes "chokepoints” energéticos, incluindo o Estreito de Malaca, por onde passam cerca de 17 milhões de barris de petróleo por dia, o Canal de Suez e o oleoduto SUMED, com cerca de 7 a 9 milhões de barris diários, e o estreito de Bab el-Mandeb, com aproximadamente 6 a 7 milhões, enquanto os estreitos dinamarqueses e o Bósforo têm fluxos bastante menores.

 

As alternativas e a herança histórica

 

Existem algumas alternativas a Ormuz, mas a sua capacidade é limitada. A principal é o oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita, que transporta petróleo desde os campos do Golfo até ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, com uma capacidade de cerca de 7 milhões de barris por dia. Os Emirados Árabes Unidos também dispõem de um oleoduto que liga os campos de Abu Dhabi ao porto de Fujairah, já fora do Estreito de Ormuz, com capacidade de cerca de 1,5 a 1,8 milhões de barris por dia. Além disso, o Iraque tem um oleoduto que liga a região de Kirkuk ao porto turco de Ceyhan, no Mediterrâneo, embora na prática transporte normalmente menos de 1 milhão de barris por dia.

 

A importância estratégica do Estreito de Ormuz não é recente e já no início do século XVI os portugueses compreenderam a relevância desta passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, conquistando Ormuz em 1515 e controlando o estreito durante cerca de um século, numa rede de posições estratégicas que incluía também Malaca, Goa e outras zonas que permitiam dominar as principais rotas do comércio no Índico, refletindo a lógica geopolítica portuguesa da época de controlar os estrangulamentos marítimos ("chokepoints”) do comércio asiático.

 

Somando as rotas alternativas na região do Golfo Pérsico, a capacidade total para exportar petróleo desta região sem passar pelo Estreito de Ormuz é de cerca de 9 a 10 milhões de barris por dia, ou seja, metade do volume que normalmente atravessa o estreito. Assim, se Ormuz ficar completamente fechado, uma parte significativa do petróleo do Golfo deixará de chegar ao mercado mundial, culminando num choque de oferta, pressionando os preços da energia.

 

Por essa razão, o Estreito de Ormuz é considerado um dos pontos estratégicos mais críticos da economia global. Os países asiáticos são os mais afetados, nomeadamente grandes economias como China, Índia, Coreia do Sul e Japão, porque cerca de 80% do petróleo exportado pelo Golfo tem como destino a Ásia. Além disso, o gás natural é muito importante para a produção de amoníaco, ureia e fertilizantes, sobretudo para a agricultura na Índia. A todos interessa que o Estreito de Ormuz reabra plenamente o mais depressa possível, caso contrário crescerão os receios de um forte aumento da inflação e de estagnação económica, ou seja, estagflação.

 

 

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