ETF mais subscritos de março: combinação pragmática entre proteção, diversificação e exposição a tendências estruturais
O mês de março revelou-se especialmente turbulento para os mercados, como já observado no artigo dos fundos mais subscritos. Neste contexto, a forma como os investidores de retalho selecionaram ETF ao longo do último mês oferece um retrato claro de como os riscos macroeconómicos e geopolíticos estão a ser assimilados fora do universo institucional. Longe de uma abordagem especulativa desordenada, as escolhas e a seletividade evidenciam antes uma combinação pragmática entre proteção, diversificação e exposição a tendências estruturais, como sublinha João Queiroz, head of Trading do Banco Carregosa.
Centralidade dos EUA, sofisticação cambial e regresso dos ativos reais ao centro da narrativa
No ranking dos ETF mais subscritos no Banco Carregosa, destaca-se desde logo a centralidade dos Estados Unidos. "Num contexto global marcado por choques energéticos, tensões geopolíticas e divergências nas políticas monetárias, o mercado norte-americano continua a ser visto como o principal polo de previsibilidade relativa”, explica João Queiroz. Segundo o profissional, a preferência por ETF de exposição ampla ou genérica, seja ao S&P 500, seja a índices globais, "traduz a confiança na capacidade das empresas americanas para preservar margens, adaptar cadeias de produção e tirar partido de políticas fiscais e industriais mais assertivas”.
A este primeiro traço junta-se um segundo: a sofisticação cambial. A procura por versões com cobertura cambial mostra, explica João Queiroz, que o investidor de retalho está hoje "mais consciente do impacto do risco cambial no retorno final”. Na opinião do head of trading do Banco Carregosa, num mês em que o dólar norte-americano foi um dos principais beneficiários do choque energético, "a gestão do risco cambial deixou de ser acessória para passar a fazer parte integrante da estratégia”.
Em paralelo, ganha força um terceiro elemento: o regresso dos ativos reais ao centro da narrativa. Segundo João Queiroz, a inclusão de ETF relacionados ao ouro não decorre apenas de receios inflacionistas imediatos, mas de uma "perceção mais ampla de fragilidade do equilíbrio macro: endividamento elevado, choques no private equity, margens orçamentais limitadas e menor capacidade dos bancos centrais para responder a choques de oferta sem custos e impactos colaterais”. Esta leitura mais cautelosa ajuda também a explicar a quarta dimensão observada: a redução da procura por ativos de taxa fixa, como obrigações soberanas, num contexto de importações mais onerosas em que os mais elevados preços de produtos de consumo generalizado estão novamente sujeitos a riscos de menor oferta, contribuindo para uma inflação mais persistente.
Por último, apesar do reforço de posições defensivas, não se verifica um abandono da exposição a temáticas emergentes, como a computação quântica. Segundo João Queiroz, isto sugere que o investidor de retalho não está a abandonar o futuro nem a desprezar a ciência, apenas a comprimi-lo em termos de peso relativo. "Mesmo em ambientes adversos, persiste a convicção de que inovação tecnológica poderá continuar a ser um dos principais motores de criação de valor no longo prazo”, acrescenta.
Obrigações passam a dominar o ranking
Por sua vez, o ranking dos ETF mais subscritos do Banco Best é dominado pelas obrigações, em contraciclo face aos últimos meses, com a exposição à dívida norte-americana e europeia em destaque. "Com eclodir e a intensificação do conflito no Médio Oriente a desencadear uma forte subida dos preços da energia, com o petróleo a aumentar de forma significativa, os mercados obrigacionistas registaram volatilidade, com as yields a subir e os preços a cair, alimentados pelas renovadas preocupações com a inflação nas principais economias”, explica Angelo Custódio, trader na entidade
Dentro desta classe de ativos, destacam-se o iShares 0-3 Month Treasury Bond, que procura replicar a performance de obrigações governamentais americanas de curto prazo, o iShares Amundi Euro Corporate Bond 0-3Y ESG, com exposição a obrigações corporativas denominadas em euros de curto prazo, o Ishares Euro Government Bond 3-5yr e oiShares Euro Government Bond 15-30yr, instrumentos que procuram replicar a performance de obrigações governamentais europeias de médio e longo prazo.
No segmento acionista, as escolhas recaíram sobre o iShares S&P 500 Info Technology Sector, que procura replicar a performance do setor tecnológico do índice de referência norte-americano S&P 500, o iShares Core MSCI World, o Vanguard FTSE All-World e o Vanguard FTSE Developed Europe, opções mais generalistas com foco nas ações dos países/economias mais desenvolvidos a nível mundial, e o WisdomTree Europe Defence, que acompanha a performance de empresas europeias ligadas ao setor militar e da indústria da defesa.
"Destaque para o setor da energia, com o iShares Oil & Gas Exploration & Prod, instrumento focado nos principais produtores a nível global da exploração de petróleo e gás, a demonstrar que os instrumentos e temas da atualidade continuam na agenda dos investidores”, conclui Angelo Custódio.
ETF mais subscritos em março
Banco Carregosa
Source S&P 500 EUR Hedged
iShares MSCI World EUR Hedged
iShares Gold Producers UCITS
Vanguard S&P 500
Invesco QQQ Trust, Series 1
iShares MSCI World UCITS
iShares Core S&P 500 UCITS
Schwab US Dividend Equity ETF
Defiance Quantum ETF
Vanguard Total Stock Market VI