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10 abril 2026 00h30

EUA e Irão querem reabrir Estreito de Ormuz

Vida Económica

A economia é um reequilíbrio constante e ninguém pode garantir que terá para sempre o melhor ou o único produto para vender, nem que o seu cliente jamais possa diversificar. Não existem produtos cuja procura seja sempre quase inelástica (rígida, elasticidade zero). Por exemplo, a procura atual de petróleo ainda é bastante rígida, mas não tanto como nas crises petrolíferas da década de 1970, quando o Ocidente era muito mais dependente. Os EUA dependiam então em 50% das importações de petróleo, hoje são autossuficientes, muito devido ao shale oil, mas também ao abundante petróleo canadiano. A extraordinária subida do preço do petróleo nessa altura incentivou os países ocidentais a adotar energia nuclear, carros mais eficientes, maior eletrificação e a intensidade energética diminuiu, ou seja, a energia utilizada por unidade de PIB baixou, um rácio dado pelo consumo energético primário de um país a dividir pelo seu PIB.


A atual crise energética, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, despertou novamente o mundo para a necessidade de maior independência do petróleo e do gás natural, intensificando os esforços para reduzir a dependência, sobretudo de petróleo importado de países com maior potencial de conflito. O petróleo continua a ser a principal fonte de energia global, mas já teve maior peso. Hoje representa cerca de 30%, quando em 1973 atingia os 44%. É certo que o petróleo é necessário em muitas coisas, não apenas para os combustíveis dos motores a combustão interna, mas também em muitos derivados e aplicações desde os plásticos à roupa de poliéster e ao alcatrão para as estradas.


A crise energética de 2022 também acentuou a necessidade de uma maior segurança energética da Europa, através da diversificação das fontes, sobretudo de gás natural, e reforçou a transição para as energias renováveis. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes e, assim, a cada crise energética, os países sem recursos naturais, ou que não os querem explorar para evitar poluição, vão-se tornando mais resilientes energeticamente, menos dependentes.


A riqueza de Portugal em fontes renováveis é cada vez mais evidente, desde a eólica, beneficiando do vento do Atlântico, à hídrica, sobretudo no norte litoral, onde as chuvas intensas permitem criar importantes albufeiras num relevo acidentado, à solar fotovoltaica, com muitas horas de sol, à semelhança de grande parte da Península Ibérica, e à biomassa, com extensa área florestal. Todavia, em Portugal, com um nível de eletrificação de 25%, acima da média global de 19,8%, o petróleo ainda representa metade do mix energético primário.


Na matriz energética da China, o petróleo pesa menos de 20% e o gás natural 10%. A China procura independência energética, eletrificando parte da sua economia, atualmente em 24%, tendo adicionado em 2024 mais de 600 TWh de eletricidade apenas com renováveis, sem carvão adicional. Aposta nas renováveis e no nuclear, o número de parques fotovoltaicos aumenta e, na hídrica, tem as maiores barragens do mundo. A ree Gorges tem uma capacidade instalada 50 vezes superior à do Alqueva e produz eletricidade suficiente para alimentar Portugal durante dois anos. A China é o maior consumidor global de energia, cerca de um quarto do total mundial e mais do dobro dos EUA. O carvão representa mais de 50% da sua energia primária, mas mais de 90% é doméstico e a China produz cerca de metade do carvão mundial.


Assim, são cada vez mais os países que diminuem a sua dependência dos combustíveis fósseis, pelo que um país como o Irão, cuja economia depende muito do petróleo e do gás, ao contrário de outros do Golfo Pérsico que têm apostado na diversificação, não pode manter o Estreito de Ormuz fechado por muito tempo. O atual acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão poderá mesmo pôr fim ao conflito, pois não é apenas do interesse dos EUA, mas também do Irão.


Tudo exige reequilíbrio. Tal como os Estados, ao cobrarem impostos, devem ter em atenção a curva de Laffer para não cobrarem em excesso e, assim, matarem a galinha dos ovos de ouro, também o Irão não pode assumir que a economia mundial dependerá sempre de combustíveis fósseis. Os veículos elétricos são já uma realidade crescente a nível global, tal como a eletrificação da economia.

 

Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa


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