Excedente comercial com EUA diminui ainda sem tarifas
Até fevereiro, o excedente comercial de mercadorias com os Estados Unidos encolheu 2%. Anúncio de tarifas e o seu "efeito psicológico" pode explicar este ajustamento, assim como a ligeira desvalorização do dólar. Combustíveis foram os bens que mais pressionaram a balança comercial.
É com os Estados Unidos que Portugal tem registado dos maiores excedentes comerciais, tendo sido mesmo o maior em 2024. Mas, desde o início deste ano, a balança de bens está menos excedentária para Portugal, indiciando algum ajustamento nas trocas comerciais ainda antes da entrada em vigor das tarifas de Donald Trump para corrigir o défice dos Estados Unidos.
Entre janeiro e fevereiro, o excedente nas trocas comerciais com os norte-americanos foi de 347 milhões de euros, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados esta quarta-feira. O valor traduz a diferença entre o valor total de 749 milhões de euros em bens exportados nesse período e os 401 milhões em bens importados. Mas, embora a balança continue a ser excedentária para Portugal, o saldo comercial foi menos positivo face ao ano anterior.
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Nos dois primeiros meses de 2024, o excedente comercial com os Estados Unidos tinha sido de 354,8 milhões. Significa isso que, este ano, o excedente comercial acumulado teve uma diminuição em torno dos 2%.
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Balança comercial de bens com os Estados Unidos manteve-se excedentária nos primeiros dois meses deste ano, mas encolheu face a igual período do ano passado.
Essa diminuição deu-se apesar de a aceleração no crescimento das exportaçõese das importações dos EUA ser proporcional. No caso das exportações, Portugal vendeu mais 20,1% em bens para os Estados Unidos este ano, um valor que compara com 19,9% no ano anterior. Já no caso das importações, o país comprou mais 9% de bens ao mercado norte-americano, quando há um ano o aumento tinha sido de 8,8%. Ou seja, em ambos os fluxos, houve um aumento relativo de duas décimas face a 2024.
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Ao Negócios, o economista Paulo Rosa, do Banco Carregosa, diz que há vários fatores que podem explicar essa redução do excedente nacional, nomeadamente a ligeira desvalorização do dólar face ao euro em janeiro e fevereiro, que "tornou os produtos portugueses mais caros no mercado americano e os produtos dos EUA mais baratos para os importadores portugueses, afetando a balança comercial em termos de valor".
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O economista do Carregosa sublinha que é preciso esperar pelos próximos meses para perceber se este recuo de 2% no excedente comercial face os EUA se deve a "fatores pontuais", como encomendas extraordinárias, ou se é algo estrutural. Admite, no entanto, que "é perfeitamente plausível que tenha havido um ajustamento prévio por parte dos agentes económicos, em especial nos setores diretamente afetados, como o do aço e do alumínio".
Em fevereiro, não estavam ainda em vigor as tarifas impostas pelos EUA à União Europeia para o aço e alumínio, mas já tinha sido anunciado que entrariam em vigor a 12 de março. Às tarifas sobre o aço e alumínio, juntaram-se esta quarta-feira, dia 9 de abril, as chamadas tarifas "recíprocas" de 20%, que incidem sobre todos os produtos produzidos nos 27 Estados-membros (Portugal incluído).
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"Mesmo que as tarifas ainda não estivessem formalmente aplicadas a Portugal, o efeito psicológico e estratégico da sua expectativa ou anúncio público foi suficiente para induzir ajustamentos imediatos no comportamento das empresas, tanto do lado exportador como do lado importador, com impacto direto nos fluxos comerciais de janeiro e fevereiro", afirma Paulo Rosa.
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Administração não admite isençõesSegundo dados solicitados pelo Negócios ao INE, foram os combustíveis que mais pressionaram o excedente comercial com os EUA. Desde o arranque deste ano, a balança – que é deficitária para Portugal nesse tipo de bens – agravou-se em 575%, para 105 milhões, com as exportações a caírem 50% para 90 milhões de euros e as importações a subirem 1% para 196 milhões.
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Também as máquinas e materiais elétricos, que têm um peso considerável nas trocas comerciais entre os dois países, pressionaram o saldo, depois de o excedente ter caído fortemente de 57 milhões para 16 milhões (menos 70%). A cortiça, calçado e plástico foram outros dos bens onde Portugal perdeu vantagem.
Em sentido contrário, o setor têxtil, que é um dos mais expostos às tarifas de Donald Trump, reforçou o seu excedente. Entre janeiro e fevereiro, as exportações portuguesas de vestuário e acessórios de malha para os EUA superaram as importações em 18,6 milhões de euros, mais 12,3% face a 2024.
O maior aumento no excedente deu-se nos medicamentos, com um reforço de 272%. As vendas aos EUA dispararam 269% para 180 milhões até fevereiro, enquanto as importações não foram além dos 568 mil euros.
"É perfeitamente plausível que tenha havido um ajustamento prévio por parte dos agentes económicos, em especial nos setores diretamente afetados [pelas tarifas de Donald Trump]"Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa