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12 setembro 2025 00h20

Famílias americanas com exposição recorde a ações

Vida Económica

O atual peso das ações nas carteiras de famílias e organizações sem fins lucrativos nos EUA, em valores historicamente elevados, perto dos 45%, pode ser explicado por vários fatores. Durante mais de uma década, as taxas de juro mantiveram-se em níveis muito baixos, o que reduziu a atratividade de instrumentos de poupança conservadores, como os depósitos a prazo, empurrando os investidores para o mercado acionista. Paralelamente, a forte valorização das bolsas, em especial das grandes empresas tecnológicas, aumentou o peso relativo das ações mesmo sem necessidade de maior investimento direto. A crescente popularização do investimento em bolsa, com o crescimento dos fundos de índice, sobretudo os que replicam os principais indices acionistas, como o S&P 500, e das plataformas digitais, também contribuiu para este movimento. Além disso, as expectativas económicas relativamente favoráveis e a dificuldade de acesso a outras formas de investimento, como o imobiliário, reforçaram a tendência. Este nível elevado reflete anos de ganhos substanciais no mercado acionista e uma mudança estrutural no comportamento dos investidores, mas também deixa as carteiras mais expostas a riscos, como já aconteceu em momentos anteriores de máximos, que foram seguidos por correções de mercado.


No final da década de 1960, o peso das ações nas carteiras das famílias norteamericanas subiu fortemente, sustentado por uma economia em pleno emprego, com a taxa de desemprego em torno de 3,5%, forte consumo e estímulos fiscais ligados à Guerra do Vietname e aos programas sociais da Great Society. No entanto, a inflação começava a dar sinais de aceleração, mas ainda não era vista como uma ameaça séria, estimulando os investidores de retalho e institucionais a reforçar a exposição à bolsa. Já ao longo da década de 1970, o cenário mudou e a inflação intensificou-se com os choques petrolíferos, a economia entrou em estagflação e as taxas de juro subiram acentuadamente. Nesse ambiente, o peso das ações nas carteiras diminuiu de forma clara, refletindo não só o fraco desempenho da bolsa, como também a atratividade crescente das obrigações, que passaram a oferecer rendimentos nominais muito elevados. A confiança dos investidores foi abalada, e a bolsa perdeu importância relativa face a outros ativos. O ciclo só seria revertido no início da década de 1980, com a política monetária restritiva de Paul Volcker, que ao travar a inflação abriu caminho para a longa recuperação subsequente dos mercados acionistas.


Na bolha das dotcom, no final dos anos 1990, o peso das ações atingiu um novo máximo, antes do colapso de 2000 a 2002. O mesmo aconteceu em 2007, pouco antes da crise financeira global de 2008, quando a queda do mercado acionista expôs a vulnerabilidade das carteiras demasiado concentradas em ações. Em ambos os casos, o chamado smart money — investidores institucionais mais experientes, com maior acesso a informação e capacidade de gestão de risco — começou a reduzir a exposição a ações antes das grandes correções. Já o chamado dumb money — o "dinheiro burro”, associado sobretudo ao investidor de retalho mais emocional ou menos disciplinado, muitas vezes excessivamente otimista, pouco profissional ou menos sensível ao risco — manteve-se comprado até demasiado tarde, absorvendo perdas significativas.


Hoje, este contraste mantém-se: enquanto parte do investimento institucional evidencia alguma cautela, aproveitando os níveis elevados para realizar lucros ou diversificar para ativos alternativos, muitos investidores de retalho continuam expostos ao entusiasmo do mercado, especialmente em torno da narrativa da inteligência artificial e da resiliência da economia norte-americana. O resultado é um indicador que revela confiança, mas também complacência, refletindo não só a valorização acumulada, mas também um comportamento coletivo que, historicamente, antecedeu períodos de correção.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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