Fed dita máximos do Dow Jones, mas Oracle trava Nasdaq
Numa semana em que a Fed assumiu o protagonismo, os mercados continuaram a avaliar os gastos das tecnológicas, penalizando o setor.
A queda do Nasdaq reflete sobretudo os receios ditados pelos resultados da Oracle, que reacenderam dúvidas sobre a sustentabilidade dos avultados investimentos em inteligência artificial por parte das grandes tecnológicas. A empresa apresentou receitas abaixo das expectativas e anunciou um reforço significativo do capex para a expansão das infraestruturas de IA, levantando questões sobre a capacidade de transformar estes investimentos em retorno efetivo no curto e médio prazo. Este sinal de possível excesso no ritmo de despesa aumenta as preocupações dos investidores, que reavaliam o risco associado ao setor tecnológico, penalizando não apenas a Oracle, mas também outros hyperscalers expostos a custos elevados em data centers e hardware de alto desempenho, como Microsoft, Alphabet e Nvidia. As cotações da Nvidia, principal fornecedora de GPUs para aplicações de IA, refletem o receio de que a procura possa abrandar caso os grandes clientes revelem limitações financeiras ou atrasos no retorno dos investimentos. Assim, o Nasdaq espelha uma maior aversão ao risco no setor tecnológico. Em contrapartida, o Dow Jones avança para novos máximos históricos, suportado pela rotação de capitais para setores mais tradicionais, menos expostos à volatilidade e aos elevados investimentos associados à atual corrida à inteligência artificial.
Na passada quarta-feira, a Reserva Federal dos EUA cortou novamente a taxa de juro em 0,25 pontos percentuais, para entre 3,50% e 3,75%, o terceiro corte consecutivo este ano. A decisão ocorre num contexto de abrandamento económico em 2025. Apesar desta desaceleração, a inflação permanece acima do objetivo de 2%, situando-se em 3% segundo o indicador preferido da Fed, o core PCE, continuando a limitar a margem para mais expansionismo. O comité da Fed mostrou-se dividido e para 2026 antecipa apenas um corte adicional, sinalizando cautela. Jerome Powell, presidente da Fed, reforçou que a trajetória futura das taxas dependerá da evolução dos dados, sublinhando que não existe um rumo previamente definido e que eventuais ajustamentos poderão ocorrer caso inflação ou emprego evoluam de forma inesperada.
O novo Outlook trimestral da Fed apresentou poucas diferenças para 2025 face a setembro: o crescimento foi revisto em ligeira alta, de 1,6% para 1,7%, enquanto a inflação PCE recuou marginalmente de 3% para 2,9%. As previsões para o desemprego e trajetória das taxas de juro permaneceram inalteradas, sugerindo que a Fed encara 2025 como uma continuação do cenário anteriormente antecipado. A principal novidade foi para 2026, uma revisão em alta do PIB, aumentando de 1,8% para 2,3%, revelando uma economia mais resiliente do que se esperava, e sem que isso implique pressões adicionais sobre a inflação, tendo esta sido revista em baixa para 2,4% de 2,6%. Estes dados favoráveis foram em boa parte responsáveis pelos novos máximos históricos do Dow Jones.
O dot plot (gráfico de pontos com as projeções individuais de cada membro para a evolução dos juros) confirmou alguma dispersão, mas o núcleo central das projeções situa-se em torno de 3,4% em 2025, descendo gradualmente até cerca de 3,1% nos anos seguintes e convergindo posteriormente para a taxa de juro neutral de longo prazo, estimada em 3%. De acordo com o Outlook e o dot plot, o soft landing dos EUA não só permanece intacto, como surge agora ligeiramente mais favorável do que em setembro, graças ao reforço do crescimento e ao alívio marginal das pressões inflacionistas.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior no Banco Carregosa