FROGS, França e o risco orçamental grave e sistémico
Notícia originalmente publicada em: Jornal Económico, 23 de outubro de 2026
Paulo Monteiro Rosa
Economista sénior do Banco Carregosa
Durante a crise da dívida soberana de 2010-2012, Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha ficaram conhecidos como PIIGS, uma designação depreciativa utilizada pela imprensa anglo-saxónica para identificar os países da Zona Euro mais pressionados pelos mercados, com as sucessivas subidas dos rendimentos das dívidas soberanas, devido à fragilidade das contas públicas e aos problemas de endividamento desses países. Quinze anos depois, é a França que, a cada dia que passa, preocupa cada vez mais os mercados. A yield das obrigações do tesouro francesas a 10 anos atingiu os 5,14%, o valor mais elevado desde julho de 2002. O diferencial face a Portugal aumentou para quase 120 pontos base, enquanto o spread face à Alemanha superou os 170 pontos, o mais elevado desde novembro de 2011. Entretanto, ao longo do mês de outubro, começou a ganhar destaque internacional o acrónimo FROGS, French Oversized Government and Social Security (governo e segurança social franceses sobredimensionados), criado pelo instituto francês Rexecode e divulgado pela Bloomberg. A expressão recupera a alcunha depreciativa frogs, utilizada pelos britânicos para se referirem aos franceses, devido ao consumo de pernas de rã. Depois dos PIIGS, surgem agora os FROGS, que também podem significar França e o Risco Orçamental Grave e Sistémico. A França é a segunda maior economia da Zona Euro, com uma dívida pública próxima dos 120% do PIB, défices públicos superiores a 5% em seis dos últimos sete anos (4,7% em 2022) e crescimento económico anémico. O risco pode ser, por isso, maior do que o de uma crise limitada às fronteiras francesas. É um dos dois países do eixo franco-alemão, o principal pilar da construção europeia. Assim, depois dos PIIGS há 15 anos, poderão agora ser os FROGS a colocar à prova a sustentabilidade da Zona Euro. O risco é sistémico porque a deterioração das contas públicas francesas poderá contagiar outras economias europeias, sobretudo as que têm maiores desequilíbrios orçamentais. O aumento dos prémios de risco poderá pressionar as yields da dívida soberana de vários países, agravando o custo médio da dívida à medida que as obrigações vencem e são refinanciadas a taxas mais elevadas. Durante a crise de 2011, a Alemanha beneficiou do seu estatuto de refúgio, com a procura de obrigações alemãs a aumentar e as suas yields a descer. O mesmo tem acontecido agora, corroborado pelo alargamento dos spreads. Esta semana as yields alemãs desceram, as portuguesas mantiveram-se, mas as de Itália e da Bélgica subiram 15 e 20 pontos base respetivamente. O governo francês está entre a espada e a parede. Se adotar medidas para acalmar os mercados, arrisca agravamento dos protestos nas ruas. Se nada fizer, os juros podem continuar a subir. Os protestos violentos e o adiamento da votação das receitas do Orçamento para 2027 agravaram os receios sobre a redução do défice.