Fundos apostam na França entre as sucessivas crises
Os fundos de investimento portugueses estão mais investidos no mercado francês do que estavam no final do ano passado. O maior aumento da exposição foi registado no segmento de dívida de empresas e papel comercial, com o montante a chegar a 1,2 mil milhões de euros.
A turbulência política em França que se agudizou no final do ano passado, com a queda do Governo liderado por Michel Barnier, e cuja história se repete agora com o primeiro-ministro François Bayrou a enfrentar uma moção de confiança dentro de duas semanas, levou os juros da dívida francesa a agravar de forma significativa. Este rendimento mais alto atraiu investidores em Portugal.
Os fundos de investimento nacionais aumentaram a exposição aos mercados financeiros franceses nos primeiros sete meses do ano. As bolsas não ficaram de fora.
Mesmo numa altura em que o principal índice CAC-40 regista a menor valorização entre os pares europeus desde o início de 2025: de 4,74%.
O maior aumento da exposição desde o final de 2024 foi registado no segmento de "outra dívida” - que inclui obrigações de empresas e papel comercial, que passou para 1.278 milhões de euros, ou mais de 25%, de acordo com os dados compilados pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP) a que o Negócios teve acesso, que incluem apenas exposição direta, deixando de fora outros fundos de investimento, ETF e instrumentos financeiros derivados. Esta subida ultrapassa a registada no ano anterior, entre o final de 2023 e 2024, de 16%.
A exposição à dívida soberana francesa foi a segunda que mais cresceu, ficando, ainda assim, abaixo dos valores registados no final de 2023. O crescimento foi de quase 11%, ou 56 milhões de euros, para 516,9 milhões face a dezembro de 2024.
Por um lado, José Santiago Gavino, "wealth management advisor” da Sixty Degrees, admite que os gestores destes fundos vejam em França uma oportunidade de ter um rendimento mais elevado nas suas carteiras. A decisão é semelhante ao que ocorreu com a dívida italiana anos antes, recorda o gestor: "Apesar das atuais condições políticas e económicas, França não está em risco de ‘default’, as obrigações soberanas estão a gerar um rendimento mais elevado do que a dívida portuguesa e acaba por ser um mercado mais líquido, com um maior volume”, conclui.
A "yield” das obrigações soberanas francesas atingiu esta quarta-feira 2,53%, o valor mais alto desde março, e reduziu o "spread” face aos juros da dívida italiana para cerca de seis pontos-base - a diferença mais baixa desde 2003. Do mesmo modo, à semelhança do que aconteceu na anterior crise política que culminou na queda do Governo de Barnier, o prémio de risco face ao juro das Bunds alemãs a dez anos chegou a tocar a fasquia dos 80 pontos-base, o que não acontecia desde abril.
Por outro lado, Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, associa o aumento a "expectativas de uma estabilização da situação política em França, juntamente com uma eventual melhoria das contas públicas e menos incerteza”. Só que, acrescenta, esse reforço da aposta dos fundos seria contido, uma vez que "os problemas da economia francesa são estruturais”, diz.
"O Estado tem despesas muito rígidas, devido a um Estado social muito pesado, e as receitas crescem menos e não conseguem acompanhar a despesa. Estamos numa situação em que um aumento de impostos não consegue arrecadar mais receita”, detalha. Ou seja, Paulo Rosa considera que "o prémio de risco da dívida francesa não compensa o risco de as deter”.
A perspetiva de estabilidade poderá igualmente justificar o maior investimento em ações francesas, que foi superior a 6%, ou quase 29 milhões de euros, para 516,9 milhões, no final de julho. Este valor eleva a exposição total dos fundos nacionais a França a 2,2 mil milhões de euros, um crescimento de 18% face ao final de 2024 e 21% quando comparado com dezembro de 2023.
[O aumento do investimento estava associado] a expectativas de uma estabilização da situação política.
PAULO MONTEIRO ROSA Economista sénior
do Banco Carregosa
França não está em risco de ‘default’ e as obrigações estão a gerar rendimento mais elevado do que a dívida portuguesa.
JOSÉ SANTIAGO GAVINO "Wealth management advisor” da Sixty Degrees
CRÉDITO Os fundos nacionais tinham investidos em dívida de empresas e papel comercial quase 1,3 mil milhões de euros no fim de julho.
AÇÕES As carteiras de investimentos dos fundos detinham, no mês passado, quase 517 milhões de euros em ações francesas.
TOME NOTA
Governo francês à beira do fim
O QUE ESTÁ EM CAUSA? O primeiro-ministro francês, François Bayrou, pediu uma moção de confiança ao Parlamento antes da votação do orçamento do Estado. Bayrou, que é o terceiro primeiro-ministro de França em dois anos, justificou a decisão com base na necessidade de forçar os partidos a assumirem uma posição relativamente ao documento.
QUE PROPOSTAS ESTÃO EM CIMA DA MESA?
O principal objetivo é de realizar cortes drásticos de 44 mil milhões de euros na despesa pública, reduzindo o endividamento do país que tem vindo a crescer de forma significativa. Os cortes de despesa pretendidos foram criticados por quase todos os partidos. As propostas do primeiro-ministro incluem acabar com dois feriados e congelar a maior parte da despesa com a segurança social.
PODE HAVER ELEIÇÕES? É um dos cenários possíveis, o que acrescenta ainda mais incerteza a esta votação, embora seja dado como pouco provável. Há poucas certezas, mas a moção de confiança dificilmente passará. O Presidente, Emmanuel Macron, fica assim com duas hipóteses: apontar um novo primeiro-ministro, que poderá incluir uma recondução do próprio François Bayrou, ou convocar eleições. Foram justamente as legislativas de 2024 que apanharam a França de surpresa que geraram uma fragmentação do Parlamento em primeiro lugar.
COMO REAGIRAM OS MERCADOS? O principal índice acionista, o CAC-40, desvalorizou mais de 3% na segunda e terça-feira, mas recuperou ligeiramente esta quarta-feira. Os juros da dívida, por seu lado, atingiram máximos de abril e o "spread” face às Bunds alemãs atingiu os 80 pontos-base, ou seja, um nível semelhante ao registado na anterior crise política no final do ano passado. Os analistas do banco neerlandês ING alertam para um cenário de redução do rating da dívida francesa caso os planos de consolidação orçamental saiam enfraquecidos da atual negociação.
Dívida da Zona Euro até pode ganhar com ameaças à Fed
A incerteza em torno da crise política em França tem feito subir os juros. Nos EUA, o movimento é o mesmo, mas a razão outra.
Os governos de França e dos Países Baixos enfrentam dificuldades que se têm traduzido em receios dos investidores sobre as dívidas públicas europeias, enquanto nos Estados Unidos soam sinais de alarme sobre a independência da Reserva Federal (Fed) norte-americana. Entre os vários fatores de stress no mercado de dívida, a Zona Euro pode sair beneficiada.
"Os ‘spreads’ da Zona Euro parecem cada vez mais voláteis, com as ‘yields’ das obrigações francesas a continuarem a subir após ter sido agendado um voto de confiança para daqui a duas semanas”, dizem os estrategas do ING Benjamin Schroeder e Michiel Decker. "A dificuldade do Governo francês em aprovar o seu orçamento não é totalmente surpreendente, mas tudo está a atingir o seu auge um pouco mais cedo do que o previsto”.
Com os mercados nervosos com a possibilidade da queda de um Governo europeu, houve outro em risco. O Executivo neerlandês, liderado por Diederik Samsom e que juntava até há poucos meses quatro forças políticas, enfrentou (e sobreviveu) esta quarta-feira a uma moção de censura no Parlamento dos Países Baixos. O resultado afastou preocupações e as "yields” europeias acabaram por fechar a sessão mistas. O juro das Bunds alemãs a dez anos caiu 2,3 pontos-base para 2,698%. As obrigações neerlandesas aliviaram 0,7 pontos para 2,887%. Em sentido contrário, os juros franceses agravaram-se 2 pontos-base para 3,516%. Portugal seguiu a tendência e viu a "yield” subir 0,1 ponto-base, para 3,145%.
Enquanto os investidores aguardam os desenvolvimentos em França e os Países Baixos acabaram por não se tornar também um problema, há outra ameaça no mercado obrigacionista global. "Normalmente, os aumentos acentuados das taxas de juro dos EUA a 30 anos têm efeitos secundários significativos para as taxas europeias, dado que estão relacionados com fatores comuns”, indicam Schroeder e Decker.
Desta vez, contudo, o agravamento tem estado relacionado com o facto de o Presidente dos EUA, Donald Trump, ter anunciado que pretende destituir a governadora da Fed Lisa Cook, algo que a própria vai contestar judicialmente.
"A independência dos bancos centrais é mais específica de cada país, pelo que os investidores em obrigações aumentam as expectativas de inflação e procuram um prémio de risco a prazo mais elevado para compensar a volatilidade. Devido à natureza idiossincrática, este impacto não tem de apresentar os mesmos efeitos secundários observados com os fatores de oferta”, consideram os estrategas do ING.
Pelo contrário, outros mercados obrigacionistas podem beneficiar, uma vez que os investidores procuram alternativas. Assim, uma nova subida na extremidade posterior da curva dos EUA não se traduz necessariamente em rendimentos mais altos para as obrigações da Zona Euro”.
Dentro de duas semanas François Bayrou vai tentar sobreviver a uma moção de confiança.