GameStop ficou lá atrás, e nova saga de "memes" sem euforias no país
Há uma nova vaga de ações que ganham popularidade junto de investidores de retalho, por causa das redes sociais. O entusiasmo tem semelhanças com o que passou em 2021, mas as corretoras que operam no país consideram que será difícil que o fenómeno seja comparável.
Há quem apelide este grupo de cotadas como DORK, um acrónimo que nasce das iniciais de algumas destas empresas, mas que também se traduz por "pateta". A nova onda de ‘meme stocks’ centra-se na Krispy Kreme (cujo "ticker" é DNUT), Opendoor Technologies, Rocket Companies e Kohl's, empresas que têm valorizado em Nova Iorque devido ao interesse dos investidores de retalho pelo efeito das redes sociais. Em Portugal, há corretoras a registar maior procura por estes ativos, mas os vários responsáveis afastam uma corrida às "meme stocks" comparável à GameStop, em 2021.
"O fenómeno das DORK tem pontos em comum com o que aconteceu com a GameStop em 2021, mas dificilmente terá o mesmo impacto. A saga da GameStop ainda está muito presente e deixou marcas nos investidores de retalho”, diz ao Negócios Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe. "A GameStop também soube aproveitar a especulação para emitir novas ações e angariar algumas centenas de milhões de dólares. Essa decisão deu-lhe bastante margem financeira para tentar reinventar o seu modelo de negócio, algo em que não teve grande sucesso até agora. É pouco provável que outra ‘meme stock’ consiga replicar esse ‘sucesso’ num futuro próximo”, sintetiza.
No Banco Carregosa, por exemplo, o número de transações relacionadas com Opendoor, Kohl's, Krispy Kreme, mas também a GoPro terão aumentado aproximadamente 10 vezes nos últimos dois meses. "Apesar de se notar um aumento do volume de transações das ‘meme stocks’, não notámos uma procura que se possa considerar relevante por parte dos clientes”, adianta Pedro Oliveira, "trader” da sala de mercados.
Os analistas contactados pelo Negócios apontam para o momento do mercado como principal razão para o regresso desta onda. As fortes valorizações das bolsas reforçam o apetite pelo risco, o que se junta à perspetiva de que um corte de juros nos EUA dê um renovado ímpeto às ações. Além disso, o "fear of missing out" (FOMO), a influência das redes sociais e o facto de títulos com baixo volume de negociação serem mais propensos a grandes movimentos juntam-se para criar o fenómeno das "meme stocks".
"Sim, a procura por ações classificadas como ‘meme stocks’ está em ascensão”, diz Nuno Mello, "head of Sales” da Xtb. "Empresas como a Opendoor, GoPro, Kohl's e Krispy Kreme tiveram aumentos significativos nos seus preços, impulsionados por investidores individuais, especialmente através de plataformas como Reddit e X (anteriormente Twitter). Por exemplo, a Opendoor viu as suas ações subirem mais de 300% nos últimos três meses, após mudanças na liderança e aumento do interesse especulativo. No entanto, no caso da Xtb Portugal, em particular, não notámos nenhum interesse nem procura acrescida por estas empresas”, refere.
Fonte oficial da Lightyear, outra corretora "low cost” que tem estado a investir em Portugal, diz também que, de forma geral, não vê os clientes a fazerem "day trading” com "meme stocks”. "Apenas uma percentagem muito pequena dos nossos clientes demonstra interesse nestes instrumentos e, mesmo nesses casos, a procura é extremamente passageira. Quando surgem, é apenas durante uma semana ou pouco mais antes de perderem relevância”, afirma.
Na Revolut, que também tem apostado no investimento em ações, Rolandas Juteika, "head of wealth and trading” indica que as três ações mais populares em Portugal recentemente, em termos de volume de vendas, são a Nvidia, a Amazon e um nome menos conhecido - a TeraWulf (a empresa na qual a Google aumentou a sua participação para 14%). "Não vemos uma maior procura, nem em Portugal, nem no resto do Espaço Económico Europeu por parte dos clientes, por ações classificadas como ‘meme stocks’”, sublinha. A onda internacional está assim a chegar de forma limitada a Portugal e os operadores lembram que há diferenças entre o fenómeno em 2021 e 2025, a começar pelo contexto macroeconómico. Na altura, os cheques de estímulo econômico recebidos pelos consumidores nos EUA (para estimular o consumo após a pandemia) deram impulso à negociação. Além disso, outro fator importante é a maior consciencialização dos riscos associados às "meme stocks”.
Este fenómeno traz riscos significativos, sobretudo devido à alavancagem e quando estão em causa ações com elevado interesse curto ('short interest’). Como o potencial de valorização de uma ação é teoricamente ilimitado, também as perdas nas vendas a descoberto podem ser ilimitadas”, explica Henrique Valente, lembrando que, em 2021, a necessidade de os "short-sellers” recomprarem ações para cobrirem posições foi tão extrema que quase levou à falência de algumas corretoras e fundos de investimento.
Nuno Mello replica o alerta relativo aos riscos significativos, apontando para a volatilidade extrema. "Quem compra este tipo de empresas fica sujeito a manipulação de mercado. Existem casos documentados de esquemas de ‘pump and dump’, onde os preços são artificialmente inflacionados para depois serem vendidos rapidamente, prejudicando os investidores”, avisa. Por outro lado, o "head of sales” da Xtb considera ainda que existe uma falta de fundamentos, ou seja, os preços não refletem o valor real da empresa, baseando-se mais na especulação. Da mesma forma, Pedro Oliveira, do Carregosa aponta que as valorizações ignoram resultados financeiros fracos”, dando como exemplo a Opendoor que "acumula mais de 10 trimestres consecutivos de prejuízos”. Sobre a volatilidade excessiva, acrescenta que esta "poderá levar a perdas rápidas para investidores menos experientes”.