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05 dezembro 2025 01h35

Gás natural: TTF holandês Vs. Henry Hub EUA

Vida Económica

A evolução recente dos preços do gás natural mostra uma divergência clara entre a Europa e os EUA. Enquanto na Europa o TTF holandês tem descido, cotando nos 28 euros por MWh, o preço americano medido pelo Henry Hub tem subido, cotando nos 4,80 dólares por MMBtu.


Na Europa, os níveis de armazenamento de gás estão acima dos 95%, muito superiores à média de outros anos, reduzindo a procura diária de gás. As temperaturas amenas no início do inverno têm diminuído a necessidade de aquecimento. Além disso, a indústria europeia continua debilitada, com vários setores intensivos em energia a reduzir produção ou a suspender atividade, o que diminui ainda mais a procura. Ao mesmo tempo, a Europa tem diversificado e comprado grandes quantidades de gás natural liquefeito (LNG) de vários fornecedores, sobretudo dos EUA, e esta abundância de oferta combinada com a procura mais fraca penaliza naturalmente os preços. Nos EUA, a situação é quase inversa. A procura interna tem aumentado com o tempo mais frio, elevando o consumo não só residencial, mas também das centrais elétricas que dependem do gás. A produção doméstica deixou de crescer ao ritmo dos últimos anos e, em algumas regiões, tem até recuado devido à redução de plataformas de perfuração em atividade. Esta combinação de maior procura e crescimento limitado da oferta tem impulsionado os preços. Para agravar a alta dos preços, as exportações de LNG têm aumentado. Os EUA tornaram-se o maior exportador mundial de LNG. Cada cargueiro de LNG que parte para a Europa ou Ásia representa gás que deixa de estar disponível no mercado interno, contribuindo também para a subida do preço do gás natural dos EUA.


Para comparar os preços dos dois mercados é necessário converter para a mesma unidade. Um MMBtu corresponde a 0,293071 MWh, ou seja, um MWh equivale a 3,412 MMBtu. Por exemplo, o TTF nos 28 euros por MWh corresponde a cerca de 8,20 euros por MMBtu.


Assim, mesmo com a descida do TTF e a subida do Henry Hub, o gás europeu continua praticamente duas vezes mais caro do que o americano. A relação entre os dois mercados é marcada pela possibilidade de arbitragem, já que os produtores americanos podem enviar gás para a Europa quando a diferença entre o preço americano e o europeu é suficientemente elevada para compensar os custos envolvidos. Este tipo de arbitragem foi decisivo desde 2022, quando a Europa procurou substituir rapidamente o gás russo, passando a comprar quantidades significativas de LNG americano. No entanto, a arbitragem é agora menos lucrativa. Além disso, a arbitragem não depende apenas da diferença dos preços brutos, mas também dos custos de liquefação nos EUA, do transporte e do custo de regaseificação na Europa. Estes custos podem facilmente ultrapassar vários euros por MMBtu, reduzindo a margem da arbitragem. Adicionalmente, há toda a logística por detrás, implicando capacidade disponível nos terminais de regaseificação europeus. Nos últimos dois anos foram instalados e construídos novos terminais flutuantes e ampliadas infraestruturas existentes, o que tem aumentado a capacidade de receber LNG. Esta construção acelerada na Europa funciona como um incentivo ao aumento das exportações americanas e, indiretamente, eleva o preço do gás nos EUA, uma vez que a procura europeia absorve uma parte crescente da produção americana.


Nesta quarta-feira, dia 3 de dezembro, a União Europeia aprovou um acordo para terminar de forma gradual, mas definitiva, todas as importações de gás russo até ao final de 2027. A maior parte do gás que ainda chega por gasoduto tem sido reduzida ou interrompida, mas parte do LNG russo continua a chegar ao mercado europeu através de operadores privados e contratos que não foram suspensos. O peso desta oferta, embora menor do que no passado, continua a influenciar o mercado, já que qualquer volume adicional de gás, independentemente da origem, aumenta a oferta, pressionando o preço em baixa.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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