Gasóleo e GNL agravam juros do BCE
A cotação do petróleo Brent deixou de ser suficiente para perceber a dimensão do choque energético que está a atingir a economia europeia. A Euribor a 12 meses está nos 3,138%, bastante acima do máximo de 2,929% registado na primavera e no nível mais elevado desde agosto de 2024. Esta tendência de alta das taxas de juro reflete a expectativa de uma política monetária mais restritiva do BCE, perante o agravamento das perspetivas para a inflação.
Curiosamente, esta pressão sobre a inflação e as taxas de juro surge quando o Brent, apesar de ter recuperado cerca de 30 dólares desde o início de julho para os 100 dólares por barril, continua bastante abaixo do máximo de 126,41 dólares atingido no final de abril. Assim, desde finais de maio, o problema está cada vez mais a jusante, nos produtos refinados. O gasóleo europeu negoceia perto dos 200 dólares por barril, muito acima do máximo de 145 dólares da primavera, enquanto as margens de refinação do gasóleo registam recordes históricos. O crack spread (diferença entre o preço do produto refinado e o petróleo bruto, indicador da margem de refinação) está nos 100 dólares por barril, quando habitualmente e antes do conflito no Médio Oriente iniciado a 28 de fevereiro, o do gasóleo era de 20 dólares e o da gasolina de 10.
As famílias e empresas não abastecem automóveis, camiões, máquinas agrícolas ou equipamentos industriais com petróleo bruto. Consomem gasolina e, sobretudo, gasóleo. Assim, um Brent a 100 dólares não significa necessariamente menor pressão sobre os custos energéticos se o gasóleo estiver próximo dos 200 dólares. Bem pelo contrário. O aumento do preço do gasóleo impulsiona os custos das empresas e rapidamente se propaga a toda a cadeia de produção e distribuição. O impacto não se limita, portanto, à componente energética da inflação, chegando gradualmente aos preços dos alimentos, bens industriais e serviços.
O problema é agravado pela menor capacidade de refinação disponível. Além disso, para repor os stocks em níveis semelhantes aos do ano passado, a pressão sobre as refinarias será cada vez maior, podendo esta procura adicional acentuar ainda mais a subida dos preços já pressionados pela escassez de refinados. Esta situação agrava os riscos para a inflação e para a atividade económica europeia. Os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia retiraram capacidade de refinação ao mercado mundial e as refinarias existentes estão ‘quase’ no limite. A Vitol, uma das maiores empresas privadas de negociação de energia do mundo, com presença na compra, venda, transporte, armazenamento e distribuição, estima que cerca de 4 milhões de barris diários de gasóleo vindos da Rússia e do Médio Oriente deixaram de estar disponíveis, enquanto os stocks mundiais continuam a diminuir. Na Europa, os stocks de gasóleo na ARA (Amesterdão-Roterdão-Antuérpia), um dos principais hubs de comércio e armazenamento de produtos refinados, estão nos mínimos de quatro anos e os de gasolina no nível mais baixo desde setembro de 2021. Os alertas da Vitol para o aperto da oferta de gasóleo assumem particular relevância pela proximidade da empresa ao mercado físico.
O agravamento dos preços dos combustíveis penaliza novamente a economia alemã, que contraiu 1% em 2023, estagnou em 2024 e cresceu apenas 0,2% em 2025. Uma nova recessão em 2026 prolongaria para quatro anos um período de quase ausência de crescimento, algo excecional na história económica alemã do pós-guerra. Há, assim, uma segunda vaga do choque energético, agora centrada nos refinados, mais problemática para a Europa, podendo obrigar o BCE a intensificar ainda mais a sua política monetária já restritiva. Em Portugal, os preços dos combustíveis nas bombas estão novamente próximos dos máximos e poderão atingir novos recordes nas próximas semanas se a subida das cotações internacionais dos refinados continuar.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa