Gronelândia: Mais segurança do que economia
O interesse dos EUA na Gronelândia é essencialmente estratégico e de segurança, e não tanto económico. A posição geográfica da ilha torna-a um ponto-chave no controlo do Atlântico Norte e do Ártico, especialmente num contexto de crescente presença e afirmação da Rússia e da China nessas regiões. O crescente degelo do Ártico reforça esta importância ao permitir, em determinados períodos e condições, a utilização de rotas marítimas no Ártico, como a Rota do Mar do Norte, que podem reduzir significativamente o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa. Navios saídos de Xangai para portos do norte da Europa podem passar de 35 a 40 dias pela rota tradicional (Suez) para 20 a 25 dias pelo Ártico. No entanto, estas rotas não são ainda comparáveis ao Canal do Suez em termos de regularidade, fiabilidade e custos, funcionando mais como corredores estratégicos emergentes do que como vias comerciais estáveis.
Durante a Guerra Fria, os EUA mantiveram uma forte presença militar na Gronelândia, com várias bases e estações de radar de alerta contra eventuais ataques da União Soviética. O fim da Guerra Fria e a evolução tecnológica (satélites, sensores avançados e sistemas de vigilância mais eficientes) permitiram aos EUA reduzir a sua presença. Todavia, com a crescente afirmação de potências como a Rússia e a China, a postura dos EUA nos últimos 30 anos já não assegura mais o controlo estratégico futuro, pelo que o interesse dos norte-americanos deixou de se centrar na segurança presente e passou a ser o de garantir o futuro, justificando, assim, o atual interesse dos EUA na Gronelândia e impedindo que o território caia na esfera de influência de potências rivais como a Rússia ou a China.
As tentativas históricas dos EUA para adquirir a Gronelândia, nomeadamente após a compra do Alasca no século XIX, a proposta formal feita à Dinamarca em 1946 e a abordagem politicamente mal formulada em 2019, reforçam esta leitura. Todas ocorreram em momentos de reconfiguração geopolítica e não em contextos de descobertas de petróleo ou de outras matérias-primas relevantes, evidenciando que o valor atribuído à Gronelândia pelos norte-americanos esteve sempre mais ligado à sua posição estratégica e menos ao seu subsolo.
A Gronelândia não possui produção comercial de petróleo nem reservas comprovadas. Apesar de décadas de exploração, não foram identificadas descobertas economicamente viáveis, o que levou o Governo da Gronelândia, em 2021, a cessar a exploração de combustíveis fósseis. Estudos da GEUS e da USGS identificam apenas recursos potenciais, sem viabilidade económica demonstrada. As estimativas mais citadas apontam para 8 mil milhões de barris de petróleo com potencial técnico de extração, um valor reduzido à escala internacional, inferior a 3% das reservas da Venezuela ou da Arábia Saudita. Estes números referem-se a recursos não comprovados e não a reservas exploráveis. Acresce a incerteza quanto às características deste petróleo, não sendo claro se é predominantemente light ou heavy em termos de densidade, nem quanto ao teor de enxofre (sweet ou sour), aumentando o risco económico.
Quanto a outros recursos minerais, existem indícios de terras raras e outros metais, mas não há estimativas económicas fiáveis nem reservas comprovadas. A exploração no Ártico tem custos elevados, sobretudo devido ao clima extremo e ao gelo, e envolve riscos ambientais significativos. Num ecossistema frágil, mesmo com os atuais avanços tecnológicos, um acidente grave, como um derrame de petróleo ou poluição associada à mineração, teria impactos profundos e duradouros, com uma lenta recuperação da vida. Esta incerteza quanto às matérias-primas energéticas e minerais, aliada aos elevados custos de exploração e ao risco ambiental, diminui muitíssimo a viabilidade económica. Assim, a ideia de financiar a segurança da Gronelândia através da exploração de petróleo ou minerais é teoricamente apelativa, mas difícil de concretizar na prática. Mesmo que esses recursos existissem em quantidade relevante, o interesse dos EUA parece ser sobretudo estratégico, focado na segurança e na limitação da influência de potências rivais, e não tanto na exploração económica direta dos recursos naturais.
Em suma, a Gronelândia é estratégica não pelo que se sabe que tem, mas pelo que representa no Ártico. Não pelo presente, mas pelo futuro. Para os EUA, os custos associados à sua segurança tendem a ser encarados como parte integrante da sua própria segurança nacional, e não como algo que tenha necessariamente de ser compensado por exploração económica local.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa