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30 maio 2025 06h30

Guerra na Ucrânia marca viragem histórica para o ouro

Vida Económica

Desde o início de março de 2022, logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a 24 de fevereiro, assistiu-se a uma mudança estrutural na forma como o ouro se comporta face às taxas de juro reais dos EUA. O momento de viragem foi marcado pelo congelamento dos ativos do banco central russo, em 28 de fevereiro de 2022 — uma decisão sem precedentes no sistema financeiro global. Esta medida levantou sérias preocupações, sobretudo entre as economias emergentes, relativamente à segurança das suas reservas internacionais denominadas em dólares.


Até então, a relação entre o ouro e as taxas de juro reais era bastante previsível. Quando as taxas reais subiam, o ouro tendia a desvalorizar-se, pois o metal amarelo não oferece qualquer rendimento, apenas ganhos de capital. Pelo contrário, em períodos de recessão — quando as taxas reais caíam — o ouro tendia a valorizar-se, funcionando como um ativo de refúgio e beneficiando do facto de, nesses contextos, os bancos centrais reduzirem significativamente as taxas de juro para estimular a economia, o que diminuía substancialmente o custo de oportunidade de deter ouro. No entanto, a partir de 2022, esta lógica secular deixou de se verificar. Apesar da forte subida das taxas de juro reais norte-americanas, o ouro não só não caiu, como tem vindo a valorizar-se de forma acentuada, atingindo máximos históricos consecutivos (tal como observado no gráfico).


O motivo central para esta inversão prende-se com a alteração estratégica de vários países, nomeadamente a China, que passou a diversificar as suas reservas externas, reduzindo a dependência do dólar e aumentando significativamente as compras de ouro. O motivo é claro: ao contrário das reservas em moeda estrangeira, o ouro não pode ser congelado ou sancionado, funcionando como um ativo verdadeiramente soberano. Esta corrida ao ouro por parte dos bancos centrais — especialmente de países do "Sul Global” — tornou-se um dos principais fatores de suporte aos preços do metal precioso.


A situação da China é especialmente relevante. Atualmente, apenas cerca de 6% das suas reservas externas estão alocadas em ouro — um valor bastante inferior ao dos países desenvolvidos, como os EUA, a Alemanha ou a França, onde o ouro representa entre 70% e 80% das reservas totais. Isto indica que existe ainda uma enorme margem para aumentos adicionais das reservas em ouro por parte da China e de outras economias emergentes, o que poderá continuar a sustentar, e até acelerar, a valorização do ouro nos próximos anos.


O ouro mantém-se como um ativo de refúgio fundamental em tempos de incerteza económica e geopolítica. A sua cotação tende a subir quando os mercados enfrentam turbulência — como se verifica atualmente com a errática política comercial de Trump. O estatuto do ouro como proteção face à instabilidade mantém-se intacto. Todavia, desde o congelamento dos ativos do banco central russo, em 2022, há uma viragem histórica: vários países, especialmente os emergentes, começaram a diversificar as suas reservas cambiais e a reforçar as compras de ouro, receando riscos geopolíticos e potenciais sanções. Hoje, são as compras dos bancos centrais e dos investidores que estão a ditar o comportamento do mercado. Mesmo com taxas de juro reais elevadas nos EUA, o ouro continua a valorizar-se, impulsionado por esta nova procura estratégica.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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