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14 maio 2026 03h30

Guerra no Irão já penaliza dívida pública portuguesa

Jornal De Negócios

Desde 2014 que o país não pagava tanto para se financiar a 10 anos. Por toda a Europa há um agravamento das "yields", que subirão mais caso os bancos centrais aumentem juros.


O país não pagava tanto para se financiar a 10 anos desde 2014. Por toda a Europa há agravamentos das "yields", que poderão avançar mais se os bancos centrais tiverem de subir juros para travar a escalada da inflação. Por outro lado, os aumentos poderão ser revertidos se a tensão geopolítica global se dissipar.


O relançar da inflação causado pela guerra no Irão está a castigar os juros das dívidas, incluindo da portuguesa. O país esteve esta quarta-feira no mercado primário para colocar novas obrigações do Tesouro e os investidores pediram uma taxa mais elevada para financiar Portugal, em linha com o agravamento que se tem sentido no mercado secundário.


"O aumento na remuneração a longo prazo sinaliza um ajustamento das expectativas de mercado quanto às condições macroeconómicas e à perceção de risco no médio e longo prazo", diz Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa, sobre o leilão duplo realizado esta quarta-feira pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública - IGCP.


No total, foram colocados 1.426 milhões de euros. No caso da maturidade mais curta, até 2030, Portugal vendeu 671 milhões de euros com uma "yield" de 2,834%, tendo esta sido a primeira vez que o país se financia a quatro anos desde o arranque de 2024. Em mercado secundário, as obrigações a quatro anos negoceiam com um juro de 2,775%.


A 10 anos, o país emitiu 755 milhões de euros com uma "yield" de 3,452%. O juro compara com os 3,304% pedidos pelos investidores num leilão de OT com a mesma maturidade realizado a 8 de abril e é preciso recuar até abril de 2014 para encontrar um juro tão elevado neste prazo de referência. Apesar de, no mercado secundário, a dívida com o mesmo prazo ter uma "yield" a aliviar para 3,465%, os níveis estão muito acima dos anteriores à guerra.


Na última sessão antes dos ataques de EUA e Israel ao Irão, as obrigações nacionais a 10 anos negociavam com uma "yield" de 2,996%. Já as Bunds alemãs tinham juro de 2,642%, contra os atuais 3,102%. No caso de França, o agravamento foi de 3,21% para 3,74%, em Itália de 3,27% para 3,86% e, em Espanha, de 3,06% para 3,53%.


"O aumento das expectativas de inflação, devido a preocupações com um conflito prolongado no Irão, elevou os rendimentos das obrigações soberanas a nível global", concorda Marco Giordano, diretor de investimento da Wellington Management, apontando para os efeitos do fecho efetivo do estreito de Ormuz — por onde passava um quinto do petróleo e do gás natural do mundo antes do conflito — nos preços das matérias-primas energéticas.


A estimativa mais recente indica que a inflação na Zona Euro terá acelerado para 3% em abril, numa escalada de preços impulsionada pela energia que registou um avanço de quase 11% em termos homólogos. Em Portugal, a subida dos preços dos produtos energéticos foi de quase 12% e a inflação de abril avançou para 3,3%.


Por um lado, inflação significa que o dinheiro futuro tem um valor mais baixo, levando os investidores a pedirem um prémio de permanência. Por outro, se a tendência se mantiver, os bancos centrais poderão ter de agir, subindo as taxas de juro de referência para travar a escalada dos preços. Para já, ainda só o Norges Bank decidiu avançar neste sentido, mas a expectativa dos mercados é que o Banco Central Europeu (BCE) também o faça em junho.


"Vivemos atualmente um cenário de pressão inflacionista acentuada, pelo que se torna cada vez mais provável que os bancos centrais respondam com uma subida das taxas de juro, calibrando as suas políticas em função da evolução do quadro global. Estes aumentos de taxas poderão ser revertidos se a tensão geopolítica vier a dissipar-se e com isso baixar as expectativas futuras para a inflação", antecipa ainda Filipe Silva.


O aumento das expectativas de inflação elevou os rendimentos das obrigações soberanas a nível global.


MARCO GIORDANO Wellington Management


Vivemos um cenário de pressão inflacionista acentuada, pelo que se torna cada vez mais provável que os bancos centrais respondam.


FILIPE SILVA Banco Carregosa


Gasóleo subiu 2,5 vezes mais do que a gasolina


Inflação nos produtos energéticos volta a explicar boa parte da subida dos preços no mês de abril. Leitura final do INE mostra que variação homóloga de 3,3% é a maior em quase dois anos.


O aumento e a diferença são evidentes para quem abastece o carro, mas o Instituto Nacional de Estatística (INE) dá a dimensão dessa realidade ao divulgar os dados detalhados da inflação para abril: o gasóleo subiu quase 32% em termos homólogos e a gasolina cerca de 12%.


O disparo foi sentido logo em março depois do início da guerra no Irão, no final de fevereiro. A 9 de março, o preço do litro do gasóleo teve o maior aumento de sempre, de cerca de 20 cêntimos. No caso da gasolina, a subida foi mais modesta, de cerca de sete cêntimos.


De acordo com o INE, no primeiro mês completo após a guerra no Médio Oriente e fecho do estreito de Ormuz, o preço do gasóleo teve uma variação homóloga superior a 16% e da gasolina em 6,3%. Um perfil que se manteve em abril, com o gasóleo a registar um salto de 31,6% e a gasolina 12,4%. A variação geral dos combustíveis deu, de resto, o principal contributo para o avanço da inflação em abril de 3,3% — e não 3,4% como indicava a estimativa rápida do INE divulgada a 30 de abril.


A autoridade estatística nacional esclarece que "com arredondamento a uma casa decimal, esta taxa é inferior em 0,1 p.p. à estimativa rápida divulgada a 30 de abril, embora a diferença tenha sido efetivamente de apenas 0,01 p.p." O INE refere que "tal como verificado no mês anterior, a aceleração do índice de preços no consumidor é maioritariamente explicada pelo aumento do preço dos combustíveis."


É de salientar que a variação nos preços do gasóleo e gasolina em março já considera o desconto no Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), cuja eliminação de forma progressiva foi revertida pelo Governo de Luís Montenegro para apoiar os consumidores. Esse desconto é equivalente à diminuição de


GASÓLEO DÁ NOVO SALTO EM ABRIL


Variação homóloga do IPC no gasóleo e gasolina, em percentagem


Tal como aconteceu em março, a aceleração da inflação em abril ficou a dever-se "maioritariamente" ao aumento do preço dos combustíveis. Mas dentro desta categoria, há uma clara evidência desse aumento no gasóleo, refletindo o que se passa nas bombas.


40 35 Gasolina


30 Gasóleo


25 <- IPC 8,5% 20 7,4% 15 0,8% 10


5 0 -5 -10 31,6%


-15 12,4% -20 3,3% -25 -30


Fonte: INE


23% para 13% na taxa de IVA que incide sobre o ISP, o que se traduz num valor mais baixo de venda ao consumidor final. É preciso recuar a maio de 2022 para se registar uma variação homóloga da inflação mais significativa, quando os preços aceleraram 3,8%.


Frescos em alta


Também os produtos alimentares não transformados, ou seja, os frescos, mantiveram em abril um perfil de subida, tendo aumentado 7,4% em termos homólogos. No entanto, a dinâmica já se verificava antes do início da guerra.


Mas dentro desta categoria, há produtos que registam fortes subidas. Os hortícolas, frutos e leguminosas tiveram as acelerações mais significativas, destacando-se esta última com uma variação homóloga de 35,5%. Seguem-se os legumes, como couves ou espinafres, que subiram quase 30% e, por fim, os frutos — frescos ou refrigerados — com um aumento de 28,7%. Destaque ainda para o peixe fresco (27%).


As rendas de habitação por metro quadrado tiveram uma subida de 5,1% em abril, num valor idêntico ao mês anterior, tendo todas as regiões registado crescimentos — destacando-se a subida de 6,6% na Madeira.


A inflação subjacente — que exclui os produtos alimentares não transformados e energéticos, pela sua natureza volátil — registou uma variação de 2,2% (2% em março). Também o índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC) registou uma variação homóloga de 3,3%.


Ormuz pode provocar novo choque no gás na UE


A Agência da UE para a Cooperação dos Reguladores da Energia (ACER, na sigla inglesa) alerta que a Europa continua vulnerável a novos choques energéticos, numa altura em que o conflito no Médio Oriente pressiona os mercados globais do gás.


No relatório de monitorização de 2026 sobre o mercado europeu de gás natural liquefeito (LNG), a ACER avisa que o fecho prolongado do Estreito de Ormuz poderá provocar um défice líquido de oferta de cerca de 27 mil milhões de metros cúbicos (bcm) no mercado global de LNG, intensificando a concorrência internacional por cargueiros de gás natural liquefeito.


"As recentes tensões no Médio Oriente mostram como as crises geopolíticas podem rapidamente perturbar os fluxos de energia e fazer disparar os preços", lê-se. Segundo a agência, caso o estreito permaneça encerrado durante todo o ano, o ajustamento terá de acontecer sobretudo através de menor consumo de gás, recurso temporário ao carvão, medidas administrativas de poupança energética ou destruição de procura devido aos preços elevados.


Bruxelas já apelou à redução da procura, aceleração das renováveis e enchimento antecipado das reservas para conter a pressão sobre os preços. As tensões no Médio Oriente fizeram também disparar os preços do gás europeu, com o TTF — principal referência europeia — a ultrapassar os 70 euros por megawatt-hora em operações intradiárias.


UE dependente dos EUA


A ACER sublinha que a UE alterou profundamente o seu modelo de abastecimento energético desde 2022, substituindo grande parte do gás russo transportado por gasoduto por LNG importado por navio, mas viu os EUA consolidarem-se como o principal fornecedor.

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