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17 novembro 2023 09h55

História concisa da evolução económica global nos últimos 15 anos, de 2009 a 2023

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Os primeiros sinais preocupantes da crise do subprime nos EUA apareceram no verão de 2007, mergulhando gradualmente o setor imobiliário norte-americano em graves dificuldades, desde os incumprimentos e as execução de hipotecas residenciais à desvalorização dos preços das casas e ao consequente colapso de muitos produtos financeiros associados ao setor imobiliário dos EUA, sobretudo os célebres mortgage backed securities (MBS, títulos garantidos por hipotecas) alicerçados nas hipotecas das casas das famílias norte-americanas. Aos poucos, os desequilíbrios e as vulnerabilidades estenderam-se não só ao setor financeiro, mas também a todos os demais setores de atividade económica, contagiando igualmente as restantes economias mundiais, devido à importância da economia dos EUA e à venda de produtos financeiros suportados por MBS aos bancos estrangeiros, culminando numa profunda recessão global, a maior desde a Grande Depressão de 1929, tendo, por isso, ficado conhecida como Grande Recessão.

 

Na tentativa de mitigarem a crise económica, os governos nacionais, um pouco por todo o mundo, encetaram medidas de apoio ao crescente desemprego e à falência de empresas. A ativação dos estabilizadores automáticos, sobretudo nas economias europeias, impulsionou ainda mais os défices públicos dos países membros mais vulneráveis. Os preços dos credit default swaps, os denominados seguros para os detentores de títulos de dívida (como obrigações), aumentaram para níveis nunca vistos, nomeadamente os das economias mais frágeis. Seguiu-se a crise das dívidas soberanas na Euro e consequentes resgates financeiros em 2010 e 2011 à Grécia, à Irlanda e a Portugal.

 

Durante alguns anos, os principais bancos centrais enveredaram por políticas monetárias nunca antes experimentadas, dando início aos Quantitative Easing (QE), ou seja, à compra sem prazo de obrigações do tesouro e de MBS, no caso da Reserva Federal dos EUA, procurando debelar a crise e fornecer toda a liquidez necessária aos agentes económicos (estado, famílias e empresas). Receando o QE do Banco Central Europeu, a Suíça abandonou no dia 15 de janeiro de 2015 o vínculo cambial da sua moeda ao euro (1,20 CHF=1 EUR).

 

O Brexit em 2016 e o início da guerra comercial entre os EUA e a China em 2018, prometeram reverter o fenómeno da globalização e o seu fundamental cariz deflacionista. Em 2020, a pandemia trouxe mesmo a recessão antecipada em 2019 pela inversão da curva de rendimentos dos EUA. A enérgica resposta dos bancos centrais inundou o sistema bancário de liquidez, fornecendo também aos governos dinheiro suficiente para mitigarem as dificuldades das populações. Os gastos do governo dos EUA engordaram ainda mais as poupanças pandémicas dos norteamericanos, aquecendo gradualmente o pavio cada vez muito curto da inflação do lado da procura. Os preços no consumidor dispararam, impulsionados também do lado da oferta pelas disrupções nas cadeias de abastecimento (bottlenecks). A intensificação da transição energética no segundo semestre de 2021 e a emergência de segurança energética em fevereiro de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, encarregaram-se de abrir as portas à inflação na Europa.

 

Entretanto, o enérgico aumento das taxas de juro para travar a inflação mais elevada dos últimos 40 anos tem retirado gradualmente liquidez aos agentes económicos, prometendo esta postura monetária contracionista redundar numa recessão. A Alemanha é a primeira da fila. Enquanto isso, a carga fiscal tem aumentado substancialmente desde 2008, tentando reduzir os elevados níveis de dívida pública em relação ao PIB nominal, acumulados nos últimos 15 anos. Ainda hoje são visíveis as cicatrizes deixadas pela Grande Recessão nas contas públicas de muitos países. O mundo mudou em 2008…