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31 outubro 2025 07h30

IA dita máximos consecutivos do S&P 500. Lembra as dotcom?

Vida Económica

Os mercados acionistas norteamericanos continuam a alcançar máximos históricos consecutivos, impulsionados pela euforia em torno da inteligência artificial (IA). O entusiasmo tecnológico tem sido o principal motor do S&P 500, mas levanta a questão central que domina hoje o debate financeiro: existirá já uma bolha ditada pela IA?


As grandes tecnológicas norteamericanas, as Big7 — Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla — concentram mais de 60% dos ganhos do S&P 500 em 2025. A capitalização bolsista da Nvidia aproxima-se dos cinco biliões de dólares, enquanto a Apple e a Microsoft estão nos quatro biliões. Em termos históricos, as valorizações estão exigentes: o rácio preço/lucro (P/E) médio do índice ronda 23 vezes, ou seja, as ações do S&P 500 valem atualmente 23 vezes os lucros das empresas que o compõem, muito acima da média de longo prazo de 17x. O CAPE Shiller aproxima-se dos 40 pontos, níveis semelhantes aos registados no auge da bolha das dotcom.


A euforia em torno da inteligência artificial tem alimentado expectativas eventualmente desfasadas dos lucros reais das empresas. O prémio de risco acionista tem diminuído, e parte das valorizações parece hoje assentar mais na crença no potencial transformador da tecnologia do que em resultados efetivos. Ainda assim, o contexto atual difere do de 1999. As grandes tecnológicas apresentam lucros robustos, margens elevadas e balanços sólidos. A IA é uma revolução tecnológica já com ganhos de produtividade mensuráveis e uma adoção crescente em muitos setores. No entanto, o mercado pode estar a viver uma "mini-bolha racional”, ou seja, existem fundamentos reais, mas as expectativas estão muito elevadas. O risco de correção aumentará se os lucros desacelerarem ou se as taxas de juro permanecerem em níveis restritivos ao longo de 2026.


Apesar disso, há sinais de sobrevalorização. O S&P 500 negoceia muito acima das suas médias históricas, e a valorização está concentrada num pequeno grupo de empresas que domina o índice — um padrão semelhante ao observado nas dotcom. À medida que a euforia cresce, surgem tanto negócios sólidos como pura especulação. O facto de hoje haver lucros reais não significa que "This Time Is Different”. Sempre que essa frase ganha força, a história tende a repetir-se. Quanto maior é a árvore, maior é a queda. Todavia, ainda não se sabe se a atual árvore é um carvalho ou se crescerá até ser uma sequoia.


O shutdown parcial do governo dos EUA, a instabilidade no setor bancário e os sinais preocupantes de escassez de liquidez no mercado monetário norteamericano não têm sido suficientes para travar o S&P 500. A Secured Overnight Financing Rate (SOFR) tem permanecido acima do limite superior das Fed Funds Rate nos percentis 75 e 99 — algo que não acontecia desde março de 2020 —, sinalizando pressões estruturais no mercado monetário. Os bancos com liquidez mostram-se relutantes em emprestar a quem não a tem, ou fazem-no a custos mais elevados. Ao mesmo tempo, em França, a crise orçamental mantém-se por resolver e o spread da dívida continua em níveis elevados. Apesar disso, as bolsas seguem quase indiferentes, blindadas pela narrativa da inteligência artificial e pelos lucros das grandes tecnológicas.


O investidor global parece ter criado um "escudo de otimismo” em torno da IA. Acredita-se que esta tecnologia poderá redefinir o potencial de crescimento económico, justificando valorizações que noutros contextos pareceriam excessivas. Mas essa complacência pode revelar-se perigosa. Basta o agravamento súbito de um foco atual de instabilidade — ou o surgimento de um "cisne negro”, seja ele geopolítico, financeiro ou monetário — para que o mercado reajuste rapidamente as valorizações.


Em suma, os mercados vivem uma fase de extraordinário otimismo em que lucros sólidos e expectativas elevadas coexistem, mas a liquidez no mercado monetário começa a dar sinais de escassez. O entusiasmo em torno da inteligência artificial pode continuar a sustentar as cotações no curto prazo, mas a história mostra que a confiança sem limites raramente dura muito tempo. Tal como um vulcão que começa a dar sinais antes de entrar em erupção, a falta de liquidez pode ser o primeiro aviso de uma eventual correção dos mercados acionistas.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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