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21 novembro 2025 01h35

IA e produção de eletricidade da China

Vida Económica

A expansão acelerada da Inteligência Artificial está a transformar a procura mundial de eletricidade e a alterar profundamente a rede elétrica, a infraestrutura digital, sobretudo os data centers, e os fluxos de energia, ou seja, toda a logística energética. Nos EUA, este fenómeno é particularmente evidente. Entre 2025 e 2030, estima-se que o consumo elétrico dos data centers aumente de pouco mais de 200 TWh anuais para cerca de 600 TWh. Isto percebe-se também na forma como os centros de dados se concentram em Ashburn, na Virgínia, que se tem destacado como o maior cluster global. Por esta região passa cerca de 70% do tráfego mundial de internet, não só devido à proximidade com os cabos submarinos que chegam à costa, a cerca de 300 quilómetros, mas também graças à combinação de energia relativamente barata, estabilidade regulatória, incentivos fiscais e infraestruturas de telecomunicações pré-existentes.


Embora os EUA liderem esta corrida, o fenómeno é claramente global. A Europa tenta acelerar o licenciamento de novos centros de dados, a China investe massivamente em infraestruturas próprias para garantir autonomia tecnológica, a Arábia Saudita procura afirmar-se como polo digital apoiado em energia barata e os BRICS preparam hubs regionais. A capacidade computacional e o acesso a energia fiável são cada vez mais ativos geopolíticos fundamentais nos próximos anos.


Este processo não depende apenas de energia, mas também das matériasprimas necessárias para construir as redes e a nova capacidade elétrica. Quanto às matérias-primas críticas, a lógica é simples. O minério é uma commodity e não há diferenciação no produto, ou seja, o custo marginal continua a ser a única vantagem real. Ganha quem consegue extrair, refinar e entregar ao menor custo total, considerando logística, estabilidade do país e risco político. Chile e Peru no cobre, Indonésia no níquel, Austrália no lítio e o Cazaquistão no urânio são hoje as fontes mais competitivas.


A questão central, porém, é a energia necessária para sustentar esta nova economia digital. Os EUA enfrentam o desafio de aumentar mais de 400 TWh em poucos anos. A energia nuclear tradicional não responde a esta urgência devido a prazos de construção longos, e embora a solar e a eólica cresçam rapidamente, não conseguem sozinhas acompanhar a velocidade da procura, devido à sua intermitência e ao facto de não garantirem baseload suficiente. Assim, o gás natural, barato, abundante e disponível, assume um papel decisivo no curto e médio prazo. Consequentemente, assistimos a hyperscalers a firmar contratos de longo prazo que combinam gás com captura de carbono e renováveis, enquanto os pequenos reatores modulares (SMR) continuam em fase de maturação tecnológica, podendo ser uma opção viável num futuro próximo.


A eletrificação massiva afeta, inevitavelmente, os operadores de rede. Empresas como a REN, em Portugal, ou as congéneres americanas, beneficiam do aumento de volume e dos investimentos necessários em reforço e modernização. Contudo, a valorização depende do enquadramento regulatório. Os EUA já estão a aumentar a remuneração permitida, nomeadamente o ROE regulado, que em vários casos ultrapassa os 10%, para atrair capital privado, enquanto vários países europeus mantêm abordagens mais conservadoras.


Finalmente, importa comparar o desafio energético dos EUA no reforço da sua capacidade de produção de eletricidade com a realidade da China. No início dos anos 2000, a China gerava e consumia pouco mais de 1.000 TWh de eletricidade anualmente, um valor muito inferior ao dos EUA. Em apenas uma década, porém, multiplicou a produção várias vezes e atingiu cerca de 4.000 TWh por volta de 2010, ultrapassando os EUA nesse mesmo período. A partir daí, o crescimento exponencial acelerou e em 2024, a China superou os 10.000 TWh. Ao ritmo atual, a China adiciona aproximadamente 1.000 TWh a cada 18 a 24 meses. Assim, aquilo que para os EUA é uma transformação estrutural profunda, ou seja, aumentar 400 TWh em cinco anos, para a China equivale a menos de um ano de crescimento normal. Esta assimetria destaca um ponto fundamental, o de que os EUA mantêm a liderança tecnológica e digital, mas a China possui uma capacidade física de expansão energética e industrial sem paralelo. A eletrificação torna-se, assim, um dos fatores geopolíticos mais determinantes dos próximos anos. Neste ponto a China age como a formiga de La Fontaine (trabalho árduo e produtivo), enquanto o Ocidente se aproxima da cigarra, confortável e pouco focado no desafio energético.


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