Investidores querem auditor a fixar preço da OPA à Martifer
Contrapartida é criticada e os títulos negoceiam em bolsa acima do valor proposto na operação. Apesar da contestação ao montante, a probabilidade de sucesso da OPA é elevada.
A contrapartida é criticada pelo mercado e os títulos negoceiam em bolsa acima do valor proposto na operação. Apesar de os pequenos acionistas admitirem contestar o montante, a probabilidade de sucesso da OPA é elevada e quem não vender arriscar ficar com uma participação sem liquidez.
Em 2007 cada ação da Martifer entrava em bolsa a valer 8 euros, e no primeiro dia de negociação viria a disparar até aos 12 euros. Agora, os principais acionistas querem comprar os títulos que negociam em bolsa a 2,057 euros cada, um montante visto pelo mercado como baixo e que não reflete o valor do grupo industrial. Pedir a intervenção de um auditor independente é uma das hipóteses em cima da mesa.
"A contrapartida oferecida tem como referência o preço médio ponderado dos valores mobiliários representativos do capital social da Martifer negociados no mercado regulamentado nos últimos seis meses anteriores à oferta. Contudo, atento à liquidez registada nesse período, não é possível tirar a presunção de que esse preço reflete o justo valor da sociedade”, diz ao Negócios Octávio Viana, presidente da ATM – Associação de Investidores.
A Visabeira Indústria SGPS anunciou na semana passada o lançamento de uma oferta pública geral e obrigatória de aquisição (OPA) sobre a totalidade das ações representativas do capital social da Martifer SGPS. Oferecia 2,057 euros, uma contrapartida "ligeiramente superior ao preço médio ponderado” dos títulos nos seis meses anteriores, segundo o anúncio preliminar.
Contudo, admitia inicialmente que o valor pudesse ser de 2 euros, já que na última sessão antes do anúncio teve uma escalada de quase 25%. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) considerou que esta deveria ser incluída nos cálculos e a referência aos 2 euros foi retirada.
Ainda assim, o representante dos pequenos investidores considera que a contrapartida "não pode ser apurada com base nesse referencial, devendo a CMVM considerar que a contrapartida proposta pela oferente não se encontra devidamente justificada e não é equitativa, devendo ser a mesma fixada por perito independente designado pela CMVM”.
Octávio Viana explica que se encontra em gestão provisória até serem eleitos novos órgãos sociais da associação, pelo que não adianta quais os passos a tomar. "Mas, para já, há um compromisso, se necessário, para exigir a fixação da contrapartida por auditor independente, seja derivado da falta de liquidez, seja que mesmo a presunção de equitatividade da contrapartida nos termos do artigo 188 (1, b) do CVM possa ser ilidida judicialmente”.
O artigo em questão do Código dos Valores Mobiliários dita que a contrapartida não pode ser inferior ao mais elevado de um conjunto de montantes, incluindo o preço médio ponderado apurado em mercado regulamentado nos últimos seis meses. "É lamentável que a CMVM não tenha tomado uma posição tempestiva sobre este assunto, abalando, uma vez mais, a confiança que os investidores, nomeadamente os acionistas da Martifer, deveriam ter no mercado e no regulador”, critica.
Da mesma forma, César Borja, presidente da Associação Portuguesa de Acionistas Minoritários (APAM), considera que a contrapartida é "insuficiente”. Tendo em conta tendências fundamentais e a valorização atribuída a este género de empresas no contexto europeu, defende que o valor deveria estar entre os 3,5 euros e os 4 euros por ação.
"Se o preço de mercado for acima do preço da OPA, muito poucos irão vender na OPA. Só em Portugal é que se lançam OPA abaixo do preço de mercado e se espera ter sucesso. Nós não estamos vendedores a estes preços”, declara.
Além de esperar litigância, Octávio Viana concorda que "não faz sentido vender na OPA”, quando os acionistas podem vender mais caro no mercado. Após terem chegado a estar suspensas e afundarem no regresso, cada ação vale agora 2,21 euros na bolsa de Lisboa.
Mas há um risco: a falta de liquidez após a retirada do mercado. "Para investidores com perfil de curto prazo e sensibilidade à liquidez, a oferta representa uma saída com prémio e sem fricção. Já os acionistas com convicção no potencial de valorização da Martifer poderão hesitar. Contudo, com a perspetiva real de exclusão de bolsa, por via potestativa ou voluntária, manter posição poderá resultar em ficar num título sem mercado, sem informação e com poder residual. Nessa conjuntura, o risco de ficar com o investimento suspenso será elevado”, avisa João Queiroz, "head of trading” do Banco Carregosa.
O especialista considera, por isso, que a probabilidade de êxito da OPA é "elevada”, atendendo ao controlo já relevante da Visabeira e o perfil de baixa liquidez das ações. "No entanto, poderá haver resistência de acionistas mais atentos à valorização futura do negócio, sobretudo tendo em conta os rácios atrativos e a recuperação do setor da construção metálica e energias renováveis. A margem para oposição efetiva, porém, é muito curta: com 90% dos direitos de voto, envolvendo acordo ou pactos parassociais, a Visabeira pode avançar para uma aquisição potestativa e consolidar o controlo total”, acrescenta.
"Manter posição poderá resultar em ficar num título sem mercado, sem informação e com poder residual.", JOÃO QUEIROZ "Head of trading” do Carregosa.
É lamentável que a CMVM não tenha tomado uma posição tempestiva.", OCTÁVIO VIANA Presidente da ATM –Associação de Investidores
"Só em Portugal é que se lançam OPA abaixo do preço de mercado e se espera ter sucesso.", CÉSAR BORJA Presidente da APAM
Cofina, Grão-pará e Martifer. Bolsa não pára de perder cotadas
Pelo terceiro ano consecutivo, Lisboa prepara-se para perder cotadas. A Cofina deixou de negociar em fevereiro, a Grão-pará apresenta-se à insolvência e a Martifer é alvo de uma OPA.
A valorizar para níveis como não se viam há mais de uma década, a bolsa de Lisboa não tem, contudo, conseguido manter ou captar o interesse das empresas. Após quatro saídas no ano passado e uma já este ano, há mais duas cotadas prestes a seguir o mesmo caminho. Por outro lado, aquela que se esperava ser uma das maiores entradas das últimas duas décadas acabou por não acontecer.
A OPA lançada pela Visabeira Indústria (após um acordo parassocial tripartido com a I´M e a Mota-engil) sobre os 12,6% do capital da Martifer que ainda não controlam deverá resultar na saída de bolsa, 18 anos depois de ter entrado.
No anúncio preliminar da operação, os compradores explicam que se o resultado da OPA chegar aos 90% dos direitos de voto da Martifer, "a oferente exercerá o direito de aquisição potestativa”, o que "resultará na exclusão das ações da admissão à negociação no mercado regulamentado com efeitos imediatos”. Já se o limiar dos 90% não for atingido "a oferente requererá a convocação de uma assembleia geral de acionistas” da Martifer "para aprovar a exclusão voluntária de negociação das ações”, estando "as partes no acordo parassocial tripartido obrigadas a viabilizar essa deliberação”.
O anúncio é feito um mês depois de o histórico grupo Grão-pará ter decidido em assembleia geral de acionistas apresentar a empresa a insolvência. Da mesma forma, também a Cofina deixou de negociar em fevereiro, após ter sido aprovada a dissolução da sociedade. No caso destas últimas duas, tratam-se das mais antigas cotadas da bolsa de Lisboa - a imobiliária Grão-pará foi admitida a 10 de julho de 1984 e a antiga dona do Negócios, Correio da Manhã, CMTV, Record e Sábado a 20 de fevereiro de 1998.
"Ainda que a Martifer e o grupo Grão-pará representem empresas de menor capitalização, o seu afastamento da bolsa acentua uma tendência preocupante: o esvaziamento do mercado nacional de PME cotadas”, diz João Queiroz, "head of trading” do Banco Carregosa, sobre as saídas que se avizinham.
"A redução da diversidade de emitentes tende a prejudicar o dinamismo do principal PSI, mesmo que este segmento não esteja ali presente, e alimenta a perceção de que o mercado nacional serve mais como rampa de saída do que como plataforma de crescimento. A confiança dos investidores, em particular os institucionais, poderá ressentir-se desta sucessiva desertificação do segmento de ‘small caps’”, adverte.
À debandada de cotadas junta-se uma escassez de admissões à negociação. Nos últimos meses, a expectativa em torno da oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) do Novo Banco entusiasmou investidores e analistas. Com uma avaliação que chegou a ser apontada até aos 7 mil milhões de euros, esperava-se que viesse a ser a maior IPO na bolsa de Lisboa desde a EDP Renováveis em 2008. A operação acabou por não acontecer, tendo sido fechada a venda ao Groupe BPCE, o segundo maior do setor financeiro francês, de 100% do capital por 6,4 mil milhões de euros.
"É normal nos mercados de capitais”, disse na altura Mathieu Caron, diretor de mercados da Euronext para a Europa. "Os últimos anos têm sido difíceis para o mercado de IPO, não só em Portugal, mas em todo o mundo, por conta do ambiente macroeconómico. 2025 não foi o arranque que todos esperavam”.
A atividade na Europa foi especialmente castigada no primeiro semestre. As novas empresas captaram apenas 4 mil milhões de euros, o que compara com 11,5 mil milhões no período homólogo. A nível global, houve um crescimento de 18% para 58,4 mil milhões de dólares (conseguidos em 486 admissões à negociação), com mais de metade a vir dos EUA.