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06 janeiro 2026 06h35
Fonte: ECO

“Investimento maciço” separa valorização do petróleo de uma quebra “estrutural” nos preços

ECO

A Bloomberg cita estimativas de que sejam necessários 100 mil milhões de dólares de investimento na Venezuela ao longo da próxima década para que a Venezuela regresse aos tempos áureos da produção.


A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos destaca a crescente atenção sobre o petróleo da Venezuela, com previsões de aumento dos preços a curto prazo.


Os analistas apontam que a recuperação da produção petrolífera na Venezuela exigirá um investimento de cerca de 100 mil milhões de dólares, devido ao subinvestimento histórico e à predominância de petróleo não convencional.


Se a produção venezuelana aumentar, isso poderá pressionar os preços do petróleo a médio e longo prazo, alterando a dinâmica do mercado global.


 O ouro negro, uma das principais riquezas da Venezuela , está no centro das atenções desde que os Estados Unidos capturaram o presidente deste país latino, Nicolás Maduro, este sábado. Dada a situação de incerteza que se vive, os analistas preveem que o preço do barril de petróleo suba no curto prazo . Contudo, se as intenções de Donald Trump se concretizarem, e as empresas norte-americanas se dediquem a explorar o petróleo venezuelano, o efeito no longo prazo seria de alívio nos preços. Entre um cenário e outro, está um número pesado: os 100 mil milhões de dólares que deverão ser necessários para reabilitar a indústria petrolífera na Venezuela.


" Os mercados petrolíferos poderão enfrentar volatilidade no curto prazo e incerteza no longo prazo — uma recuperação da produção venezuelana poderá levar anos e exigir um investimento maciço ”, escrevem Christian Schulz, economista-chefe na Allianz GI , e Alexander Robey , gestor de portefólio na mesma casa, numa nota aos investidores, lançada esta segunda-feira. Neste sentido, indicam que " há potencial para ganhos de curto prazo nos preços do petróleo durante a instabilidade atual, bem como um risco de queda dos preços a médio prazo à medida que a oferta venezuelana recupera ”.


 O preço do barril de Brent, cotado em Londres e referência para a Europa, valorizava 1,68% para os 61,77 dólares no final da tarde de sexta-feira. Em Nova Iorque, o West Texas Intermediate subia cerca de 1,74% para os 58,31 dólares pela mesma altura.


"O impacto no preço do petróleo continua a ser incerto, uma vez que está longe de ser claro quais são aqui as intenções dos EUA”, considera Ben McWilliams, investigador afiliado no think tank Bruegel. Ao mesmo tempo, nota que o impacto nos preços "tem sido limitado” , uma vez que, atualmente, a Venezuela "não produz grandes volumes”, "pelo que não há muito potencial de volatilidade no curto prazo”.


O analista da XTB, João Cruz, reforça esta ideia: "a curto prazo, o impacto tende a ser mais visível no ‘sentimento de mercado’ do que no número efetivo de barris”, afirma. Na sua ótica, "esta ação vem aumentar a incerteza e pode mexer com o prémio de risco”, embora a oferta não sofra alterações "de um dia para o outro”.


" No curto prazo, uma intervenção direta de um Estado noutro país, neste caso, dos EUA na Venezuela, é um foco de incerteza política e risco operacional, o que normalmente implica um prémio de risco geopolítico adicional, ou seja, cotações do petróleo mais elevadas ”, reforça Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.


Passando esta primeira fase, "a simples perceção de que poderá haver um aumento sustentado da produção venezuelana , sobretudo com a participação de empresas norte-americanas e fora do controlo direto da OPEP+ (o cartel dos países produtores de petróleo), tende a limitar as subidas do preço do petróleo, pressionando gradualmente os preços” , continua Rosa.


"Se a região estabilizar e a produção de petróleo crescer gradualmente, isso poderá acrescentar volumes significativos à oferta global de petróleo, exercendo alguma pressão descendente sobre os preços.”


 Na visão do investigador do Bruegel, os efeitos a mais longo prazo poderão ser mais significativos. "Se a região estabilizar e a produção de petróleo crescer gradualmente, isso poderá acrescentar volumes significativos à oferta global de petróleo, exercendo alguma pressão descendente sobre os preços ”, afirma, relembrando ainda que a Venezuela tem "as maiores reservas estimadas de crude do mundo”.


A Venezuela possui reservas de cerca de 303 mil milhões de barris, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Contudo, cerca de 85 a 90% dessas reservas correspondem a petróleo não convencional, maioritariamente extra pesado, localizado na Faixa do Orinoco, enquanto apenas 30 a 40 mil milhões de barris são classificados como petróleo convencional. " O seu potencial de produção atual é substancialmente condicionado pela predominância de petróleo não convencional”, o que leva a que a capacidade do país latino influenciar a oferta global no curto prazo permaneça "limitada” , explica Paulo Rosa.


A produção venezuelana atual situa-se atualmente entre 800 mil e 1,1 milhões de barris por dia , com margem técnica de curto prazo para subir para cerca de 1,2 a 1,4 milhões de barris por dia, essencialmente através da recuperação de campos existentes, pelo que Rosa considera o potencial de produção atual "relativamente baixo” . Ao longo da década, a fasquia subiria para níveis mais elevados, indica João Cruz, para depois ressalvar que depende da execução, estabilidade e capital.


Num cenário em que exista um levantamento ou atenuação de sanções, segurança jurídica e investimento privado (incluindo reabilitação de infraestruturas venezuelanas, como portos, oleodutos e logística), a Venezuela pode recuperar produção a médio e longo prazo, assim como aumentar as exportações. Nesse caso, "atuará enquanto fator estrutural de pressão em baixa nos preços ”, prevê João Cruz. "Caso a reabilitação da capacidade de extração seja bem-sucedida e se traduza num aumento significativo da produção, o efeito é estruturalmente de queda dos preços do crude ", concorda Paulo Rosa.


Este tipo de intervenção pode impulsionar os preços do petróleo no imediato, mas tende a pressioná-los em baixa, no médio a longo prazo, caso se efetive um aumento da produção de petróleo na Venezuela, e à medida que essa nova oferta chega ao mercado.   


 " Este tipo de intervenção pode impulsionar os preços do petróleo no imediato, mas tende a pressioná-los em baixa, no médio a longo prazo, caso se efetive um aumento da produção de petróleo na Venezuela, e à medida que essa nova oferta chega ao mercado ”, resume o economista sénior do Banco Carregosa.


Há, por fim, outra questão a ter em conta: " preços mais baixos podem reduzir o incentivo para novo crescimento do shale nos EUA, o que tende a criar um certo ‘chão’ no mercado ”, contrabalança João Cruz.


Para poços já em produção, é apontado um break-even médio, ou seja uma cobertura de custos operacionais, perto de 41 dólares por barril, com produtores maiores a reportarem valores mais baixos, relata a XTB. Contudo, para algumas zonas de exploração nos Estados Unidos, várias referências colocam o break-even na casa dos 60 dólares por barril, "o que significa que preços mais baixos tendem a travar o crescimento da oferta americana”. É que, complementa Paulo Rosa, apesar de na Venezuela o petróleo ser maioritariamente não convencional, exigindo investimentos elevados à partida, " os custos operacionais por barril, uma vez instalada a infraestrutura, podem ser relativamente competitivos, situando-se em níveis comparáveis ou até inferiores aos do shale oil norte-americano ”.


Assim, " projetos venezuelanos bem financiados podem manter-se em produção mesmo num cenário de preços mais baixos ”, afirma o economista do Banco Carregosa. Isto, mesmo considerando que no Médio Oriente, em países como a Arábia Saudita, verificam-se custos de extração muito inferiores, frequentemente abaixo dos 10 dólares por barril.


A questão de 100 mil milhões de dólares


"Do ponto de vista geológico, as reservas [de petróleo venezuelanas] são atrativas e quantidades significativas deverão ser economicamente viáveis a níveis de preços interessantes”, indica McWilliams. " O verdadeiro desafio são décadas de subinvestimento: serão necessários muitos milhares de milhões de dólares em investimento de capital para voltar a fazer o petróleo fluir ”, reconhece o investigador.


"O futuro das reservas não é um problema ‘geológico’, é sobretudo acima do solo: investimento, tecnologia, acesso a diluentes, regras estáveis e capacidade de exportação”, concorda o analista da XTB. " Com uma maior abertura e participação de empresas internacionais, estas reservas tornam-se mais rentáveis. Sem isso, continuam a ser, em parte, teóricas, isto é, existem, mas não se traduzem facilmente em produção e exportação ”, conclui.


Paulo Rosa espera que a exploração dessas reservas seja gradual, centrada primeiro na reabilitação de campos existentes e apenas mais tarde no desenvolvimento em larga escala do petróleo extra-pesado da Faixa do Orinoco.


Os tempos áureos da produção de petróleo venezuelana remontam aos anos 70, quando esta chegava aos cerca de 3,5 milhões de barris por dia . Hoje, a produção não chega a 1 milhão de barris por dia, o correspondente a cerca de 1% do mercado global.


Não falei com empresas petrolíferas dos EUA nos últimos dias, mas estamos bastante certos de que haverá um interesse dramático.   


Elevar a produção da Venezuela de volta aos níveis máximos da década de 1970 exigiria que fossem investidos cerca de 10 mil milhões de dólares por ano ao longo da próxima década , afirma Francisco Monaldi, diretor da política energética para a América Latina no Baker Institute for Public Policy da Universidade Rice, citado pela Bloomberg . Estas empresas, admite o mesmo, podem incluir a Chevron Corp, a Exxon Mobil Corp. e a ConocoPhillips. O custo total do investimento soma, assim, cerca de 100 mil milhões de dólares.


 "Não falei com empresas petrolíferas dos EUA nos últimos dias, mas estamos bastante certos de que haverá um interesse dramático”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, numa entrevista à norte-amerciana ABC , este domingo. "Penso que haverá uma procura e um interesse enormes por parte da indústria privada, se lhe for dado espaço para o fazer.”

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