Voltar
09 janeiro 2026 06h35
Fonte: Expresso

Investir para ganhar à inflação em 2026

Expresso

Depois de vários anos em que a inflação dominou as preocupações das famílias, 2026 surge como um período de relativo alívio. O Governo estima uma subida em torno de 2,1%, semelhante à das restantes instituições, indicando que o custo de vida deverá crescer a um ritmo bem mais controlado e em linha com o objetivo do Banco Central Europeu (BCE). E para quem investe, superar a inflação continuará a ser indispensável para garantir que o dinheiro poupado não perde valor.


Num contexto em que as taxas de juro do BCE deverão rondar os níveis atuais nos 2%, o investidor português terá pela frente um dilema clássico. De um lado estão os produtos conservador6es, como depósitos bancários e títulos de dívida pública, e do outro, ativos com maior risco, com ações, fundos ou até criptomoedas, capazes de gerar retornos mais expressivos, mas sujeitos a maiores oscilações dos mercados financeiros. Ofertas há muitas. Tudo depende do nível de risco a que o investidor se quer submeter e da sua taquicardia.


No essencial, o início de qualquer investimento deve ter isto presente: retornos nominais não são retornos reais. Uma aplicação que prometa 1,5% ao ano pode parecer positiva quando vista isoladamente, mas traduz-se numa perda de poder de compra se comparada com uma inflação de 2,1%. Por isso, qualquer análise séria deve começar por descontar o efeito dos preços, dos impostos e das comissões.


Todos os retornos referidos nestas duas páginas dizem respeito a rendimentos passados, que não garantem a rentabilidade futura. Não se trata também de aconselhamento financeiro. Para isso, deverá dirigir-se a bancos, corretoras e analistas certificados pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).


Portugal é um dos países da Europa onde há uma menor literacia financeira. Em 2024, um estudo do instituto Bruegel mostra que o país fica em penúltimo na União Europeia (UE). Outro relatório do banco Santander, do final do ano passado, mostra que 63% dos portugueses afirmam ter bons conhecimentos em finanças, mas só 36% responderam corretamente questões simples sobre inflação. Esta falta de conhecimento canaliza a poupança para os ativos mais seguros, mas que no longo prazo se têm transformado em perda real de rendimentos.


Os depósitos bancários são a forma de poupança favorita dos portugueses. Basta estacionar o dinheiro no banco e esperar receber alguns juros de volta. Mas entre comissões bancárias e inflação, o resultado final é perda de valor. Até novembro deste ano, havia €199,9 mil milhões neste tipo de investimento, segundo dados do Banco de Portugal. Dá mais ou menos cerca de €19 mil por português. No entanto, a taxa de juro é historicamente baixa e os bancos portugueses são os quintos que pior remuneram este tipo de instrumento, na zona euro (ver textos ao lado).


No mercado há algumas ofertas de depósitos que pagam muito acima da média (que é de 1,4%), mas quase todas apenas se aplicam a novos clientes e são taxas promocionais. Por exemplo, o Banco BiG tem uma proposta de remuneração de 3%. Há também ofertas do Banco Português de Gestão (2,75%), do Banco Best (2,5%), Banco Carregosa (2,5%) ou Banco CTT (2,5%), mas todos com montantes mínimos que oscilam entre os €500 e os €2500 e para um prazo a 3 meses. É preciso ter em conta que estes são juros anualizados. O que significa que, se a proposta for de 3% num depósito a 3 meses, recebe menos do que isso. Há opções para 6, 12 e 24 meses, quase todas para novos clientes, que pagam acima de 2%. Pode consultar o seu banco e os concorrentes para avaliar a melhor proposta.


Diversificar é a chave


Fora da banca tradicional, há também propostas de depósitos. As corretoras


low cost têm estado em crescimento em Portugal pelas baixas comissões e acesso fácil aos investimentos. A alemã Trade Republic, por exemplo, está registada também em Portugal e tem uma opção de remuneração de 2%, a XTB paga 2,3% nos primeiros 90 dias e depois baixa para os 0,9%. Há também opções de seguradoras, como o "My Savings” da Fidelidade que revê os juros de 6 em 6 meses, mas nesta altura já paga menos de 2%.


Os maiores gurus do investimento dizem sempre que diversificar é a chave. Mas o que é diversificar? Investir nas ações de 100 empresas? 20 empresas? Dividir o dinheiro por várias capelinhas? Vejamos o exemplo que é seguido pela Berkshire Hathaway, gestora que até dezembro era liderada por Warren Buffett.


É uma empresa conhecida sobretudo pelo seu método bem-sucedido de investir em ações, mas nem só de cotadas se preenche o seu balanço. Até setembro de 2025, apenas 28,8% da carteira estava em ações de empresas cotadas em Bolsa. A maior fatia (31,1%) estava em títulos da dívida norte-americana de curto prazo, uma opção considerada bastante segura. Só em caso de falência da maior economia do mundo é que Buffett se arriscava a não ser reembolsado. Tem ainda 7,3% em depósitos bancários e 3,1% em propriedades.


Na parte referente a ações, os 282 milhões de dólares (equivalente a €241 milhões) estão repartidos por um cabaz de cerca de 40 empresas. Quando se investe em empresas, há que ter em conta dois retornos possíveis: por via da valorização da cotação ou por via da distribuição de dividendos. Algumas empresas, mesmo com uma rentabilidade menor em Bolsa, podem compensar com o dividendo que distribuem no início de cada ano.


Há ainda a hipótese do investimento imobiliário, seja por via da compra de casas seja através do investimento em fundos imobiliários, mas a grande maioria obriga a um investimento mínimo bastante elevado, a rondar os €100 mil.


O ano que agora começa está a ser visto pelas casas e bancos de investimento como muito incerto, devido aos conflitos geopolíticos em curso. Ainda assim, os maiores bancos apontam para ganhos nas ações europeias e norte-americanas. Diversificar, não entrar em pânico e estudar bem onde investe pode ser a chave do sucesso não só para 2026 mas para os próximos anos.


Criptoativos continuam na montanha-russa


Apesar de todas as promessas de se transformarem em ativos menos voláteis, a cotação das maiores criptomoedas continua a negociar como se estivesse a bordo de uma montanha-russa, num parque de diversões. As promessas de que o ano de 2025 iria ser de afirmação para este sector, proporcionando ganhos avolumados, graças ao apoio dado pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, transformaram-se em perdas para quem investiu nos momentos altos. O bitcoin, a maior criptomoeda do mundo, arrancou o ano ultrapassando, pela primeira vez na história, a barreira dos €100 mil, e em abril já negociava abaixo dos €70 mil, menos 30% em poucos meses. Mas a viagem não ficava por aqui. Em agosto e outubro voltou a ultrapassar os €100 mil, fechando o ano a €74 mil. galmeida@expresso.impresa.pt Dos depósitos às ações, até onde o coração aguentar.


Optar pelo capital garantido pode ser um descanso na hora de encostar a cabeça à almofada, à noite, mas pode também ser um pesadelo para quem pretende ver o dinheiro render. Os depósitos a prazo são a forma de investimento mais usada pelos portugueses. Apenas requerem uma boa dose de conservadorismo e outra de inércia. Até novembro do ano passado, os portugueses tinham estacionado nos bancos um total de €199,9 mil milhões em forma de depósitos bancários, mais 4,4% do que no período homólogo. No entanto, a remuneração não vai além dos 1,4%. Os Certificados de Aforro não têm capital garantido, ao contrário dos depósitos (até €100 mil), mas seria necessária a falência do país para perder o dinheiro. A série atual, a F, está a remunerar até 2,5%, mais prémios de permanência (que podem chegar aos 1,75% no 15º ano). Para fãs de segurança, há ainda opções de PPR em formato de seguro, alguns com capital garantido, mas com rentabilidade praticamente nula, nos últimos anos.


Se procura equilibrar a segurança de um investimento com algum risco, há opções como fundos de investimento e PPR que colocam na balança produtos mais arriscados, como ações, e opções teoricamente mais seguras como obrigações de empresas ou países. No caso dos PPR existem três opções: seguros de vida, fundos de investimento e fundos de pensões. E aqui, mais uma vez, os portugueses dão preferência à segurança (apesar de retornos reais negativos). Até ao final de 2024, tinham €12,3 mil milhões em seguros de vida, mesmo que nos últimos 5 anos, este produto tenha um retorno médio de 0,7%, segundo a calculadora da ASF. Os PPR em formato de fundo de investimento têm captado mais portugueses e são os que dão um retorno maior, sobretudo as opções mais arriscadas. Tratando-se de um produto para a reforma, os bancos aconselham a escolher o risco consoante a idade do investidor. Fora dos PPR, há também outros fundos de investimento com diferentes níveis de risco.


Este será um perfil para os corajosos ou para quem invista a pensar no longo prazo. Historicamente, os ativos mais arriscados são os que dão maiores retornos no longo prazo, mesmo que no imediato sofram uma queda acentuada. A maior fatia de uma carteira mais arriscada poderá estar alocada a ações. Nos últimos cinco anos, o S&P 500, índice norte-americano de referência, deu um retorno anualizado de 13,13%, muito acima da inflação. Na Europa, o Stoxx 600 deu 8,19%. Há outras opções mais sectoriais. Quem quiser investir na defesa ou em tecnologia, dois sectores que têm estado com desempenhos acima da média do mercado, há ETF (exchange-traded funds) — fundos de investimento negociados como se fossem uma ação — que reúnem um cabaz de empresas. Aqui, é preciso alguma cautela, uma vez que os ETF cresceram como cogumelos nos últimos anos e alguns são muito pouco diversificados. Há ainda as criptomoedas que, apesar da montanha-russa em que negoceiam, têm dado grandes retornos no longo prazo.


O que muda nos Certificados de Aforro? Os detentores dos Certificados de Aforro das séries A, B e D têm de entregar os títulos em papel e abrir uma conta digital junto do IGCP, a entidade que gere a dívida pública. Caso não o façam até novembro de 2029, perdem os juros dos montantes aplicados. As alterações têm de ser feitas de forma presencial, nos balcões dos CTT ou Lojas do Cidadão. É também necessária uma atualização dos dados fiscais e bancários.


Qual é o objetivo? O processo pretende melhorar a informação sobre os detentores de Certificados de Aforro, para que se evitem prescrições (em que o dinheiro acaba nas mãos do Estado) e fraude. Passa a ser mais fácil transmitir os títulos para os herdeiros.


É obrigatório? Sim, a campanha de atualização de dados arrancou em outubro de 2025 e é obrigatória para todos os aforradores. O IGCP não fará pagamentos caso não seja feita. No caso das séries mais recentes, a E e a F, é possível o aforrador confirmar os dados através do site Aforronet. Nas mais antigas (A, B, C e D) o certificado era físico.


Quais os documentos necessários?


Tem de se apresentar o cartão de cidadão, passaporte e comprovativo do NIF. É necessário ainda o comprovativo de conta bancária, comprovativo de morada, profissão e entidade patronal.