Japão em declínio, Roménia em ascensão
Em 1995, o Japão apresentava um PIB per capita, medido em paridade de poder de compra (PPC) e expresso em índice face à média da União Europeia (UE = 100), muito superior ao de Portugal, cerca de 135 contra 80. Desde então, a economia nipónica entrou num declínio contínuo, enquanto Portugal permaneceu praticamente estagnado. Três décadas depois, os dois países estão ao mesmo nível, em 82, numa convergência ditada pela queda japonesa, e não por uma melhoria relativa da economia portuguesa.
A evolução da Roménia seguiu trajetória oposta. Após o colapso do bloco socialista e o fim da União Soviética nos anos 1990, o país passou de uma economia planificada para uma economia de mercado. Partindo de níveis de rendimento muito baixos, conseguiu crescer rapidamente ao adotar tecnologia, capital e práticas produtivas já consolidadas no Ocidente. A adesão à UE em 2007, os fundos europeus, o investimento estrangeiro, uma força de trabalho mais jovem e a modernização da economia aceleraram essa convergência, aproximando o PIB per capita em PPC da Roménia da média europeia para 77 em 2024, quando em 1995 era de apenas 30. Enquanto o Japão desceu, a Roménia subiu, sendo um espelho inverso da trajetória japonesa. Lituânia e Polónia, entre outros países de Leste, trilham o mesmo caminho da Roménia.
O declínio do Japão foi ditado pela implosão da bolha imobiliária e bolsista no início dos anos 1990, quando os preços dos ativos nipónicos atingiram níveis extraordinariamente elevados, ao ponto de se dizer que o valor do imobiliário de Tóquio rivalizava com o dos EUA. Os balanços dos bancos nipónicos deterioraram-se com a desvalorização dos ativos, fragilizando todo o sistema financeiro e alastrando a crise a toda a economia, seguindo-se o colapso do investimento privado, que foi gradualmente substituído pelo Governo, o que impulsionou o rácio da dívida pública de 60% para 250% em 30 anos. A este choque inicial somou-se o envelhecimento acelerado da população japonesa, reduzindo a força de trabalho e limitando o consumo, a inovação e o crescimento potencial. O envelhecimento demográfico atua como uma limitação física da capacidade produtiva: tal como uma população doente produz menos, uma população mais velha também, efeito agravado num país com imigração historicamente limitada. Ao mesmo tempo, a manutenção de empresas pouco produtivas, a fraca dinâmica empresarial e a baixa produtividade dos serviços travaram os ganhos de eficiência, enquanto o crédito barato impediu a normal renovação do tecido empresarial, dificultando o processo de ‘destruição criativa’ descrito por Schumpeter, essencial para libertar recursos e aumentar a produtividade.
A política monetária energicamente expansionista, com juros próximos de zero durante muitos anos, evitou crises mais graves, mas não conseguiu reanimar o crescimento, contribuindo ainda para a fraqueza do iene, penalizando o PIB per capita medido em PPC. Paralelamente, o país perdeu protagonismo nas novas indústrias digitais e tecnológicas, como software, plataformas online e semicondutores, áreas dominadas sobretudo por empresas norte-americanas, mas também coreanas e taiwanesas, mantendo ao mesmo tempo uma cultura empresarial conservadora, pouco propícia ao risco, ao empreendedorismo e à criação de novas empresas. O resultado é uma economia que cresce sistematicamente menos do que as restantes economias desenvolvidas, o que, ao longo do tempo, se traduz numa perda contínua de posição relativa.
Por fim, o Japão é uma economia insular muito dependente da importação de recursos naturais, metais industriais e matérias-primas energéticas, como petróleo e gás natural. A escassez de solo arável, os poucos rios e os sismos encarecem infraestruturas como barragens e centrais nucleares, e os tufões dificultam a produção de energia eólica. Quando os preços internacionais destas matérias-primas sobem, os excedentes externos nipónicos passam a défices.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa