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31 outubro 2025 07h05
Fonte: Expresso

Juros congelados até ao verão

Expresso

Economistas consideram que os juros na zona euro se vão manter sem alterações até setembro do próximo ano e não antecipam problemas no sistema bancário ligados ao crédito à habitação.


O Banco Central Europeu (BCE) deverá manter a taxa de juro de referência relacionada com a remuneração dos depósitos dos bancos em 2% nos próximos 10 meses. A haver nova mexida, o mercado de futuros aponta para mais um corte de 25 pontos-base apenas na reunião de setembro de 2026. Esta estabilidade da taxa de juro do BCE contrasta com a política monetária da Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed), que deverá prosseguir uma trajetória de cortes ainda em dezembro deste ano e ao longo de 2026, até chegar a um intervalo de juros entre 3% e 3,25%, em setembro do próximo ano.


Sobre a situação no crédito à habitação na zona euro, perspetiva-se alguma tranquilidade. "Não me parece que o BCE esteja muito preocupado com o sector imobiliário, já que a solidez do balanço dos bancos é maior e as operações de crédito imobiliário estão colateralizadas e, regra geral, com valores de avaliação confortáveis”, refere ao Expresso Filipe Garcia, presidente da consultora Informação de Mercados Financeiros. Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, corrobora que o BCE não vê riscos nessa área e chama a atenção que "a banca portuguesa está atualmente bem capitalizada”.


No entanto, Ricardo Nunes, professor na Universidade de Surrey, no Reino Unido, lembra que há "muitos créditos a serem renovados em breve”, admitindo que isso possa "implicar uma atualização das taxas desses créditos para níveis mais elevados, um processo que pode gerar um abrandamento do consumo das famílias e um aumento do risco do crédito malparado”.


Christine Lagarde, a presidente do BCE, tranquilizou os governantes que participaram na cimeira do Conselho Europeu da semana passada, sublinhando que a economia europeia "continua resiliente”, com a inflação controlada em torno de 2%, o objetivo da política monetária na zona euro.


No entanto, as previsões macroeconómicas do próprio BCE, apresentadas em setembro, admitem que haja uma descida da inflação média anual para 1,7% no próximo ano, com uma subida para 1,9% no ano seguinte. As próximas previsões só serão divulgadas na última reunião do ano, a 17 e 18 de dezembro. A trajetória projetada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no World Economic Outlook é mais otimista, ao prever uma descida temporária para 1,9% em 2026, logo seguida de uma subida para 2,1% em 2027, a mesma inflação média que se prevê para 2025.


O mais recente inquérito da Bloomberg, divulgado ainda antes da reunião desta semana do BCE (que ocorreu já após o fecho deste artigo), aponta para a estabilidade na taxa de juro do BCE em 2%. Um terço dos inquiridos admite que possa haver mais um corte de juros em 2026 e uma minoria de 17% acha que até pode haver uma ou mais subidas da taxa, com um endurecimento da política monetária. "O mercado monetário não antecipa qualquer redução na taxa de referência do BCE até à reunião de setembro de 2026. Ou melhor, quando muito, há uma probabilidade de 66% de uma única descida de 25 pontos-base no decorrer dos próximos 12 meses”, nota Paulo Monteiro Rosa, do Banco Carregosa. Segundo Filipe Garcia, algumas projeções atribuem uma probabilidade superior a 60% de um corte de 25 pontos-base até 30 de junho do próximo ano, mas o consultor acredita que "os juros deverão manter-se inalterados durante um período prolongado”.


Prudência nas previsões


O portal Econostream Media, que acompanha os movimentos do BCE e as posições dos membros do conselho de governadores, alerta que a mensagem do banco central de que "está em boa posição” (confortável com a taxa de 2%) "não é consistente com a volatilidade do enquadramento externo”. A calma atual pode não ser durável. "As expectativas para horizontes superiores a dois ou três meses são pouco fiáveis”, alerta, por seu lado, Paulo Monteiro Rosa. O economista do Banco Carregosa acrescenta que "se até ao final do ano a evolução das principais variáveis macroeconómicas é mais ou menos previsível, já ao longo de 2026 é difícil prever a trajetória, sobretudo no que toca à inflação”.


Ora, foi essa volatilidade que levou o FMI recentemente e a própria Christine Lagarde na cimeira de outubro do Conselho Europeu a chamarem a atenção para os riscos e vulnerabilidades a que não escapa a zona euro diretamente ou por contágio. No início do mês, Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, disse mesmo que "as valorizações bolsistas são muito altas” e que "os mercados não estão a valorizar de forma correta os riscos geopolíticos”. Na segunda metade de outubro, Philip Lane, economista-chefe do BCE, alertou que os bancos da zona euro podem ficar sob pressão se secar o financiamento em dólares, que é a força vital dos mercados financeiros. Na sua assembleia anual em Washington DC, o FMI discutiu abertamente o risco de rebentar a bolha da inteligência artificial. Uma escalada na guerra comercial continua sempre de pé com a ameaça de Donald Trump em subir para 155% as tarifas (taxas alfandegárias) sobre as importações chinesas, se não houver um entendimento na reunião com o Presidente chinês à margem da cimeira da APEC, na Coreia do Sul.


"Uma correção nos mercados acionistas e uma desvalorização acentuada do dólar seriam fatores deflacionistas capazes de forçar o BCE a baixar os juros muito mais depressa do que atualmente se vislumbra, afastando-se, assim, do cenário de estabilidade e manutenção dos juros no atual nível”, refere Paulo Monteiro Rosa. O economista chama a atenção para o risco de "um arrefecimento nos avultados investimentos em inteligência artificial que têm estimulado e impulsionado consideravelmente a economia norte-americana, a par da política orçamental expansionista da administração norte-americana”. Já Ricardo Nunes chama a atenção para outro problema norte-americano: "O risco associado ao crédito privado refletido nas dificuldades enfrentadas pelo First Brand Group e pelo Tricolor Holding.” Em setembro entraram com pedidos de falência, o que fez regressar o risco da alavancagem financeira elevada e do crédito subprime oculto. O professor português na Universidade de Surrey recordou as palavras do governador do Banco de Inglaterra: "Andrew Bailey comentou recentemente que ainda não é claro se aqueles colapsos são casos isolados ou um possível canário na mina de carvão.”


A presidente do BCE, Christine Lagarde, tem-se mostrado satisfeita com a trajetória da inflação e defende que a economia europeia "continua resiliente”.

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