Juros do BCE: todas as opções estão em aberto para 2026, avisa Christine Lagarde
Christine Lagarde, presidente do Banco Central EuropeuArne Dedert/Picture Alliance Via Getty Images
Mercados de futuros reforçaram a previsão de que os juros não serão mexidos pelo menos durante todo o primeiro semestre de 2026, mas a presidente do Banco Central Europeu, na conferência de imprensa desta quinta-feira, sublinhou que "a opcionalidade estará na mesa” das próximas reuniões
O Banco Central Europeu (BCE) manteve a taxa de referência em 2% na reunião desta quinta-feira em Frankfurt, a última do ano. A decisão foi, uma vez mais, tomada por unanimidade. No segundo semestre de 2025, o BCE não mexeu nos juros, depois de quatro cortes entre janeiro e junho que desceram os juros de 3% para 2%.
A posição entre os 27 membros do conselho é a de considerar que a taxa de referência em 2% está "num bom lugar”, com Christine Lagarde, a presidente do banco central, a sublinhar que o crescimento da economia e o sector bancário da zona euro são "resilientes” e que as expetativas sobre a inflação apontam para que estabilize no objetivo dos 2% a médio prazo.
O lugar certo
"Segundo o BCE, a política monetária encontra-se atualmente num good place, uma expressão entendida como uma postura neutra, ou seja, que nem aperta a economia nem a estimula. E que considera que a taxa de juro neutral do BCE é atualmente de 2%. As novas projeções apresentadas esta quinta-feira reforçam a ideia de que este ‘bom lugar’ é também o ‘lugar certo’, sugerindo que não há motivos para ajustar a política monetária num futuro próximo, seja no sentido de maior restrição, ou de maior flexibilização”, refere ao Expresso Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.
De acordo com as projeções macroeconómicas apresentadas esta quinta-feira, depois de uma descida para 1,9% em 2026 e 1,8% em 2027, a inflação deverá estabilizar-se em 2% em 2028. Em setembro, a projeção dos economistas do BCE referia que o objetivo de 2% seria atingido já em 2027. Ou seja, a ‘anomalia’ de uma inflação abaixo de 2% tolerada ‘simetricamente’ pelo BCE vai, agora, durar dois anos, e não apenas um, como se previa em setembro.
Noutra pista, os economistas do BCE mostraram-se mais otimistas do que em setembro, e subiram as previsões de crescimento económico da zona euro de 1% para 1,2% em 2026 e de 1,3% para 1,4% em 2027. Apesar deste otimismo, estas previsões continuam abaixo das projeções da Comissão Europeia que, em novembro, apontavam para 1,4% no próximo ano e 1,5% no seguinte.
Pausa prolongada segundo os mercados
A reação imediata dos mercados de futuros foi reforçar as probabilidades dos juros não serem mexidos até, pelo menos, setembro do próximo ano, segundo o ECB Watch. Para a próxima reunião, no início de fevereiro, a probabilidade de manter os juros em 2% subiu de 86%, antes da conferência de imprensa, para 98%, depois das respostas de Lagarde aos jornalistas. Em relação à reunião de setembro de 2026, a probabilidade de manter os juros em 2% aumentou de 70% para 78%.
"Olhando para 2026, a probabilidade de cortes nas taxas de juro caiu acentuadamente”, diz ao Expresso Friedrich Heinemann, economista do ZEW, um instituto alemão de investigação económica sediado em Mannheim, conhecido pelo Índice de Sentimento Económico.
O especialista alemão acrescenta as duas razões que prenderão o BCE a uma postura de pausa prolongada: "Em primeiro lugar, a forte procura de crédito por parte dos países da zona euro aumentará a pressão para o aumento das yields da dívida pública a longo prazo. Em segundo lugar, o défice orçamental alemão, em particular, está a ter um efeito inflacionista, porque ainda não foi possível utilizar a nova dívida para obter um aumento significativo do investimento e, por essa via, do potencial de produção. Este mau uso comprovado dos fundos especiais para consumo e transferências é relevante para a política monetária e argumenta contra mais cortes nas taxas de juro principais do BCE”.
Todas as opções em aberto
No entanto, Lagarde referiu que o BCE também recolhe a unanimidade na perspetiva de manter a "opcionalidade em cima da mesa” para as próximas reuniões, o que significa que todas as opções de política monetária em matéria de juros - de descida, de subida ou de não alteração - estarão em discussão reunião a reunião sem uma trajetória pré-estabelecida. "A perspetiva económica melhorada levanta a possibilidade de que o próximo movimento nas taxas possa ser um aumento, embora seja uma perspetiva distante e a incerteza seja elevada. O BCE provavelmente vai manter a sua comunicação relativamente vaga por enquanto, com Christine Lagarde a reforçar essa posição ao sublinhar que o BCE deixou de fornecer qualquer orientação futura. Em vez disso, ela destaca a opcionalidade”, refere ao Expresso Roman Ziruk, analista da fintech britânica EBury. A menção à "opcionalidade” pretende, também, acomodar as várias posições dentro do BCE, com os 27 membros divididos por posturas mais rígidas ou mais expansionistas.
Ultimamente, o foco mediático centrou-se nas declarações da alemã Isabel Schnabel, membro da comissão executiva, que, em entrevista recente à Bloomberg, afirmou estar "confortável" com algumas expetativas de mercado de que o próximo passo seja uma subida dos juros, declarando estar alerta se a política monetária se vai tornar demasiado acomodatícia. Acresce que Schnabel, tida como atual líder dos ‘falcões’ entre os decisores do BCE, depois da partida do anterior governador do Banco da Áustria, Robert Holzmann, se declarou disponível para se candidatar à sucessão de Lagarde em novembro de 2027.
Sucessão de Lagarde vem à baila
Com alguma ironia, Christine Lagarde enfrentou, esta quinta-feira, as perguntas que se tornaram incontornáveis sobre a sua sucessão… apesar da saída da francesa só estar prevista para o final de outubro de 2027, daqui a quase dois anos. Ela referiu que, pessoalmente, não endossa nenhum candidato. "Há muitos. Ainda bem que há tanta gente que quer o meu lugar. De qualquer modo, a decisão será tomada fora do BCE”, referiu a presidente do BCE.
Entre os nomes mais falados para a corrida contam-se o de Isabel Schnabel, já referida, e de Klaas Knot, que foi presidente do Banco Central Neerlandês de 2011 até julho de 2025 e que, por isso, foi membro do Conselho do BCE. O traço comum entre os dois candidatos é serem considerados ‘falcões’ em política monetária de juros.
Em relação a Schnabel pode levantar-se um problema em relação à sua candidatura.
O Estatuto do BCE (Artigo 14) e o Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (Artigo 283.º) impõe mandatos de oito anos não renováveis, mas não proíbem explicitamente candidaturas internas. No entanto, Lagarde recordou situações anteriores em que candidaturas vindas de dentro do Conselho do BCE acabaram por ser barradas.
A líder do BCE referiu dois casos. O de Christian Noyer, o primeiro vice-presidente do BCE (1998-2002), que se quis candidatar a presidente, mas em que a opinião dos juristas considerou inviável uma candidatura interna, devido a potenciais conflitos de interesse na consulta obrigatória do Conselho do BCE durante o processo de nomeação. O outro foi de Benoît Cœuré, membro da Comissão Executiva, de 2012 a 2019, que pretendia suceder a Mario Draghi, mas cuja candidatura também foi considerada inviável por conflito de interesse. Mas a atual presidente, que precisamente sucedeu a Draghi, vinda de fora (do Fundo Monetário Internacional), sugeriu, esta quinta-feira, que se clarificassem as possibilidades legais no Estatuto do BCE para acomodar candidaturas internas.
O mandato de Christine Lagarde como presidente do BCE termina a 31 de outubro de 2027, após um período único de oito anos não renovável iniciado em 1 de novembro de 2019.? A nomeação do sucessor será feita pelo Conselho Europeu por maioria qualificada, com recomendação do Conselho dos Assuntos Económicos e Financeiros da União Europeia.(ECOFIN), consulta ao Parlamento Europeu e ao Conselho do BCE, provavelmente com início em 2026.