Macron sob pressão perante aumento do risco da dívida
A queda de François Bayrou aprofundou a crise política em França, que continua a enfrentar uma situação orçamental complexa e arrisca fechar o ano com uma das mais caras dívidas públicas da zona euro. Os juros da dívida a 10 anos, o atual calcanhar de Aquiles da economia francesa, estavam na quarta-feira nos 3,48%, abaixo do pico de 3,6% registado na passada semana e dos 3,57% pagos no mais recente leilão naquele prazo, realizado a 4 de setembro.
As projeções para o final deste ano, segundo o portal World Government Bonds, colocam os juros em 3,6%, o segundo custo mais elevado na zona euro, só abaixo da Lituânia. Para daqui a 12 meses, o algoritmo aponta para juros de 4%.
As expectativas de que França consiga descer o défice orçamental, que fechou perto de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, até ficar abaixo de 3% em 2029, baixaram devido a esta crise política. A economia francesa está sujeita por Bruxelas a um procedimento por défice excessivo desde julho do ano passado e arrisca um corte de rating pela agência Fitch do duplo A para o nível A.
"A queda do Governo pode já ter sido antecipada e estar, por isso, em grande parte refletida nos preços das ações, reduzindo o impacto imediato nas cotações em Bolsa”, sublinha ao Expresso Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. "Acresce que o otimismo em torno das operações de fusão e aquisição deu um impulso adicional às bolsas, compensando a incerteza política interna em França”, acrescenta o especialista.
Vários analistas consideram que o verdadeiro ‘motor’ das bolsas, mesmo na zona euro, são as expectativas sobre a decisão que a Reserva Federal, o banco central norte-americano, vai tomar a 17 de setembro. No mercado de futuros, a probabilidade de a equipa de Jerome Powell cortar os juros em 25 pontos-base disparou para 92%, o que está a animar os mercados.
Contudo, no entender de Paulo Monteiro Rosa, "o principal motivo pode ser o desfasamento, por um lado, entre a realidade política e económica francesa, e, por outro, as grandes empresas do índice CAC 40, que obtêm a maioria das suas receitas fora de França, estando, por isso, menos vulneráveis ao contexto nacional”. O que contrasta com o mercado da dívida pública, onde a pressão já se faz sentir.
As expectativas de que França consiga descer o défice orçamental baixaram devido a esta crise política. A moção de confiança apresentada por Bayrou foi rejeitada por 63% dos deputados.
Na terça-feira, o Presidente Macron anunciou Sébastien Lecornu como novo chefe do Governo.
"A perda de confiança pelo Governo confirma a ausência de uma maioria parlamentar e também de confiança junto da opinião pública a favor de qualquer tipo de medidas, de esquerda ou de direita, para chegar à meta de consolidação orçamental”, refere-nos Éric Dor, diretor de estudos económicos na IESEG School of Management em França. O académico recorda que "alguns partidos políticos aconselham a que o Governo consiga adiar, pelo menos até 2032, a meta de o défice ficar abaixo de 3%”.
As consequências de um corte de rating para a colocação de dívida seriam importantes: fundos de investimento que só podem comprar dívida com rating duplo A ou superior seriam obrigados a vender títulos franceses, pressionando os mercados. A dívida pública francesa passaria a ser vista como um ativo de menor qualidade, afastando investidores institucionais conservadores (como fundos de pensões e bancos centrais).
Éric Dor diz haver "incoerência” entre as classificações dadas pelas agências de notação financeira a França e a outras economias do euro que registam juros da dívida mais baixos e queda da dívida. É o caso de Portugal, que ainda está na categoria A, mais baixa, quando a França ainda reúne ratings de AA-. O Governo de Bayrou apresentou um plano de consolidação orçamental que pretendia uma redução de oito décimas do PIB no défice para 2026, chegando a 2,8% em 2029. As recomendações dadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em julho apontavam para uma trajetória similar ainda que mais exigente.
Contudo, os economistas do FMI não têm grande fé na capacidade de os governos franceses em concretizar uma consolidação orçamental e projetam que o défice suba para 6% do PIB a partir de 2027. Fruto das promessas feitas no Plano Orçamental e Estrutural de Médio Prazo, "para 2026 estava previsto um plano de consolidação com cortes de despesas e aumentos de impostos”, recorda Paulo Monteiro Rosa.
"No entanto, essa consolidação revela-se muito difícil devido à rigidez da despesa pública francesa. Pensões, saúde e salários da função pública são compromissos difíceis de cortar sem forte contestação social”, acrescenta aquele economista do Banco Carregosa. O próprio objetivo do défice para 2025 deve ser furado: em vez de 5,4% poderá aumentar ligeiramente para 5,5% do PIB. Considerando as projeções atuais do FMI, em 2030, o nível de endividamento de França (128%) será o segundo mais elevado da zona euro, logo a seguir ao de Itália (137%). Como referência, o de Portugal poderá descer para 76% e o de Espanha para 93%.
"A consolidação revela-se muito difícil devido à rigidez da despesa pública francesa”, comenta Paulo Monteiro Rosa Economista sénior do Banco Carregosa.
Macron nomeou Sébastien Lecornu para primeiro-ministro.