Voltar
14 março 2025 01h20

MAGA 2.0: América de Trump grande para os americanos, não para o mundo

MAGA 2.0: América de Trump grande para os americanos, não para o mundo

Donald Trump, que já tinha defendido uma visão nacionalista e protecionista durante o seu primeiro mandato iniciado em 2017, regressou à presidência dos EUA para um segundo mandato em janeiro de 2025, reiterando mais uma vez o seu lema "Make America Great Again” (MAGA). No entanto, desta vez, o compromisso com essa transformação parece ser mais determinado do que nunca. Ao contrário do primeiro mandato, em que procurava equilibrar a sua agenda com o desempenho de Wall Street e o crescimento económico, Trump agora não hesita em aceitar impactos de curto prazo na economia, incluindo a queda das bolsas, para concretizar a sua visão nacionalista e protecionista. A sua administração tem vindo a redesenhar a economia americana e redefinir o papel dos EUA no mundo, ainda que isso implique sacrifícios imediatos para atingir uma mudança estrutural de longo prazo.


O paradoxo do MAGA reside no fato de que "Make America Great Again” não significa uma América grande no mundo, mas sim grande para os americanos ". Historicamente, a grandeza dos EUA tem sido medida pelo seu poder global e pelo sucesso de Wall Street. No entanto, para Trump, parece que ser grande não significa dominar o mundo, mas sim fortalecer a economia interna. Isto explica porque não atuou para segurar a Bolsa quando esta caiu. Para ele, uma desaceleração económica temporária pode ser necessária para reajustar o país, trazer de volta a indústria e aumentar os salários. Enquanto o modelo tradicional via a Wall Street e as grandes multinacionais como pilares da economia, Trump vê os trabalhadores e a produção nacional como a verdadeira força da América. Ou seja, o que Wall Street chama de crise, Trump chama de correção necessária para reconstruir uma América forte para os americanos, e não para o mundo. O seu discurso político coloca a China, Wall Street e as elites globais como responsáveis pelo declínio da classe média americana. Trump promete inverter esta tendência, promovendo a reindustrialização dos EUA, o afastamento de conflitos internacionais e a redução da dependência do comércio externo. Se na sua primeira presidência Trump tentava manter boas relações com o setor financeiro e equilibrar a sua retórica com os interesses dos grandes investidores, agora a sua prioridade parece clara: promover a classe trabalhadora e proteger a economia doméstica. O que antes via como um sinal de sucesso - a valorização da Bolsa - agora já não parece ser a preocupação central. Trump está disposto a aceitar quedas no mercado de ações se isso significar mais empregos industriais e salários mais elevados, mesmo que isso signifique um confronto com Wall Street e com o sistema económico baseado na globalização.


Já desde a primeira mundial, mas mais vincadamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e o sistema monetária de Bretton Wood é disso um reflexo, os EUA assumiram o papel de líder global, moldando a economia e a política mundial através de instituições como a NATO, FMI e ONU. Contudo, essa posição exige massivos investimentos em defesa e intervenções militares constantes. Trump defende que os EUA gastaram demasiado dinheiro para proteger aliados, propondo cortes significativos no financiamento da NATO e na assistência militar a outros países, incluindo a Ucrânia, e a reunião fracassada na sala oval com zelensky é disso testemunha, os EUA virados para dentro, deixando de ser o ‘polícia do mundo’ (quem quiser a sua segurança terá de pagar por ela). Sob esta política, os EUA poderão perder influência global, abrindo espaço para China e Rússia expandirem o seu poder. A Europa terá de reforçar a sua segurança, tornando-se mais independente, mas também mais vulnerável. Além disso, uma economia americana mais fechada pode alterar o estatuto do dólar como moeda dominante.


A lógica de Trump parece ser é simples: Wall Street beneficia sobretudo as elites financeiras e os estrangeiros, enquanto os trabalhadores americanos ganham pouco com a valorização das ações. Grandes empresas multinacionais, que dependem do comércio global, poderão perder relevância se os EUA se tornarem mais protecionistas. Mas, para Trump, essa parece ser uma troca aceitável se, em contrapartida, as fábricas voltarem e a classe trabalhadora prosperar.


Os dados económicos confirmam o forte crescimento dos EUA nas últimas décadas, mas o Índice de Gini, que mede a desigualdade de rendimento, subiu de 34,7 em 1980 para 41,3 atualmente, refletindo a queda da participação dos salários no PIB – de 52% na década de 1970 para 42% hoje. Além disso, os 10% mais ricos detêm 93% das ações, enquanto os 50% mais pobres possuem apenas 1%. Considerando, por exemplo, a capitalização do S&P 500 em 50 biliões de dólares, essa diferença traduz-se no facto de os 33 milhões mais ricos deterem, em média, 1,4 milhões de dólares em ações, enquanto os 166 milhões mais pobres possuem apenas 3 mil dólares cada. Para Trump, esta disparidade prova que o modelo atual penaliza a classe média. O MAGA 2.0 parece inverter essa lógica, apostando no trabalho e na produção, algo evidente na queda acentuada das bolsas, sem que Trump tenha tentado travá-la.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

Partilhe este artigo