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24 abril 2026 08h20

Máximos do S&P 500 ignoram subida das yields e do petróleo

Jornal Económico

As yields soberanas subiram nos EUA e na Alemanha, refletindo o aumento dos receios inflacionistas associado à subida do preço do petróleo.


Esta semana, o S&P 500 continuou a registar máximos históricos consecutivos, mesmo num contexto de valorização superior a 10% no petróleo e aumento dos rendimentos do tesouro. As yields soberanas subiram nos EUA e na Alemanha, refletindo o aumento dos receios inflacionistas associado à subida do preço do petróleo. Este movimento foi mais evidente nas maturidades mais curtas, com as taxas a 2 anos a subirem mais do que as de 10 anos, ou seja, um achatamento das curvas de rendimentos.


Na Alemanha, o rendimento a 2 anos aumentou 15 pontos base e a 10 anos 5 pontos, de 2,41% para 2,56% e de 2,96% para 3,01%, respetivamente. Nos EUA, a subida foi de 10 pontos base a 2 anos e 4 pontos a 10 anos, de 3,70% para 3,80% e de 4,25% para 4,29%, respetivamente. As taxas a 2 anos, mais sensíveis à política monetária, captam melhor esta revisão em alta das expectativas para os juros, à medida que o preço do petróleo sobe. Por outro lado, o facto de as yields de longo prazo terem subido menos sugere que não há um aumento relevante do prémio de risco associado ao crédito nem uma deterioração significativa do crescimento. Assim, o movimento reflete sobretudo um choque inflacionista, e não um agravamento do risco de recessão.


A subida foi mais acentuada na Europa, refletindo a maior dependência de combustíveis fósseis importados, intensificando os receios inflacionistas e reforçando as expectativas de taxas de juro mais elevadas. Este contraste ajuda a explicar parte da resiliência dos mercados acionistas norte-americanos, enquanto evidencia maior fragilidade na Europa. Esta subida das yields justifica a queda do ouro de 1%.


A Bitcoin aproxima-se dos 80 mil dólares, tendo valorizado mais de 30% desde os mínimos do ano, que coincidiram com o início do conflito no Médio Oriente entre os EUA, Israel e o Irão. A BTC tinha perdido cerca de metade do seu valor desde setembro, em linha com o índice acionista norte-americano de software do S&P, que inclui cerca de 120 empresas. Desde o início do conflito, este setor, bastante penalizado nos seis meses anteriores, tem funcionado como um porto de abrigo para os investidores, sustentado pelas expectativas de bons resultados das empresas tecnológicas no primeiro trimestre.


Assim, o principal motor do S&P 500 tem sido a época de resultados, com várias empresas, sobretudo ligadas à tecnologia e à inteligência artificial, a apresentarem lucros acima do esperado, reforçando a confiança de que o crescimento dos lucros em 2026 pode ser bastante sólido, justificando avaliações mais elevadas. Ao mesmo tempo, o tema da IA continua a atrair capital, não só por expectativa, mas por investimento real em infraestruturas e monetização.


Outro fator importante é o comportamento técnico do mercado. Depois da correção ditada pela guerra no Golfo Pérsico, o S&P 500 recuperou muito rapidamente, impulsionando o efeito de "fear of missing out” (FOMO). Todavia, as tensões no Médio Oriente regressaram nos últimos dias e o preço do petróleo está novamente acima dos 100 dólares, sinónimo de volatilidade e receio em relação à inflação e às taxas de juro. Além disso, a subida tem sido bastante liderada por um grupo restrito de grandes empresas tecnológicas, o que pode tornar o mercado mais frágil caso haja alguma desilusão. Em suma, o mercado sobe baseado não só em fundamentos reais, sobretudo lucros e AI, mas também no momentum favorável, num ambiente que continua sensível a riscos geopolíticos e a possíveis correções de curto prazo.


Do lado macroeconómico, os dados mais recentes reforçam a divergência entre os EUA e a Europa. Nos EUA, os PMI surpreenderam positivamente e mantêm-se em território de expansão, com o composto acima dos 50 pontos, os serviços nos 51,3 e a indústria nos 54. Mas na Alemanha os indicadores deterioraram-se e o PMI dos serviços caiu para 46,9, face a 50,9, agora em contração, enquanto a indústria recuou de 52,2 para 51,2, embora ainda em expansão. 


Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa

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