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21 fevereiro 2025 01h20

Mercados e economia nas mãos da IA

Mercados e economia nas mãos da IA

Por quanto tempo a inteligência artificial pode manter Wall Street em máximos históricos? Esta é a pergunta de um milhão de dólares, feita por poucos investidores – sobretudo os mais cautelosos – e raramente por aqueles que entraram no mercado nos últimos 15 anos. Quem entra agora no mercado precisa que este continue a subir. Caso contrário, perde dinheiro. Isso cria um fenómeno psicológico importante. Há investidores que compram porque veem os preços a subirem e não querem ficar de fora. Este comportamento é conhecido como FOMO - Fear of Missing Out. Há também uma dependência crescente da IA e das Big Techs. Muitos acreditam que a inteligência artificial pode manter o mercado em máximos durante muito tempo. Isso explica por que o rácio cotação/ lucros (PER) do S&P 500 é de 24, muito acima da sua média histórica, tornando-se ainda mais difícil de justificar diante da forte subida das taxas de juro de 0% para 5% nos últimos anos. Porém, Wall Street continua a bater recordes. Muitos investidores esperam novos máximos, mas se a economia real não acompanhar, o risco de desilusão aumenta. Se o mercado estagnar e os investidores perceberem que compraram demasiado alto, o pânico pode instalar-se e espoletar uma correção. Será que a IA pode realmente sustentar este ciclo de crescimento ou estamos a assistir à formação de uma nova bolha financeira?


Parte do robusto crescimento de 3% do PIB real dos EUA – um número significativo, dada a base elevada – devese ao efeito riqueza, impulsionado pela valorização do S&P 500. Porém, este efeito não se traduz diretamente em liquidez imediata. A liquidez disponível é o dinheiro e os ativos líquidos usados para pagamentos. Todavia, o património das pessoas é composto por dinheiro e ativos (ações, obrigações, imobiliário, entre outros), mas ninguém compra um carro ou faz compras no supermercado com ações ou obrigações. O efeito riqueza, gerado pela valorização do S&P 500, pode impulsionar a economia e o consumo, mas não reflete a liquidez real disponível para os consumidores. As ações não entram nos agregados financeiros como o M3 ou M4, devido à sua baixa liquidez. Além disso, desde 2006, a Fed deixou de publicar o M3, medindo apenas o M2, que, mesmo assim, inclui quase-moeda, nomeadamente os depósitos a prazo, mas que também não é liquidez imediata – ou não deveria ser. As ações são voláteis, e a sua conversão em dinheiro depende do mercado de capitais, o que significa que a liquidez das ações é muito inferior à de depósitos bancários ou títulos de curto prazo. Por fim, as ações são vistas como investimentos de risco e não como reserva de valor líquida. Embora o efeito da riqueza das ações possa contribuir para impulsionar a economia, influenciando também a inflação, ele não se reflete diretamente em mais liquidez para os consumidores.


O S&P 500 subiu 71% desde o mínimo de 3500 pontos em outubro de 2022 para os atuais 6120 pontos. O seu valor de mercado aumentou 22,2 biliões de dólares, atingindo 53,9 biliões, enquanto a massa monetária M2 permaneceu praticamente inalterada nos 21,5 biliões de dólares. Além do impacto da bolsa na economia, a política orçamental expansionista também tem desempenhado um papel importante. O crescimento económico tem sido igualmente sustentado por défices fiscais consecutivos (em 2024 foi de 6,3%) e também pela abundância de gás natural, que mantém os preços da energia baixos e assegura aos EUA maior competitividade no cenário global. As "Magnificent 7” (Apple, Microsoft, Meta, Alphabet, Nvidia, Tesla e Amazon) foram responsáveis por 45% do acréscimo de 10,2 biliões de dólares no S&P 500 durante esse período. A Nvidia, em particular, registou uma valorização de 1127%, consolidando-se como a vendedora de ‘picaretas’ para os gigantes hyperscalers, os gigantes da IA, desde as Big 7 até à OpenAI. No entanto, uma dúvida persiste. Conseguirão estas empresas obter um retorno suficiente para justificar o elevado investimento em GPUs da Nvidia? Entretanto, a Google e a Amazon desenvolvem os seus próprios chips para reduzir essa dependência.


O verdadeiro ROI dessas empresas pode demorar anos a materializar-se, mas a Nvidia já está a lucrar, beneficiando do ecossistema CUDA. Ao dominar o software essencial para executar IA em larga escala, mantém um monopólio tecnológico, um desafio para a concorrência. Ainda assim, onde há grandes fluxos de capital, há sempre espaço para novos competidores. O recente momento DeepSeek prova isso, podendo pressionar os preços e comprometer os potenciais retornos dos hyperscalers dos EUA e da própria Nvidia. Uma das maiores vendedoras de ‘picaretas’ na bolha das dotcom foi a Cisco, que fornecia routers e switches para infraestruturas de rede. Com o boom das startups tecnológicas, todas as empresas queriam estar online, o que aumentou a procura por infraestruturas robustas. Como resultado, a Cisco valorizou significativamente, tornando-se a empresa mais valiosa do mundo em 2000, com um valor de mercado superior a 500 mil milhões de dólares. No entanto, após o colapso das dotcoms, perdeu mais de 80% do seu valor nos anos seguintes. 


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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