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06 março 2026 01h30

Mercados energétios apostam em conflito curto no Irão

Vida Económica

A escalada de tensões no Médio Oriente tem aumentado a volatilidade nos mercados energéticos internacionais, embora o impacto direto nos preços da eletricidade europeia ainda seja relativamente limitado. Os preços do gás natural na Europa duplicaram e aproximaram-se dos níveis de fevereiro de 2025 e de outubro de 2023, 60 euros por MWh, permanecendo, ainda assim, muito abaixo dos máximos históricos de 2022, quando o TTF holandês atingiu cerca de 350 euros por MWh, no pico da crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia.


Um dos principais riscos é a interrupção duradoura do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial e uma parte relevante do gás natural liquefeito (GNL) exportado pelos países do Golfo Pérsico. O Irão afirmou ter controlo do estreito e avisou que navios que tentem atravessá-lo poderão ser alvo de ataques com mísseis ou drones, enquanto os EUA admitem escoltar navios, sobretudo petroleiros e metaneiros, para garantir o tráfego. Qualquer interrupção prolongada nesta via teria efeitos significativos nos preços do petróleo e do gás, com impacto direto na inflação e, por arrasto, nas taxas de juro. Apesar disso, uma crise energética comparável à de 2022 exigiria uma quebra estrutural e prolongada da oferta global de energia, algo que, para já, não se verifica.


É certo que a Europa continua estruturalmente exposta à volatilidade dos mercados energéticos internacionais, nomeadamente do petróleo e do gás natural, mas desde 2022 a União Europeia reduziu significativamente a dependência do gás russo e reforçou as importações de GNL, cerca de 55% do GNL dos EUA, enquanto o Qatar representa entre 10% e 12% das importações europeias de GNL. Esta diversificação aumentou a resiliência do sistema energético europeu, mas não elimina a exposição a choques geopolíticos.


No caso da eletricidade, o impacto varia de acordo com o cabaz energético de cada país. Portugal está relativamente protegido graças ao elevado peso das energias renováveis na produção de eletricidade, atualmente cerca de 80%.


A energia hídrica e a eólica representam cada uma cerca de 30% da produção, enquanto a solar tem vindo a ganhar peso, aproximando-se dos 18%. Os combustíveis fósseis, sobretudo o gás natural, representam menos de 20% da produção elétrica, enquanto o petróleo é residual e o carvão deixou de ser utilizado em Portugal desde 2021. Ainda assim, como Portugal faz parte do mercado ibérico de eletricidade (MIBEL), que por sua vez está integrado no mercado europeu, não está totalmente imune às flutuações externas. Mesmo com um elevado peso de renováveis, o preço da eletricidade continua por vezes a ser influenciado pelo custo do gás natural.


Deste modo, o funcionamento do mercado elétrico ajuda a explicar por que motivo o impacto do conflito ainda não se reflete nos preços. A eletricidade é vendida segundo um modelo marginalista, no qual o preço final é determinado pela última tecnologia necessária para satisfazer a procura em cada hora. Na Península Ibérica, essa tecnologia é frequentemente o gás natural. Assim, sempre que a produção renovável diminui e as centrais a gás entram em funcionamento, o custo do gás passa a influenciar diretamente o preço da eletricidade. Se os preços do gás continuarem a subir e coincidirem com períodos de menor produção renovável, o efeito tenderá a tornar-se mais visível nas médias diárias e semanais do mercado elétrico.


Entre os vários setores económicos, a indústria é normalmente a mais exposta a oscilações nos preços da energia. Muitas empresas industriais dependem intensamente de gás e eletricidade nos seus processos produtivos e, em muitos casos, compram energia a preços indexados aos mercados grossistas. Isso significa que qualquer aumento de preços se traduz rapidamente em custos mais elevados e em perda de competitividade.


Enquanto a Europa reduziu parte da sua dependência energética externa nos últimos anos, várias economias asiáticas permanecem muito mais vulneráveis às tensões no Médio Oriente. Países como China, Índia, Japão e Coreia do Sul dependem em grande medida das importações de petróleo e gás da região do Golfo Pérsico. Assim, qualquer instabilidade no Estreito de Ormuz afeta significativamente o abastecimento energético e os preços na Ásia.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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