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17 abril 2026 08h05

Mercados ignoram Ormuz: S&P 500 em máximos

Jornal Económico

A intensidade energética das economias tem diminuído. O consumo de energia por unidade de PIB é hoje menor, reduzindo o impacto de choques energéticos na atividade económica. Assim, crises do passado que provocaram fortes recessões têm hoje efeitos mais contidos.


Os recentes máximos históricos do principal índice acionista norte-americano, o S&P 500, sugerem que os investidores estão a desvalorizar o risco associado ao bloqueio do estreito de Ormuz ou, então, antecipam a sua plena reabertura nas próximas semanas. Após uma queda superior a 10% para 6300 pontos nas semanas que se seguiram ao início do conflito, o S&P 500 recuperou desde o final de março, tendo já ultrapassado os máximos anteriores e atingido novos recordes, nos 7040 pontos. Esta recuperação indica que os investidores encaram a atual situação como temporária, comportando-se, na prática, como se o estreito de Ormuz estivesse plenamente operacional. Estará o S&P 500 a antecipar corretamente a evolução dos acontecimentos ou a subestimar os riscos?


A época de resultados das empresas norte-americanas relativa ao primeiro trimestre já começou e as expectativas são positivas, o que poderá ajudar a explicar o desempenho favorável do S&P 500. Na sua maioria, os resultados divulgados até ao momento têm surpreendido pela positiva, com lucros acima do esperado em vários setores, sustentando a valorização das ações. Este contexto reforça a perceção de que a economia global, e em particular a norte-americana, apesar das tensões geopolíticas, se mantém mais resiliente do que seria de esperar, tendo também em conta a desaceleração do mercado de trabalho nos EUA e do crescimento do PIB.


A atual política monetária nos EUA pode também explicar o recente desempenho favorável do S&P 500. O regresso da expansão monetária pela Fed, nomeadamente através de um novo, ainda que informal, quantitative easing , iniciado a 1 de dezembro passado, tem aumentado a liquidez. Essa liquidez adicional anulou as crescentes dificuldades no mercado monetário, sentidas desde o último trimestre de 2024, e evidenciadas sobretudo pela taxa de juro overnight SOFR (Secured Overnight Financing Rate), que se tem mantido agora, mais precisamente desde 1 de dezembro, sempre dentro do intervalo das Fed Funds Rate , sinalizando condições monetárias acomodatícias e maior disponibilidade de capital, alimentando a procura por ativos de risco. Os índices acionistas são nominais. Assim, a maior criação monetária aumenta a liquidez e tende a refletir-se nas valorizações dos ativos financeiros. A este fator junta-se uma política orçamental expansionista nos EUA, com défices fiscais de 6% do PIB, que continuam a sustentar a atividade económica e o rendimento disponível.


No plano energético, existem também razões estruturais que podem ajudar a explicar uma eventual menor sensibilidade dos mercados a choques petrolíferos. A produção global é hoje mais diversificada, deixando de depender exclusivamente de regiões historicamente instáveis, como o Médio Oriente ou a Rússia. Países como o Brasil ou vários produtores africanos têm ganho relevância, enquanto os EUA assumem hoje um papel central, com uma produção de cerca de 20 milhões de barris por dia, considerando não apenas o crude, mas também outros líquidos energéticos, como os condensados e os líquidos derivados do gás natural, não incluindo a produção de gás natural. Os EUA são também atualmente o maior produtor mundial de gás natural, cerca de 30% da produção global, e beneficiam de preços competitivos, com o Henry Hub nos 2,60 dólares por MMBtu, abaixo dos níveis da semana anterior ao início do conflito no Irão, a 28 de fevereiro. Por fim, a intensidade energética das economias tem diminuído. O consumo de energia por unidade de PIB é hoje menor, reduzindo o impacto de choques energéticos na atividade económica. Assim, crises do passado que provocaram fortes recessões têm hoje efeitos mais contidos.


Ainda assim, permanece a dúvida: estará o mercado a antecipar corretamente a realidade, ou estará simplesmente a agir como se o estreito de Ormuz já estivesse reaberto?


Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa


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