Musk e Trump aceleram e travam Tesla
A queda das ações da Tesla nos últimos meses deveu-se, em parte, a uma correção após a forte valorização que se seguiu à eleição de Donald Trump, impulsionada pelo otimismo quanto ao crescimento da economia americana e ao possível envolvimento de Elon Musk na nova administração. Entre a vitória de Trump, a 5 de novembro, e o final de 2024, as ações da Tesla duplicaram de valor, refletindo a confiança dos investidores no novo governo. Contudo, desde o início de 2025, um conjunto de fatores, incluindo políticas comerciais inconsistentes, indicadores económicos mais fracos e uma correção generalizada nos mercados, resultou numa queda de aproximadamente 50% no valor da ação. As cotações das ações da Tesla regressaram assim aos níveis de outubro de 2024, antes da eleição presidencial.
A postura excêntrica de Elon Musk pode, por vezes, afetar a perceção dos investidores em relação às ações da Tesla. No entanto, Musk é um visionário que transformou as suas empresas, elevando-as de simples startups a verdadeiros gigantes da tecnologia, muito além do estatuto de unicórnios. Pode questionar-se se a sua conduta nos últimos meses tem impactado negativamente as ações da Tesla, mas quaisquer danos causados à marca não serão muito provavelmente permanentes, e as vendas poderão eventualmente recuperar. Aliás, a principal pressão sobre a Tesla tem vindo da forte e crescente concorrência das fabricantes chinesas de veículos elétricos ligeiros, sobretudo da BYD. Esta fabricante chinesa de carros elétricos destaca-se face à Tesla pela produção verticalmente integrada, permitindo custos mais baixos e margens competitivas. Além disso, domina o mercado chinês, o maior do mundo para veículos elétricos. Estima-se que, em 2025, pela primeira vez, sejam vendidos na China mais carros elétricos do que a combustão. A BYD também beneficia de forte apoio governamental, o que reforça a sua competitividade. No entanto, enfrenta desafios como menor reconhecimento global e margens de lucro mais reduzidas fora da China. Além disso, tem dificuldade em competir com a imagem premium da Tesla nos mercados ocidentais. Em relação ao desporto automóvel, a BYD ainda não entrou na Fórmula 1, pois esta continua focada exclusivamente em motores a combustão híbridos. No entanto, como líder na eletrificação, a marca pode considerar uma futura entrada em competições como a Fórmula E, onde os carros são totalmente elétricos e mais alinhados com a sua estratégia.
A Tesla destaca-se por ter um net cash positivo de 22,1 mil milhões de dólares, o que a coloca entre as 15 empresas dos EUA com maiores disponibilidades líquidas. Apesar do seu PER (Price-to-Earnings Ratio) ainda elevado, atualmente em 80 (era substancialmente mais alto no final de 2024, atingindo 160). No entanto, a queda de 50% no valor das suas ações desde o início do ano reduziu o PER para metade. Ainda assim, a empresa mantém uma posição financeira relativamente sólida. Embora não gere tanto cash flow como outras tecnológicas das "Magnificent 7”, ainda assim consegue acumular capital e manter uma posição financeira relativamente forte. O seu net cash representa cerca de 10% do seu market cap, reforçando a sua flexibilidade financeira para investimentos futuros e a sua estabilidade num mercado competitivo. Entretanto, vale a pena destacar que o mais relevante para o futuro da empresa não é o net cash, que representa essencialmente o passado, mas sim a capacidade de gerar fluxo de caixa consistentemente. A Tesla ainda enfrenta desafios em termos de rentabilidade e forte concorrência, e a sua valorização depende da sua capacidade de converter inovação em lucros sustentáveis.
Por outro lado, enquanto a Tesla mantém um net cash positivo, duas empresas das "Magnificent 7”, a Microsoft e a Amazon, apresentam net cash negativo, ou seja, têm mais dívida do que dinheiro disponível. No entanto, isto não significa que tenham menor capacidade de gerar dinheiro – bem pelo contrário. Nos últimos anos, optaram por distribuir capital aos acionistas, um contraste que sublinha a importância da estrutura de capital e das estratégias financeiras adotadas por cada empresa dentro do grupo das "Magnificent 7”. A Tesla continua a investir fortemente em inteligência artificial, com projetos como carros autónomos e robôs humanoides, o que mantém o interesse de Wall Street. No entanto, não se pode ignorar que as suas avaliações permanecem elevadas e que a concorrência, especialmente das fabricantes chinesas de veículos elétricos, continua a crescer. Em suma, embora a Tesla enfrente desafios significativos devido às controvérsias que envolvem Elon Musk e à crescente concorrência, a empresa dispõe de recursos e iniciativas que podem contribuir para uma recuperação futura. Ainda assim, os investidores devem estar conscientes de que a geração de cash flow é o fator determinante para a sua valorização sustentável no longo prazo.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa