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20 março 2025 14h15
Fonte: Observador

Musk em duas frentes pode afundar a Tesla?

Musk em duas frentes pode afundar a Tesla?

Elon Musk nunca teve tanto poder em mãos. Além do leque de empresas de que é proprietário, assumiu um papel de destaque no governo norte-americano ao liderar o Departamento de Eficiência Governamental, mais conhecido como DOGE. Mas a vida política afeta os negócios, principalmente a Tesla, que tem perdido (muito) dinheiro.


As ações da fabricante automóvel caíram todas as semanas desde que Musk assumiu o DOGE, em janeiro, depois de Donald Trump tomar posse. Consequentemente, a própria fortuna do empresário encolheu. Sempre que as ações da empresa recuam cerca de 2,43 dólares, o CEO perde mil milhões, segundo as contas feitas pelo site Sherwood . Desde o início do ano, indica o Índice de Multimilionários da Bloomberg , já desvalorizou 130 mil milhões de dólares . Ainda assim, continua a ser o homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em 303 mil milhões de dólares.


Com a desvalorização das ações da Tesla, que está a ser alvo de um boicote que leva donos dos carros elétricos a vendê-los ou a tapar o logótipo com autocolantes, começaram a ser levantadas questões quanto ao foco do empresário na fabricante automóvel. O próprio já admitiu, em entrevista à Fox News, que não tem sido fácil conciliar o trabalho político com a gestão dos negócios , assumindo que a tem mantido "com grande dificuldade” . Para inverter o atual ciclo negativo, Dan Ives, analista da Wedbush Securities, não tem dúvidas de que Musk tem de deixar o governo norte-americano: "Acredito que Musk precisa de se afastar do DOGE e focar-se em liderar a Tesla. [Assim] A Tesla vai conseguir sair deste capítulo negro”, defende ao Observador, salientando que o multimilionário tem de voltar a aparecer em fábricas ou stands da empresa ao invés de estar apenas na Casa Branca ou em Mar-a-Lago junto a Trump.


A opinião começa a ser seguida por vozes ligadas à Tesla. Em declarações à Sky News , Ross Gerber, um dos primeiros investidores da fabricante, já disse que esta precisa de um novo CEO e dirigiu um ultimato a Musk: " Ou Elon volta para a Tesla , a ser o CEO da Tesla, e desiste dos seus outros empregos ou concentra-se no governo e continua a fazer o que está a fazer, mas encontra um CEO adequado para a Tesla.”


As ações da Tesla caem. Porquê?


Quando Donald Trump venceu as presidenciais norte-americanas, a Tesla foi a única empresa de veículos elétricos a ver o preço das ações a subir. Dispararam de 242,84 dólares no início de novembro para 478,86 dólares em meados do mês seguinte. Nessa altura, a fabricante automóvel atingiu um recorde em termos de valor de mercado: 1,5 biliões de dólares. Mas a subida durou pouco.


Tesla cai para valor de há quatro anos e perde 800 mil milhões em três meses


 No início de janeiro, de acordo com a Forbes , depois de a empresa ter revelado que entregou menos carros do que o esperado (495.570 contra os 498 mil previstos pelos analistas) no terceiro trimestre de 2024, as ações registaram uma ligeira descida. Contudo, foi a partir de 21 de janeiro, um dia após a tomada de posse do novo Presidente dos EUA e quando Musk assumiu oficialmente o DOGE, que começaram a cair sem parar. Caem há oito semanas consecutivas.


A 10 de março, as ações afundaram 15%, a maior queda desde setembro de 2020 (21%). Só nessa segunda-feira, Musk perdeu 29 mil milhões de dólares, um valor que não o retirou do número um da lista de mais ricos. Nas redes sociais , o CEO da Tesla pareceu desvalorizar o tombo e assegurou que a empresa ia ficar "bem” a "longo prazo”.


 Atualmente, as ações da Tesla já caíram cerca de 50% (face ao valor máximo que atingiram) e os grandes fundos que apostaram no recuo arrecadaram, escreve o Financial Times , 16,2 mil milhões de dólares. Na base da desvalorização, que leva a que pela primeira vez desde 2019 a SpaceX seja o ativo mais valioso de Musk, estão receios relacionados com a capacidade de o empresário conciliar a gestão da empresa com o governo norte-americano. Mas não só. Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, fala numa "combinação de políticas comerciais inconsistentes, indicadores económicos mais fracos e uma correção generalizada dos mercados” e admite que a "postura excêntrica de Musk pode, por vezes, afetar a perceção dos investidores”.


"Pode questionar-se se a sua conduta [de Musk] nos últimos meses tem impactado negativamente as ações da Tesla, mas quaisquer danos à marca não são permanentes e as vendas poderão eventualmente recuperar”, defende Paulo Monteiro Rosa, argumentando que a "principal pressão” sobre a empresa advém "da forte e crescente concorrência das fabricantes chinesas de veículos elétricos ligeiros”. É o caso da BYD, que segundo a CNBC viu as ações (cotadas em Hong Kong) atingirem um novo máximo em 52 semanas após revelar uma plataforma que permitirá um carregamento da bateria dos elétricos em cinco minutos para 400 quilómetros de autonomia.


Numa nota enviada ao Observador, analistas da norte-americana Baird mencionam outros "riscos” que a fabricante automóvel enfrenta, nomeadamente a "dependência de fornecedores únicos para peças automóveis essenciais” ou "um ambiente económico difícil que reduz a procura”, mas defendem que "o envolvimento de Musk com o governo Trump acrescenta incerteza”. A opinião é seguida por Dan Ives, que diz que Wall Street está "preocupada” que "os danos causados por Musk à marca e a sua agenda política sejam um desastre para o futuro da Tesla”. "Musk é sinónimo de Tesla e Tesla é sinónimo de Musk”, afirma, lembrando que as vendas da empresa estão "sob pressão em todo o mundo”.


 Em 2024, a Tesla reportou a primeira queda nas vendas anuais da sua história, segundo o The New York Times . Este ano, Musk disse aos investidores para esperarem uma recuperação, porém nada parece apontar nesse sentido, uma vez que em vários países, incluindo europeus, as vendas estão a recuar. Na Alemanha, por exemplo, que o JP Morgan descreve como o maior mercado europeu de veículos elétricos e onde Musk manifestou apoio à extrema-direita (à AfD), as vendas caíram 59% em janeiro e 76% em fevereiro face ao ano anterior.


Numa análise partilhada com o Observador, os analistas do JP Morgan afirmam que "embora os consumidores nos mercados estrangeiros possam estar menos concentrados em questões políticas internas dos EUA relacionadas com o DOGE, as vendas da Tesla na Europa estão sob uma pressão muito maior do que em casa, como consequência das declarações de Musk sobre a guerra na Ucrânia , a participação dos EUA na NATO e [o apoio] aos partidos políticos de extrema-direita”.


Musk ameaça desligar Starlink e fazer "colapsar” tropas ucranianas. Mas depois volta atrás


 Na mesma nota, os analistas reviram as previsões de entregas mundiais de carros da Tesla para o primeiro trimestre deste ano para o nível mais baixo desde o terceiro trimestre de 2022: de cerca de 440 mil carros para aproximadamente 355 mil, o que representa também uma redução de 8% face ao período homólogo e de 28% face ao último trimestre de 2024. "Temos dificuldade em pensar em algo semelhante na história da indústria automóvel, em que uma marca tenha perdido tanto valor tão rapidamente” , diz o JP Morgan sobre a queda das ações da Tesla.


Por sua vez, Dan Ives reitera que o homem e a marca (Musk e Tesla) estão tão intrinsecamente ligados que a fabricante automóvel tornou-se, "infelizmente”, "num símbolo político”. Alegando que muitos dos principais clientes da Tesla tendem a ser democratas, o analista diz ao Observador que a "última coisa” que deveria acontecer é a empresa estar "associada à MAGA [o slogan Make America Great Again ] de Donald Trump”.


Mas pode ser tarde demais porque Trump tem apoiado publicamente a Tesla e o seu CEO — numa altura em que protestos têm surgido em cidades norte-americanas e europeias, incluindo Portugal — tendo até prometido comprar um carro "novinho em folha” à fabricante automóvel como "prova de confiança e apoio a Elon Musk, um americano verdadeiramente fantástico”. Além disso, o Presidente norte-americano criticou "os lunáticos da esquerda radical” por tentarem "boicotar de forma ilegal e em conluio a Tesla, uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo e o ‘bebé’ de Elon, de modo a atacar o Elon e tudo o que ele representa”.


Trump vai comprar "um Tesla novinho em folha” para mostrar apoio a Elon Musk com as ações da Tesla em queda


 A 11 de março, no mesmo dia em que Trump prometeu comprar um Tesla, a empresa enviou uma carta ao Escritório do Representante dos EUA para o Comércio (USTR, na sigla original) para alertar que as políticas comerciais da administração norte-americana, nomeadamente as tarifas impostas a Canadá, México e China, podem prejudicar empresas de veículos elétricos sediadas nos EUA.


"As ações comerciais não devem (e não precisam) de entrar em conflito com os objetivos de aumentar a produção nacional”, defendeu a Tesla numa carta que não estava assinada e que é citada pela CBS News . A empresa não tem respondido a questões sobre se Musk esteve envolvido na redação e posterior envio do documento. Trump tem vindo a dizer que as tarifas vão fomentar a produção nacional e criar empregos para os norte-americanos, mas a Tesla argumentou que existem limitações quanto ao que pode ser comprado nos EUA: "Certas peças e componentes são difíceis ou impossíveis de obter nos Estados Unidos” . Será o caso das baterias de iões de lítio.


Os dias difíceis da Tesla estendem-se às outras empresas de Musk?


Os utilizadores do X, que Musk comprou em 2022, tiveram na segunda-feira da semana passada dificuldades em aceder à rede social. Com altos e baixos, a aplicação ora estava disponível ora deixava de funcionar. O homem mais rico do mundo disse que as falhas eram consequência de um ciberataque "massivo”, "feito com muitos recursos”, que alegou ter sido lançado a partir da Ucrânia. Não foram apresentados mais detalhes e a plataforma não respondeu a pedidos de esclarecimento enviados pela comunicação social, um silêncio que tem sido constante ao longo dos últimos quase três anos.


Apesar da falha operacional que registou este mês, a aplicação pode ter motivos para sorrir. Isto porque voltou a estar avaliada em 44 mil milhões de dólares , preço pelo qual foi comprada, avançaram duas fontes ao Financial Times . Trata-se de uma recuperação face ao valor que tinha sido revelado há praticamente meio ano, em setembro, quando a gestora de ativos Fidelity avaliou o X em ‘apenas’ 9,4 mil milhões de dólares.


Ao mesmo jornal, outras duas fontes revelaram que existem indícios que apontam para que o plano de corte de despesas implementado por Musk, uma das primeiras medidas que impôs quando comprou a rede social e que incluiu o despedimento de praticamente metade dos trabalhadores, esteja a funcionar e que a saúde financeira da empresa também esteja a melhorar. Não foram, ainda assim, avançados números. E o X recusou-se a comentar a notícia.


Como Musk está a replicar a tática que usou no Twitter no governo norte-americano


 Quanto às restantes empresas de Elon Musk que não estão cotadas, a revista Fortune , citando dados da plataforma Caplight, avança que o valor acumulado de SpaceX, Neuralink, The Boring Company e xAI subiu 45% nos mercados privados desde as eleições presidenciais norte-americanas, que se realizaram em novembro. A maior subida foi registada pela xAI, startup de inteligência artificial, que viu o preço das ações aumentar 110%. As da SpaceX também subiram mais de 50% desde a vitória de Trump. Em sentido contrário está a The Boring Company, startup especializada na construção de túneis, que viu o valor das ações descer 7,8%.


O negócio com um milionário mexicano que caiu


Elon Musk sempre recorreu ao Twitter, agora X, para expressar opiniões que por vezes podem gerar controvérsia. No início deste ano, a partilha de um emoji (o que tem uma lente num dos olhos) junto a uma publicação que alegava que o empresário mexicano Carlos Slim tinha ligações ao tráfico de droga custou um negócio à SpaceX. De acordo com a imprensa mexicana , estava em cima da mesa uma parceria que passava pela revenda do serviço de internet via satélite Starlink (da SpaceX) através de operadoras de telecomunicações que fazem parte da América Móvil (empresa de Slim).


A decisão de não avançar com a parceria terá sido tomada por Carlos Slim cinco minutos depois de ter visto que Musk partilhou um tweet que respondia a uma notícia do The New York Times intitulada "Como rotular cartéis de ‘terroristas’ pode prejudicar a economia dos EUA”. E que alegava que esse jornal norte-americano "sabe a quem os seus proprietários têm ligações e está a promover uma narrativa que apoia os interesses comerciais de Carlos Slim e dos seus sócios”.


A ligação entre o empresário mexicano e o The New York Times é feita, segundo o Mexico Daily Post , porque Slim adquiriu uma participação no jornal em 2008/2009. Anos mais tarde, em 2015, exerceu opções de compra que o tornaram no maior acionista individual do jornal, mas em 2017 vendeu ações e reduziu a participação.


 Após cancelar o negócio com Musk, Carlos Slim anunciou ter planos para investir 22 mil milhões de dólares ao longo dos próximos três anos para fortalecer a sua infraestrutura de telecomunicações e reduzir a dependência de parceiros estrangeiros, como seria o caso da SpaceX. A decisão do empresário, avança a imprensa mexicana, teve impacto na empresa do homem mais rico do mundo, que terá perdido cerca de 7 mil milhões de dólares (o valor previsto em receitas se a parceria se concretizasse).


A Presidente do México, Claudia Sheinbaum, reagiu ao polémico tweet e disse que não existem provas que liguem Slim ao crime organizado: "É falso. Não há nenhuma investigação contra o empresário Carlos Slim e as suas empresas. O México é um grande país e não vamos permitir que o rotulem com o tema do narcotráfico.”


Carlos Slim não fez qualquer comentário público sobre a publicação partilhada por Musk, sendo que esta não foi a primeira vez que foi alvo de rumores nos EUA. Durante a campanha eleitoral de 2016, Donald Trump acusou o empresário de ter influência sobre a linha editorial do The New York Times para publicar mentiras sobre si e impulsionar a campanha de Hillary Clinton, sua adversária na altura. As alegações foram negadas pelo visado e os dois acabaram, segundo o The Guardian , por resolver as divergências num jantar em Mar-a-Lago. 

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