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30 outubro 2025 00h10
Fonte: Observador

Neste Natal, oferecer ouro poderá custar mais de 4.000 dólares por onça?

Observador

O ouro ganha 43% desde o início deste ano e caminha para o melhor ano desde 1979, quando valorizou 126%. O que estará por trás desse forte desempenho?


A importância do ouro é milenar e muitas vezes dita a evolução da própria História. A Guerra israelo-árabe do Yom Kippur, iniciada em 6 de outubro de 1973, teve por detrás o Egito e a Síria, liderando a Liga Árabe contra Israel. Para Anwar al-Sadat, que sucedera a Nasser em 1970 e cuja liderança era considerada frágil, este conflito representava também a afirmação política de que necessitava para consolidar o poder. Entretanto, o sistema de Bretton Woods já havia colapsado em 1971, quando Nixon pôs fim unilateralmente à convertibilidade do dólar em ouro, devido à erosão das reservas de ouro norte-americanas ditadas pelos sucessivos défices comerciais dos EUA, que fragilizavam o dólar. O metal, que estava fixado em 35 dólares por onça, valorizou acentuadamente, triplicando de preço para cerca de 90 dólares, o que significava que os países árabes passavam a receber, em termos reais, quase três vezes menos pelo seu petróleo. Não surpreende, por isso, que nos meses seguintes à Guerra do Yom Kippur o preço do barril tivesse quadruplicado.


Quando portugueses e espanhóis deram a "conhecer novos mundos ao mundo”, o que encontraram nas Américas foi igualmente um reconhecimento do ouro como reserva de valor, símbolo religioso e de prestígio, ainda que não fosse universalmente o principal meio de troca — entre os astecas, por exemplo, o cacau tinha papel monetário, enquanto entre os incas o ouro era sobretudo ritual. A presença humana no continente americano remontava a muito antes, pois os ancestrais asiáticos terão atravessado o estreito de Bering durante a última glaciação, há mais de 15 mil anos. Já o início da primeira civilização organizada conhecida remonta a cerca de seis mil anos na Mesopotâmia, região que corresponde em grande parte ao atual Iraque e a zonas da Síria, e desde então o ouro foi constantemente reconhecido como uma das principais reservas de valor. Também nas Américas não era por acaso que o ouro assumia esse papel: a sua importância resulta das próprias características do metal, que o tornam único e transversal a sociedades distintas, em épocas e contextos diversos, permanecendo intemporal.


O ouro ganha 43% desde o início deste ano e caminha para o melhor ano desde 1979, quando valorizou 126%. O que estará por trás desse forte desempenho? Para além das crescentes tensões geopolíticas e de uma inflação ainda relativamente elevada face às últimas décadas, é certo que o ouro beneficia da descida das taxas de juro, e a Reserva Federal dos EUA reduziu-as a semana passada, num movimento que poderá marcar o início de um novo ciclo de cortes das taxas de juro — o que diminui o custo de oportunidade de deter ouro, dado que o metal amarelo não gerar qualquer rendimento, apenas ganhos de capital —, mas, no entanto, o novo paradigma que emergiu após a invasão da Ucrânia é hoje o principal motor da sua valorização. O congelamento das reservas russas em dólares e euros fez soar o alarme em muitas economias do Sul Global, que desde então procuram diversificar os seus ativos e reduzir a dependência das divisas ocidentais.


A China está no centro desse movimento: já é o maior produtor mundial, com quase 400 toneladas anuais — um valor semelhante às atuais reservas do Banco de Portugal — e também o maior importador global de ouro. No entanto, mantém reservas oficiais relativamente modestas face ao seu PIB, cerca de 2.300 toneladas, bastante aquém de outras grandes economias mundiais como os EUA e a Alemanha, que detêm, respetivamente, 8.133 e 3.350 toneladas. Nestes países, o ouro representa a maioria das reservas cambiais — cerca de 65% no caso norte-americano e perto de 70% no alemão —, ao contrário da China, onde o peso do metal amarelo não chega a 8%.


Acresce que os excedentes comerciais externos chineses permitiram ao país acumular aproximadamente 3,5 biliões de dólares em reservas, das quais a grande maioria continua aplicada em ativos denominados em dólares, enquanto o ouro não ultrapassa os 300 mil milhões de dólares desse montante. Assim, o desfasamento na posse de ouro mostra que Pequim ainda dispõe de ampla margem para reforçar as suas aquisições. Além disso, acumular ouro para a China significa não apenas diversificar, mas sobretudo proteger-se do risco de sanções e da erosão gradual do valor do dólar — moeda que enfrenta o peso de uma dívida pública superior a 120% do PIB nominal e de défices orçamentais acima de 6%. Em boa verdade, não é o ouro que sobe: são as moedas fiduciárias que perdem valor à medida que os desequilíbrios fiscais se agravam no Ocidente.


Em suma, e de acordo com os argumentos apresentados, a tendência do ouro continua a ser de alta, pelo que não será de estranhar que, neste Natal, os portugueses tenham de desembolsar mais de 4.000 dólares por onça caso optem por oferecer fios de ouro, libras ou barras como presente.

 

Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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