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09 julho 2025 20h50
Fonte: Observador

Nvidia inaugura clube dos 4 biliões. Microsoft a caminho

Observador

O clube dos 4 biliões está inaugurado. A IA é parte de uma história que leva a Nvidia (e em breve a Microsoft) a valer o PIB do Japão


Doze. É esta a quantidade de zeros necessária para alcançar a classe do bilião — o conhecido trillion da numeração anglosaxónica. Até agosto de 2018, nenhuma empresa norte-americana tinha conseguido elevar o seu valor em bolsa até uma escala desta ordem. Foi a Apple, então com 42 anos, a primeira a chegar, tornando-se, então, a cotada mais valiosa.


A dona do iPhone fundou o clube das trillion dollar babies e aí ficou sozinha durante algumas semanas. Ganhou a companhia da Amazon em setembro de 2018. As restantes big tech não se deram por vencidas e os últimos anos têm sido marcados pelo quebrar de mais marcas: do primeiro bilião ao segundo e, desde 2023, até ao patamar dos três biliões de capitalização bolsista.


Os investidores começaram a sonhar com um novo nível, a dos quatro biliões  — 4.000.000.000.000 —, no final de 2024,  quando a Apple atingiu um máximo de 3,94 biliões de dólares de valor em bolsa. No entanto, o novo ano trouxe uma desvalorização das ações de quase 14% (até agora). Além de críticas de como a tecnológica está a ficar para trás na corrida à inteligência artificial (IA), também os atritos com Donald Trump, que até já ameaçou impor tarifas nos iPhone produzidos fora dos EUA, explicam este cenário.


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 Num ápice, as atenções viraram-se para outros protagonistas: a fabricante de chips Nvidia e a tecnológica Microsoft. A criação do clube dos quatro biliões deixou de ser uma questão de "se” e passou a ser um tema de "quando”.


 Esse dia chegou. E pela empresa mais nova. Nesta quarta-feira, 9 de julho, coube à Nvidia o feito de chegar (ainda que de forma passageira) aos 4 biliões de dólares de avaliação em bolsa. A cinquentenária Microsoft está perto, mas acabou ultrapassada.


Nas últimas semanas, as ações das duas companhias foram subindo e as respetivas capitalizações aproximaram-se dos quatro biliões. A 3 de julho, antes do encerramento de Wall Street para o feriado do Dia da Independência dos EUA, a Nvidia chegou a tocar nos 3,92 biliões de dólares, mas acabou por terminar a sessão nos 3,89 biliões, abaixo da marca recordista da Apple (3,915 biliões). Nesse dia passou esse recorde da Apple e não foram precisos muitos mais dias até colocar um 4 (em vez de um 3) antes dos 12 zeros.


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 Dan Ives, analista sénior da Wedbush, nunca escondeu o seu otimismo pelo panorama tecnológico — principalmente em relação à inteligência artificial (IA) e à Nvidia. Em muitas das notas que assina apelida Jensen Huang, o CEO da Nvidia, de "godfather of AI” , o padrinho da IA. Em dezembro, apontava já como a Apple, a Microsoft e a Nvidia iriam chegar à marca dos quatro biliões (isso mesmo um milhão de milhões) em bolsa ao longo de 2025. Mais recentemente, no fim de junho, retirou a Apple desta equação, mas realçava a forma como "Nvidia e a Microsoft estavam a aproximar-se de uma conquista monumental”. "Acreditamos que tanto a Nvidia como a Microsoft vão atingir os quatro biliões de capitalização este verão e que, nos próximos 18 meses, o foco estará no clube dos cinco biliões de dólares.”


Em declarações ao Observador, Ives reforça a ideia e afirma que "neste momento não há mais” empresas na "corrida ao quarto bilião”. "Estão as duas a liderar a matilha.” De um lado, a Microsoft de 50 anos , que precisou de décadas em bolsa para chegar aos três biliões de dólares. Do outro, a Nvidia, criada em 1993, um caso "histórico e nunca antes visto” , admite Dan Ives. Entrou em bolsa em 1999 e, no verão de 2023, foi a primeira fabricante de chips a alcançar a fasquia de um bilião de market cap [capitalização bolsista]. Em menos de dois anos, quadruplica essa marca.


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 Nesta quarta-feira, a Nvidia chegou aos 4 biliões, quando cada ação chegou a valer mais de 164 dólares logo no início da sessão em Wall Street. Caiu, depois, ligeiramente, mas ficou a rondar a marca, a valer mais de 3,9 biliões. Basta que a cotação bata nos 163,7 dólares para que os 4 biliões voltem a ser uma realidade. Já a Microsoft precisa que os títulos escalem para lá dos 536 dólares. A meio da sessão desta quarta-feira cada ação vale 501,38 dólares, o que coloca a capitalização bolsista nos 3,6 biliões, faltando assim perto de 400 mil milhões para lá chegar.


Com que comparam quatro biliões de dólares?


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Há muitas empresas a participar nesta corrida pelos avanços da IA. Além da Nvidia e Microsoft, praticamente todas as big tech — um grupo que contém também a Apple, Amazon, Alphabet (dona da Google) e Meta — querem uma fatia do bolo. Mas os valores em bolsa destas quatro cotadas estão ainda longe dos quatro biliões. Só a Apple se mantém acima dos três biliões em bolsa (3,14 biliões de dólares). Amazon e Alphabet estão acima dos dois biliões, para o qual a Meta se encaminha, mas ainda à distância de 200 mil milhões.


O que é que a Nvidia e a Microsoft têm que justifique esta escalada, destronando a Apple, até há tempos considerada a favorita? Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, explica ao Observador que "o posicionamento como protagonistas da revolução da IA é o principal racional” neste alcançar dos quatro biliões. Beneficiam, considera, do "impacto transformador da inteligência artificial na economia tecnológica global” e do papel que assumiram "neste novo ciclo tecnológico”.


Ao Observador, Dan Ives, analista da Wedbush, incide na ideia da IA "impulsionar o mundo tecnológico” , com as duas empresas no pelotão da frente. A explicação complementa uma nota do analista, de 3 de julho, quando a Nvidia chegou durante um breve período aos 3,92 biliões de capitalização . "A nossa visão bullish [de otimismo] é que os investidores ainda estão a subestimar a onda de crescimento que está no horizonte”, escreveu. A nota recorre a previsões de aceleração dos investimentos com a adoção de IA. A Wedbush apontou para "gastos de dois biliões ao longo dos próximos três anos, feitos pelas empresas e governos à volta da tecnologia de IA e dos seus casos de uso” . "Ainda só tocámos na superfície desta quarta Revolução Industrial”, insistiu Ives na nota.


A Wedbush não é a única casa de investimentos a apostar as fichas na corrida aos quatro biliões. A Loop Capital vai já mais longe. De olho na Nvidia, elevou recentemente o preço-alvo das ações da empresa de 175 para 250 dólares, apontando com isso para um potencial market cap de seis biliões de dólares.


"Estamos a entrar na ‘ golden wave’ [onda de ouro] da adoção de IA generativa e a Nvidia está no início de outra etapa material de procura acima do esperado”, escreveu o analista Ananda Baruah, citada pela Bloomberg . Nesta perspetiva, Baruah deu destaque ao facto de a Nvidia "continuar a ser essencialmente um monopólio para tecnologia crítica, com poder de margem e de preço”. E, neste caso, também defendeu a continuidade do crescimento do valor em bolsa da empresa liderada por Jensen Huang.


Mas há mais alguns fatores a justificar a subida do valor de mercado. "Além da IA, os investidores valorizam também a escala, a diversificação e o efeito de rede destas empresas, um negócio atualmente quase monopolista, mas que terá eventualmente concorrência no futuro”, explica Paulo Rosa, do Banco Carregosa. No caso da Nvidia, os investidores focam-se na "expectativa de longo prazo de que se torne a infraestrutura crítica para a era digital, com chips não só para IA, mas também para automóveis autónomos, edge computing e metaverso”.


 Na Microsoft, o foco "vai para a capacidade de transformar inovação em receita recorrente”, explica o economista. Por exemplo, a plataforma "Azure continua a ganhar quota no mercado cloud , o Office 365 mantém uma base de clientes altamente fidelizada e a divisão de gaming reforçou-se com a aquisição da Activision”. "A solidez financeira, margens elevadas e cash flow consistente também transmitem confiança ao mercado, criando uma narrativa de crescimento sustentável que vai além da tendência da IA”, defende.


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Esta faceta de "protagonistas da IA” da Nvidia e da Microsoft é feita em pontos diferentes da cadeia de valor da IA, um mercado que até 2033 poderá valer 4,8 biliões de dólares , segundo um relatório da unidade de comércio e desenvolvimento das Nações Unidas. A Nvidia numa perspetiva de fornecer os "chips” que permitem desenvolver a IA, uma lógica fundacional. Uma estimativa da Wedbush aponta que, por cada dólar que é gasto em chips da empresa, existe "um efeito multiplicador no ecossistema tecnológico de entre 8 e 10 dólares”.


 Paulo Rosa, do Banco Carregosa, recorda que a Nvidia "passou de fornecedora de GPU [unidades de processamento gráfico] para gaming para líder incontestada na infraestrutura de IA, com os seus processadores de última geração, como o H100 e Blackwell, a tornarem-se indispensáveis para treinar e executar modelos de linguagem de grande escala”. Fala numa "procura sem precedentes por hardware de IA” — é estimado que a Nvidia tenha uma quota de mercado entre 70 e 95%. Procura que se refletiu "nos últimos resultados trimestrais, com as receitas a crescerem 69% face ao ano anterior e margens brutas acima de 70%, o que impulsionou o seu valor de mercado”.


Já a Microsoft está noutro ponto, surgindo "depois” dos "chips”, nas infraestruturas cloud , no software e nos serviços que tirem partido da IA — e está especialmente interessada em vendê-los às empresas. Além disso, Satya Nadella, o CEO da Microsoft, já declarou que a empresa está a apostar tudo na IA, como contou à Wired em 2023.


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 A dona do Windows "beneficia da sua aposta estratégica na OpenAI e na integração de IA generativa em produtos core como o Azure e o Office 365”, refere Paulo Rosa. O economista do Banco Carregosa recorre aos últimos resultados da Microsoft para salientar o "crescimento sólido de 13% nas receitas para 70,1 mil milhões de dólares e uma aceleração de 33% no Azure, com a IA a contribuir diretamente para este desempenho”.


Em 2019, a Microsoft apostou numa startup então praticamente desconhecida chamada OpenAI. Nadella investiu mil milhões de dólares na empresa que, três anos mais tarde, abanou o setor tecnológico com o ChatGPT. A disponibilização deste serviço de IA generativa, capaz de criar texto a partir de um pedido, teve uma adoção histórica. Em dois meses, conseguiu chegar aos 100 milhões de utilizadores ativos mensais. "Há 20 anos a seguir o setor da internet, não nos recordamos de um disparo mais rápido numa app de internet para consumidores” , escreveram em janeiro de 2023 os analistas da UBS, citados pela Reuters.


 O ChatGPT foi uma das bases para os serviços da OpenAI, que passou a ser um ponto fulcral da estratégia de IA da Microsoft. A parceria foi renovada há uns anos, com a Microsoft a canalizar mais 13 mil milhões de dólares para a OpenAI. Mas o casamento já terá tido melhores dias, com a imprensa especializada a apontar "tensões” enquanto as duas partes reveem os termos da parceria, escreveu o Wall Street Journal.


 Tarifas e concorrência podem ser nuvens no horizonte


"Isto é só o início das movimentações para os cinco biliões [de capitalização] ao longo dos próximos anos”, diz Dan Ives ao Observador. Mas, por cautela, aponta as nuvens no horizonte.


As taxas alfandegárias são apontadas como "o maior risco” a poder afetar a Nvidia, assim como os desenvolvimentos na China. "A China é um mercado chave com um papel fundamental para o sucesso da Nvidia”, explica o analista. Em tempos de tensão entre os EUA e a China, a administração Trump já impôs restrições às exportações da Nvidia para a China, nomeadamente aos "chips” H20. Esta é uma versão adaptada ao mercado chinês para estar em conformidade com as regras comerciais dos EUA. Só que, em abril, a empresa comunicou ao mercado que lhe tinha sido exigido pelos EUA uma licença especial para as exportações destes equipamentos. A ideia da administração Trump passará por impedir que os produtos da Nvidia sejam usados por empresas chinesas para avançarem na IA e concorrerem com as empresas norte-americanas.


A 16 de abril, quando a Nvidia divulgou essa informação ao mercado, as ações caíram quase 7% , depois de a empresa revelar que a alteração surpresa feita pela administração Trump representaria um golpe de 5,5 mil milhões de dólares para a empresa, que registou esse montante em imparidades (perda com um ativo). No mês seguinte, o CEO da Nvidia afirmou, durante uma entrevista na conferência Computex, que a decisão da Casa Branca fez a empresa perder 15 mil milhões de dólares em vendas. Huang falou numa restrição "enormemente onerosa” e "profundamente dolorosa”, citou o site Quartz. " Não só registei uma perda de 5,5 mil milhões” com as restrições, "como estou a deixar fugir 15 mil milhões em vendas que equivale provavelmente a três mil milhões de dólares de impostos”.


 Paulo Rosa, do Banco Carregosa, realça que, para estas empresas, as tarifas "podem travar a expansão internacional e permitir o surgimento de concorrentes. Lembra o caso DeepSeek, "que surgiu no início do ano como uma possível resposta chinesa”. Quando a chinesa DeepSeek revelou um modelo de IA, supostamente desenvolvido com menos recursos financeiros, gerou-se um abanão no mercado. A surpresa vinda da China arrancou, em apenas um dia, nesse momento, 600 mil milhões de dólares em capitalização bolsista à Nvidia. Valor entretanto recuperado.


DeepSeek, a startup chinesa que "abana” a indústria da inteligência artificial ao prometer fazer mais com menos


 Já para a Microsoft, Paulo Rosa fala num "efeito mais indireto, mas barreiras digitais podem dificultar o crescimento da [divisão] Azure em mercados estratégicos”.


"A manutenção de um valor [de empresa] tão elevado dependerá da capacidade de sustentar o crescimento atual” . Por agora, considera que a "saturação do mercado da IA” não figura na lista de riscos e ameaças, já que o mercado "continua a ter um enorme potencial de crescimento e está ainda numa fase inicial”.


Paulo Rosa reconhece que, com valores desta ordem de capitalização bolsista, "é inevitável que a comparação com a bolha das dotcom surja, mas há algumas diferenças estruturais”, assegura. Ambas as empresas "têm modelos de negócio sólidos, receitas robustas, margens elevadas, ao contrário de muitas empresas da era dotcom que dependiam apenas de expectativas”. Ainda assim, conclui, "múltiplos relativamente elevados tornam estas empresas vulneráveis a correções se o crescimento projetado não se concretizar, o que poderá dar força a essa narrativa de bolha”.

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