Nvidia no topo do mundo, mas não em Portugal
Nvidia no topo do mundo, mas não em Portugal
Fundos Gestores nacionais não têm a maior empresa do mundo entre as preferidas. Risco de bolha à boleia da IA paira no mercado
Num curto espaço de tempo, a Nvidia passou de empresa desconhecida pela maioria dos investidores para a mais valiosa do mundo. Ainda assim, e apesar de uma valorização de mais de 1000% nos últimos três anos, a fabricante de chips continua a passar ao lado dos maiores fundos nacionais com exposição a ações estrangeiras. Segundo os dados da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), não está no top 10 das empresas mais procuradas.
A reserva na hora de explicar as opções de gestão dos fundos é grande. A Caixa Geral de Depósitos, que, através da Caixa Gestão de Ativos, é a maior sociedade gestora de fundos em Portugal, não respondeu às questões enviadas pelo Expresso. O fundo nacional de ações com maior valor sob gestão é o Caixa Ações Líderes Globais, com mais de €2,1 mil milhões. Até ao primeiro semestre deste ano, segundo o reporte à CMVM, a Nvidia não constava sequer na sua composição. Os dois fundos que se seguem na tabela, entre os que estão expostos a ações de fora da União Europeia, são do Novo Banco e do BPI. Aqui, a Nvidia surge com um peso de 2,1% e 2,4% na carteira total, respetivamente.
A empresa está presente noutros fundos, apesar de não ter muita expressão entre os maiores. No investimento no retalho a Nvidia é a mais procurada pelos portugueses em algumas corretoras low cost. Na XTB, por exemplo, lidera a lista de forma isolada com mais de 47 mil transações, o dobro da segunda (BCP), segundo os dados partilhados pela empresa. Na Trade Republic é também a preferida.
Sobrevalorização no mercado? Mesmo que a Nvidia passe ao lado das preferências dos gestores de fundos, a grande valorização do sector tecnológico nos últimos anos [especialmente à boleia da inteligência artificial (IA)] faz com que o montante investido em algumas das ‘Sete Magníficas’ tenha mais do que duplicado nos três maiores fundos acima mencionados. Entre os agentes do mercado as conversas sobre um sobreaquecimento destas empresas têm levantado dúvidas quanto à sustentabilidade dos ganhos.
"Há sinais de sobrevalorização nos mercados acionistas, sobretudo nas grandes tecnológicas relacionadas com a IA”, diz Paulo Monteiro Rosa, economista do Banco Carregosa.
No final de novembro de 2022 a OpenAI lançou o ChatGPT, chatbot de IA. Desde então, o valor do S&P 500, índice que junta as 500 maiores empresas dos Estados Unidos da América, cresceu 24 biliões de dólares (cerca de €20,7 biliões). Apenas sete empresas (Nvidia, Apple, Microsoft, Amazon, Meta, Alphabet e Tesla) representam 54% deste crescimento. A euforia em torno da IA tem alimentado a ideia de que o céu é o limite no que toca à valorização das ações. Mas levanta uma dúvida: estaremos, de novo, com uma bolha nas mãos?
"Ainda não há consenso. O mercado mostra sinais de exuberância, valorizações muito rápidas e expectativas elevadas, mas há também fundamentos sólidos, como ganhos reais de produtividade e receitas crescentes e sustentáveis”, explica Natália Barbosa, economista e professora na Universidade do Minho.
Dan Ives, analista de tecnologia do banco de investimento Wedbush, diz ao Expresso que "não estamos numa bolha”. "Esta é a 4ª Revolução Industrial e veremos as ações em alta nos próximos anos”, acrescenta. As maiores economias do mundo têm estado a alimentar esta narrativa, numa espécie de guerra fria entre EUA e China. Do lado americano, Donald Trump criou o projeto Stargate com o objetivo de investir 500 mil milhões de dólares nas próximas décadas. Do lado chinês, a IA passou a ser considerada o pilar do modelo económico.
Não é só no mercado de ações que o êxtase se vê. No mercado privado, de capital de risco, as empresas de IA concentraram 64% de todo o investimento este ano, segundo a empresa de dados Pitchbook.
Mercado ignora riscos externos
Em Paris, em plena crise política e financeira, milhares de franceses protestam de forma agressiva contra as medidas de austeridade anunciadas para combater uma montanha de dívida e os défices históricos. Mas na La Défense, onde mora a dona da Bolsa de Paris, o ambiente contrasta. Afinal, o principal índice francês (CAC 40) tem renovado máximos históricos.
O desfasamento entre os mercados e o mundo real tem-se tornado mais visível este ano, à medida que conflitos bélicos e relações comerciais se vão agudizando. E o mercado vai dando sinais contraditórios: o ouro, visto como ativo de refúgio e cuja procura tende a aumentar em alturas de maior turbulência, tem estado a bater recorde atrás de recorde e cada onça vale cerca de quatro mil dólares. Mas se se tem estado a verificar uma fuga para este ativo graças ao estado deteriorado das relações geopolíticas, como defendem os analistas, o dinheiro continua também a fluir para as ações, que, em teoria, poderiam sofrer com o mesmo efeito.
"Os mercados parecem ignorar riscos relevantes. Aliás, os mercados têm mostrado uma notável capacidade de ignorar os riscos, desde os financeiros aos geopolíticos. Nas últimas semanas temos assistido a um shutdown parcial nos EUA, bem como a uma nova instabilidade no sector bancário e a sinais preocupantes de liquidez”, diz Paulo Monteiro Rosa, alertando para uma correção iminente: "Essa complacência pode ser imprudente. Basta um agravamento súbito de um desses focos de tensão para que o mercado reajuste as valorizações.” A juntar às guerras e crises, os recordes atingidos nas ações coexistem com um fraco crescimento económico. O indicador do histórico investidor Warren Buffet que mede a relação entre o mercado norte-americano e a economia real mostra que as ações estão "muito sobrevalorizadas”. O rácio sugere que hoje o mercado vale mais do dobro da economia dos EUA, superando os registos que existiam na crise das dotcom e na crise financeira global de 2008.
Algumas análises sugerem que a IA poderá vir a puxar pela economia norte-americana e a Bloomberg Economics estima um incremento de 1,5% já no próximo ano. Numa economia sustentada em IA, a Nvidia assume o protagonismo, pois tem os chips que todos querem. Há escassez no mercado e abundância na sua avaliação. Tornou-se esta semana a primeira empresa de sempre a superar os 5 biliões de dólares. Cerca de 18 vezes o PIB de Portugal.
Indicador da bolha em máximos desde crise das dotcom
Discrepância entre lucros das empresas e a sua avaliação em Bolsa é a maior desde o início do século
O indicador criado pelo Nobel da Economia Robert Shiller nos anos 90 está outra vez a sinalizar um perigo de uma "bolha” no mercado de ações, mostrando um grande desfasamento entre o valor das empresas cotadas em Bolsa e os seus resultados reais. Neste momento, o índice está nos 39,5 pontos, um valor que não era atingido desde a crise das tecnológicas no início deste século.
O CAPE (Cyclically Adjusted Price-to-Earnings ratio) mostra que as empresas que compõem este índice têm um valor de mercado 39,5 vezes acima dos lucros ajustados dos últimos 10 anos. É mais do dobro da média histórica do índice norte-americano S&P 500.
O debate sobre se estamos a viver numa bolha divide os especialistas. Ao Expresso, Pedro Barata, gestor do Novo Banco, diz que não. Paulo Monteiro Rosa, economista do Banco Carregosa, considera que "há fundamentos sólidos que contrariam a ideia de uma bolha plena. As grandes tecnológicas registam lucros robustos e margens recorde, e a inteligência artificial (IA) representa uma revolução tecnológica real, com ganhos de produtividade mensuráveis”.
No último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) esta foi uma das questões levantadas. "Há parecenças na atual onda de investimento em tecnologia com o boom das dotcom no final dos anos 90. Na altura era a internet. Agora é a IA”, disse Pierre-Olivier Gourinchas, diretor do departamento de investigação da instituição. E salientou que "grande parte dos ganhos nos mercados acionistas deste ano provém de uma valorização das ações de IA” e que as avaliações elevadas e a calma perante os desafios externos "aumentam o risco de volatilidade e correção (...) caso a incerteza comece a pesar e os indicadores económicos comecem a desiludir”.
Duas épocas, a mesma euforia
No final do século passado, havia entusiasmo em torno das empresas tecnológicas, que cresciam como cogumelos. Naquela altura nasciam companhias como a Apple, Microsoft, Oracle e Adobe. Anos mais tarde, a Google e a PayPal. Havia a ideia de que bastava uma empresa ter a extensão ".com” para ter sucesso — e um ambiente de taxas de juro baixas a promover o financiamento —, mas essa ideia só valeu para algumas. Outras morreram pelo caminho. Agora, as siglas mudaram. O .com foi substituído pelo .IA e o debate divide-se entre analistas e economistas sobre se o desfecho pode ser semelhante.
"Há paralelos no entusiasmo e na concentração de capital em poucas empresas líderes. Porém, hoje há modelos de negócio testados e rentáveis, infraestrutura digital madura e uma base tecnológica mais sólida. A maior diferença é que, ao contrário de 2000, a IA já está a gerar ganhos reais de produtividade, novas fontes de receita, e utilizadores reais”, considera Natália Barbosa, economista e professora da Universidade do Minho.
Mesmo dentro do sector, já há vozes que procuram pôr água na fervura. Sam Altman, presidente da OpenAI, considera que os investidores estão a exagerar no entusiasmo em torno da IA e comparou o atual cenário com o das dotcom: "Se olharem para a maioria das bolhas da história, como a bolha tecnológica, havia algo real. A tecnologia era realmente importante. A internet era realmente um grande acontecimento. As pessoas entusiasmaram-se demais. Estamos numa fase em que os investidores, como um todo, estão entusiasmados demais com a IA? Na minha opinião, sim. É a IA a coisa mais importante a acontecer em muito tempo? Na minha opinião, também sim”, disse, citado pelo jornal "The Verge”.
O entusiasmo em torno da IA tem levado vários bancos de investimento a criarem os seus próprios produtos financeiros. É o caso de Dan Ives, especialista em tecnologia da Wedbush, que criou um ETF (exchange traded fund) chamado IVES, que pode ser transacionado pelos seus clientes. Foi criado em junho deste ano e reúne 30 empresas de algum modo ligadas à área da IA, como a Nvidia, a Tesla, a Broadcom ou a Microsoft. Desde então, já valorizou 38%. "Esta é a revolução da IA e queríamos um ETF focado em ajudar os investidores a identificar os vencedores da IA para os próximos anos”, diz ao Expresso.
Cinco empresas fecharam 22 negócios entre si, com financiamento, investimento e compra de ações à mistura
O acordo estava em cima da mesa há vários meses, mas só esta semana foi fechado. A Microsoft tornou-se o maior acionista da OpenAI, dona do ChatGPT, com uma participação de 27%, após um novo investimento que lhe garante o acesso à tecnologia desenvolvida pela empresa até pelo menos 2032. É mais um dos negócios que envolvem um circuito restrito de empresas do sector da inteligência artificial (IA), que se têm estado a financiar umas às outras.
O banco norte-americano Morgan Stanley já contabilizou 22 negócios entre cinco empresas: Nvidia, OpenAI, Microsoft, Oracle e Core-Weave. Tudo somado, entre financiamento, compra de ações ou investimento, são 560 mil milhões de dólares (€480 mil milhões) de negócios entre elas. Estes números não incluem o avanço da Microsoft na OpenAI, uma vez que os valores não foram divulgados.
"A escala do investimento é enorme, o ritmo não tem precedentes e algumas suposições sobre o retorno do investimento, como a vida útil dos ativos, continuam em aberto. A história lembra-nos que o entusiasmo pode ultrapassar a realidade”, escreveram os analistas do JP Morgan sobre os negócios em curso no ecossistema da IA.
Em vários casos, é um financiamento circular em que a empresa A chega a acordo com a empresa B para um investimento de vários milhões e a empresa B usa parte desse dinheiro para comprar produtos ou serviços da empresa A. Isto, multiplicado várias vezes, mas envolvendo poucas empresas, dificulta a avaliação do real valor do negócio montado em torno da IA. "A qualidade das receitas e a verdadeira dimensão da procura ficam obscurecidas por acordos de partilha de receitas entre os principais intervenientes, que podem permitir que várias partes registem a mesma receita segundo as normas contabilísticas norte-americanas”, alertam os analistas do Morgan Stanley. E acrescentam que os "acordos de recompra podem inflacionar artificialmente a procura” e que a forte concentração de clientes "amplifica o risco de incumprimento”.
Nvidia no centro da teia
Jansen Yang e Sam Altman apertaram a mão no final de setembro, num acordo que pode chegar aos 100 mil milhões de dólares (€86 mil milhões), que prevê que a Nvidia invista na OpenAI e que a dona do ChatGPT use parte desses fundos para comprar chips à Nvidia. Neste circuito, a Nvidia está no centro da engrenagem, tanto como fornecedor indispensável de semicondutores como investidor direto nas empresas que mais dependem dos seus produtos.
No final do século passado, este era um tipo de negócio muito visto no sector das telecomunicações. A Lucent foi um dos rostos do colapso das dotcom. O seu negócio consistia em emprestar milhares de milhões a novas operadoras de telecomunicações para que arrancassem com o negócio. Durante os anos de euforia, os lucros da Lucent dispararam. Até que grande parte da carteira de clientes faliu, a Lucent reconheceu dívidas, registou enormes perdas e fechou portas.
Agora, o mesmo padrão de negócio repete-se. "No entanto, até agora, os protagonistas atuais estão muito mais bem capitalizados do que os da era das dotcom”, observam os analistas do JP Morgan.
Também a OpenAI assinou um contrato de 300 mil milhões de dólares com a Oracle para construir centros de dados nos Estados Unidos da América. A Oracle, por sua vez, está a gastar milhares de milhões em produtos da Nvidia para equipar essas instalações. A xAI, empresa de Elon Musk, prepara-se para levantar 20 mil milhões de dólares, com uma fatia significativa proveniente da Nvidia, e parte desse dinheiro servirá precisamente para comprar processadores Nvidia. Até a CoreWeave, fornecedora de serviços de computação em nuvem, vende capacidade de processamento baseada em chips Nvidia, recebe investimento da própria Nvidia e compromete-se a disponibilizar os seus centros de dados aos clientes da fabricante norte-americana.
Como a IA se converteu no novo tabuleiro de poder global
Catarina Maldonado Vasconcelos
A sua existência é cada vez mais indissociável da vida das pessoas, mas um relatório publicado neste último mês de outubro pelo banco JP Morgan Chase vem enfatizar e alertar que a inteligência artificial (IA) terá efeitos sísmicos nas alianças globais, nos populismos e nas regras da guerra. Os Estados Unidos da América (EUA) estão à frente na corrida mundial da IA, mas a luta pelas soluções tecnológicas nesse domínio está a ter repercussões políticas, e o relatório destaca a eleição presidencial de 2024 nos EUA como "o evento mais importante” que mudou a geopolítica da IA no último ano.
"A corrida pelo domínio global na IA é algo muito sério”, garante Emma Ruttkamp Bloem, professora de filosofia na Universidade de Pretória, na África do Sul, e presidente da Comissão Mundial da UNESCO sobre ética do conhecimento científico, tecnologia e IA. "Não sei se é supremacia, controlo ou simbolismo, mas o domínio na IA significa um poder incalculável que advém do conhecimento do comportamento humano, através do capitalismo de vigilância, o modelo de negócio da IA”, afirma a académica.
Para já, e ao contrário do que aconteceu com as armas nucleares, a IA tem sido impulsionada principalmente pelo sector privado, tendo os governos de todo o mundo de correr atrás do prejuízo. O Centro de Geopolítica do JP Morgan Chase escreve que, em 2024, "a orientação do Governo dos EUA para o sector tecnológico e para a comunidade internacional em geral mudou”. As empresas privadas de IA e as que estão na sua órbita veem agora o Governo como um negociador ou investidor direto. Desta forma, a IA passou a fazer parte da caixa de ferramentas da geopolítica. A administração Trump adquiriu uma participação de 9,9% na multinacional norte-americana de tecnologia Intel, onde investiu 11,1 mil milhões de dólares (cerca de €9,5 mil milhões). E as autoridades concordaram em permitir que a também norte-americana Nvidia vendesse chips, em quantidade limitada, na China, em troca de uma parte das vendas.
Os EUA estão, de acordo com a análise feita pelos especialistas do
"O DOMÍNIO NA IA SIGNIFICA UM PODER INCALCULÁVEL”, AFIRMA EMMA RUTTKAMP BLOEM
JP Morgan Chase, a "reorganizar as condições globais em que as nações estão a abordar as suas prioridades de IA”, o que equivale a um processo de transformação das regras do jogo no que respeita à IA.
Nova forma de projetar poder
A IA tornou-se "um elemento básico para os governos nacionais que desejam demonstrar o seu rejuvenescimento, e uma série de estratégias nacionais de IA surgiram nos últimos anos”, incluindo as dos EUA sob a forma do seu Plano de Ação de IA, lançado em julho deste ano, a do Reino Unido, publicada em 2021, e a estratégia de IA dos Emirados Árabes Unidos, que remonta a 2017, refere Vincent J. Carchidi, analista de políticas tecnológicas e da indústria de defesa, baseado nos EUA. Mas os EUA ainda possuem, "de longe”, as organizações de investigação em IA mais inovadoras, em parte devido à concentração de talentos no país, bem como ao "acesso a chips concebidos pelos EUA, necessários para a formação e a implementação de modelos de IA em larga escala”, explica o perito, que se concentra no papel das tecnologias críticas e emergentes na competição entre EUA e China, bem como no Médio Oriente.
Os EUA dominam em termos de investimento do sector privado em IA, com o primeiro semestre de 2025 a somar 104 mil milhões de dólares (€89 mil milhões), quase tanto como o total do ano anterior (109 mil milhões de dólares, que é perto de 12 vezes o investimento estimado para 2024 na China), adianta o relatório. Mas algumas medidas de Trump, como as das ‘tarifas’ (taxas alfandegárias), as restrições à imigração e os cortes no financiamento da ciência e tecnologia, podem prejudicar os EUA na inovação em IA. A implementação e a integração de modelos são esforços a longo prazo, e as empresas americanas de IA tendem a ficar para trás nesta área, enquanto as empresas chinesas são mais incentivadas a encontrar mercados adequados para os seus produtos.
Washington e Pequim incorporam tradições distintas de progresso tecnológico: uma ancorada no dinamismo do mercado, a outra na coordenação estatal. Todavia, "uma terceira visão está a surgir em regiões como a Índia, onde os sistemas digitais são concebidos como bens públicos que aumentam a participação e as oportunidades”, analisa Vilas Dhar, presidente e ad
"NA ÍNDIA, OS SISTEMAS DIGITAIS SÃO CONCEBIDOS COMO BENS PÚBLICOS”, DESTACA VILAS DHAR
ministrador da Fundação Patrick J. McGovern, uma organização filantrópica que gasta milhões de dólares para construir IA para "o bem público”. Esta abordagem, segundo Dhar, oferece um vislumbre do que a cooperação global na era da IA poderá vir a ser.
Se os EUA estão a tentar contrabalançar a ascensão da China, a União Europeia está a esforçar-se para reduzir a sua dependência de tecnologia estrangeira. O Médio Oriente não quer ficar para trás, usando os seus fundos soberanos e a sua expressiva produção energética. "Embora os EUA e a China tenham uma vantagem inicial, ainda estamos na fase inicial da corrida”, alerta Dhar.
Grandes economias em acelerada competição
Vilas Dhar reconhece que "a IA se tornou a força organizadora do poder moderno”. Os dados, a computação e a capacidade algorítmica moldam agora a influência nacional "de forma tão decisiva como o território ou o comércio o faziam outrora”. Por isso, todas as grandes economias "compreendem que a IA determinará quem define os padrões de inovação, segurança, e até mesmo cultura”. Mas a força tecnológica por si só não define a liderança neste século, defende Vilas Dhar. "As sociedades que vencerão são aquelas que combinam a capacidade com a consciência e que governam a inteligência como um bem público, e não como uma arma privada.”
Apesar disso, a China e os EUA prosseguem nos seus caminhos divergentes, empolados pelas tensões entre ambos. Pequim, detentora de cerca de 90% das reservas mundiais de terras raras, ameaçou cortar o acesso global aos seus fornecimentos das matérias-primas essenciais para uma série de produtos americanos, incluindo os semicondutores. A decisão esteve na origem da escassez em todo o mundo e interrompeu cadeias de abastecimento. Donald Trump ameaçou retaliar com ‘tarifas’ de 100% sobre os produtos chineses e com controlos mais rigorosos de exportação de software essencial. Mais tarde, as duas partes celebraram um acordo provisório.
Vantagens decisivas nas próximas décadas
Entretanto, no âmbito de um acordo formalizado há dias, os Governos dos EUA e da Austrália (detentora
"A CORRIDA À IA SUPERA A CORRIDA AO ARMAMENTO NUCLEAR E AO ESPAÇO”, DIZ EMMA RUTTKAMP BLOEM
das quartas maiores reservas globais destes minérios) pretendem investir, nos próximos seis meses, mais de três mil milhões de dólares (€2,5 mil milhões) em projetos de minerais críticos, prevendo-se que venham a render cerca de 53 mil milhões de dólares (€46 mil milhões), de acordo com a Casa Branca.
Entre 2020 e 2023, os EUA receberam da China 70% das suas importações de todos os compostos e metais de terras raras, de acordo com um relatório do Serviço Geológico dos EUA, uma agência sob o chapéu do Departamento do Interior. O banco Goldman Sachs estima que a interrupção de apenas 10% da produção nas indústrias dependentes destes elementos poderia custar 150 mil milhões de dólares (€129 mil milhões) aos EUA.
Ao ser "central em tudo o que fazemos”, a IA domina e impulsiona a economia, refere Emma Ruttkamp Bloem. Mas a investigadora vai mais longe: "[A disputa] supera a corrida ao armamento nuclear e ao Espaço, porque também pode ser combinada com estas tecnologias.” Por isso, a corrida à IA é fundamental geopoliticamente. "Tal como nas revoluções industriais e tecnológicas passadas, as nações que conseguirem aproveitar de forma mais eficaz o potencial transformador da IA, ao mesmo tempo que se protegem contra os seus riscos, usufruirão de vantagens económicas, políticas e de segurança decisivas nas próximas décadas”, admite o relatório do JP Morgan Chase.
Empreendimento partilhado e sem fronteiras?
O apelo da IA para os governos reside, segundo o analista Vincent J. Carchidi, no potencial de apoiar indústrias e forças armadas com novas capacidades, ou de atuar como acelerador para capacidades existentes. "A estratégia nacional de IA inclui muitos e diversos objetivos económicos e sociais, como a produtividade, inovação, formação e literacia. Mas há muitas consequências a considerar, à medida que os dados são recolhidos, tais como o trabalho de artistas criativos e o impacto ambiental dos centros de dados com elevado consumo de energia”, refere. Há, contudo, "momentos decisivos que sempre foram humanos”, aponta Vilas Dhar, lembrando as situações em que "um médico confiou num algoritmo para salvar vidas ou quando investigadores descobriram moléculas que mudaram o rumo da medicina”. Os próximos marcos surgirão à medida que a IA se for combinando com a própria ação humana, definindo "não só o que as máquinas podem alcançar mas o que as pessoas se podem tornar com o seu apoio”. C.M.V.
FOTO WONG YU LIANG/GETTY IMAGES Mais emprego só com reformas na concorrência
Excessiva concentração no sector é um problema para a Europa, considera Philippe Aghion, prémio Nobel da Economia
Na conferência do Banco de Portugal sobre os "riscos e oportunidades” da inteligência artificial (IA) na área da estabilidade financeira a tónica era de otimismo cauteloso. A promessa é grande e as comparações com outras "revoluções” tecnológicas — a eletricidade, a computorização, a internet — sugerem que o que está para vir é uma mudança, de alto a baixo, da organização das sociedades. A partir de Paris, capital de França, a palestra de Philippe Aghion, economista do Collège de France e vencedor do Prémio Nobel da Economia de 2025, focou-se no impacto da IA na produtividade das economias, perante as promessa de um aumento acelerado da produtividade e, por outro lado, do potencial de destruição de milhões de postos de trabalho substituídos por robôs. Aghion, galardoado pela sua investigação, em coautoria com Joel Mokyr e Peter Howitt, na área de "crescimento económico impulsionado pela inovação”, recordou que já há provas empíricas de que a IA gera ganhos de produtividade nas empresas e que até pode ter um impacto positivo no emprego. Mas alertou para o risco de concentração no setor, e para a necessidade de se promover mais concorrência na Europa, tal como mais poder computacional próprio, para garantir independência nesta nova era.
Otimistas e pessimistas
No que toca à sua aplicação na economia no seu todo, Philippe Aghion mencionou duas perspetivas dominantes: uma "pessimista”, em que a IA generativa "terá um impacto no
Três multinacionais dominam plataformas de IA generativa. Faz falta mais concorrência
crescimento muito baixo e um impacto muito negativo no emprego”; e outra, "cautelosamente otimista”, em que a IA pode ter um impacto positivo no crescimento económico e do emprego, mas exigindo "políticas e instituições apropriadas”. Citando vários estudos já publicados, se, por hipótese, o impacto da IA se equiparar ao do advento de outras tecnologias de uso geral (em inglês, general purpose technologies, ou GPU) como a máquina a vapor ou os computadores, as melhorias na produtividade potenciais poderão ir dos 0,8 pontos percentuais da "revolução” da informática, aos 1,3 pontos percentuais conseguidos pela
Estado pode ganhar €1,2 mil milhões com IA
A inteligência artificial (IA) generativa poderá gerar um valor acrescentado bruto de €1,2 mil milhões na Administração Pública em Portugal. O ganho potencial foi calculado pela Implement Consulting Group e pela Católica Lisbon School of Business and Economics, num estudo encomendado pela Google. De acordo com o estudo, a produtividade média por cada trabalhador do sector público poderá aumentar em até 9% em dez anos com a aplicação de IA generativa nos processos do Estado. Cerca de 200 mil empregos, ou 66% da Administração Pública, podem beneficiar, segundo o estudo, de ganhos de produtividade. "O relatório também demonstra que mais de metade dos trabalhadores do sector público português já utiliza ferramentas de IA e 80% acreditam que estas serão importantes nos próximos 10 anos”, lê-se no blogue da Google. P.C.G.
"revolução” da eletricidade no espaço de uma década, exemplifica. Mas a validade destas analogias ainda está por confirmar.
Para já, em média, e com base na investigação realizada, o aumento da produtividade originado pela IA é mais incerta: deverá oscilar entre os 0,08 e 1,24 pontos percentuais ao longo de 10 anos. Por trabalhador, a produtividade poderá melhorar, em média, 27%, com profissões como a de programador a beneficiarem de uma melhoria potencial de 56%. É aqui que reside a chave do impacto positivo no emprego: empresas mais produtivas são mais rentáveis e podem contratar mais, disse. Um efeito já estudado mas apenas em algumas áreas, e que pode não ser transversal à economia. "A IA tem um grande potencial de crescimento”, segundo Aghion, "mas uma política concorrencial não apropriada pode prejudicar” esse crescimento, diz. Aghion chama a atenção para o reduzido número de plataformas de IA generativa detidas por três grandes empresas norte-americanas — Amazon, Google e Microsoft — ao passo que a criação de poder computacional obriga a recorrer, na prática, a apenas uma fornecedora de processadores gráficos: a Nvidia, também norte-americana.