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21 junho 2024 00h20

“O défice de literacia financeira é assustador”

Vida Económica

"A iliteracia financeira é semelhante ao analfabetismo dos séculos passados” – afirma Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. A falta de literacia é a causa do aparecimento crónico de "lesados” a cada crise económica que aparece. O investimento diversificado e acompanhado por profissionais habilitados permite um retorno muito superior a quaisquer depósitos a prazo ou outros instrumentos financeiros com menor risco


"O défice de literacia financeira em Portugal é assustador” - afirma o economista Paulo Monteiro Rosa, autor do livro "Da Grande Recessão à Guerra na Ucrânia”, que critica o facto de atores da nossa vida política portuguesa se referirem ao investimento em ações como um jogo.


Conforme exemplifica, no longo prazo, um investimento em instrumentos financeiros constituído por 60% ações e 40% obrigações, complementado por mercadorias e moedas, tende a permitir um retorno muito superior a quaisquer depósitos ou outros instrumentos financeiros.


O livro de Paulo Rosa, o economista sénior do Banco Carregosa, com lançamento marcado para o dia 6 de julho às 14h00 no Soho em Lisboa, pretende contribuir para o aumento da literacia financeira.


Vida Económica – Quais foram os maiores desafios e consequências daí resultantes que Portugal enfrentou nos últimos 15 anos?


Paulo Rosa - Portugal foi um dos países mais afetados pela Grande Recessão. Desde a entrada do nosso país no euro, em janeiro de 1999, Portugal beneficiou de custos da dívida pública muito semelhantes aos da Alemanha até meados de 2008. No entanto, a resposta isolada de cada país membro da União Europeia à maior crise económica desde a Grande Depressão de 1929, alterou consideravelmente a perceção dos investidores quanto ao risco de cada Estado membro. O spread das taxas de juro de longo prazo da dívida soberano dos países com contas públicas mais frágeis, sobretudo os periféricos, alargou-se consideravelmente em relação aos juros da dívida pública germânica, a principal referência da Zona Euro, colocando em causa a sobrevivência da própria moeda única. O aumento do rácio da dívida pública portuguesa em relação ao PIB nominal de 72% em 2008 para 111% em 2011, associado à perceção dos investidores de uma menor coesão europeia nesse período, impulsionou os rendimentos das obrigações do tesouro de Portugal, culminando no resgate financeiro a Portugal em 2011.


A pandemia foi também um invulgar desafio para a economia portuguesa, sobretudo uma economia muito aberta e bastante dependente do turismo, ou seja, muito influenciada e beneficiada pela proximidade social. No entanto, a subida da inflação, influenciada pelos bottlenecks e agravada essencialmente pela guerra na Ucrânia, acabou por beneficiar as contas públicas nacionais, tendo diluído acentuadamente o peso da dívida pública no PIB nominal, tendo esta última medida da riqueza produzida sido muito favorecida pela elevada inflação.


VE – Que fatores mais contribuíram para a subida da dívida pública nacional?


PR - Os custos com a pandemia, a partir de 2020, encarregaram-se de impulsionar novamente a dívida pública portuguesa, alcançando um novo máximo histórico nos 134% do PIB nominal em 2020. Entretanto, as dificuldades nas cadeias de abastecimento causadas pela pandemia e os custos energéticos mais elevados e alimentos mais caros, impulsionados sobretudo pela guerra na Ucrânia, resultaram na inflação mais elevada das últimas décadas, uma ajuda preciosa para diminuir o rácio da dívida pública portuguesa. O PIB nominal português aumentou de 214,5 mil milhões de euros em 2021 para 266 mil milhões de euros em 2023, uma subida de 24%, beneficiando essencialmente da elevada inflação, mas também do regresso em força do turismo e a tendência de alta da população empregada desde 2013, dois fatores que têm suportado o crescimento da economia portuguesa acima da média nos últimos dois anos.


VE – Prepara-se para lançar no próximo dia 6 de julho um novo livro. Que obra é essa e qual o seu interesse prático?


PR - Alguns artigos são mais técnicos, destinados aos mais curiosos, aos mais interessados num aprofundamento dos temas económicos, àqueles que buscam um maior conhecimento dos mercados financeiros, sendo, por isso, também artigos direcionados a estudantes e licenciados em áreas económicas.

 

Os demais artigos são mais ou menos acessíveis e o livro acaba por ser uma compilação de textos bastante eclética, tendo um público-alvo bastante abrangente na área económico-financeira.


O leitor também pode escolher o ano ou o assunto que mais lhe interessa. São abordados cerca de 20 temas no livro, desde criptomoedas, bancos centrais, Portugal (desde as contas públicas ao PIB), economias norte-americana, europeia e chinesa, até às temáticas relacionadas à inflação, dívida pública, ouro, petróleo, investimento em bolsa e literacia financeira, entre outras.


Há uma caixa numa das primeiras páginas que indica a qual tema pertence determinado artigo, relacionando o número do artigo/capítulo com o tema abordado.


É certo que os temas económicos, apesar de estarem muito presentes no nosso quotidiano, sobretudo nos últimos anos com a elevada inflação e o aumento das taxas de juro, tendem a não despertar tanto interesse como outros conteúdos mais generalistas, como o futebol ou a música.


Em boa verdade, os jornais económicos não despertam junto da população o mesmo interesse que os jornais desportivos, mas contribuir para a crescente literacia financeira dos portugueses é uma das minhas missões, procurando, desta forma, mitigar no futuro o número de "lesados” que aparece a cada crise financeira. Em suma, o retorno é proporcional ao risco, sendo esta a regra base nos primeiros investimentos nos mercados financeiros, seguida de um crescendo de aprendizagem.


Défice de literacia financeira


VE – Acha que há um défice de literacia financeira dos portugueses? Quais são as causas e de que modo pode ser corrigido?


PR - O défice de literacia financeira em Portugal é assustador, mas poderá também existir aqui algum viés influenciado pela minha profissão e veia de economista. Já assisti a várias autoridades nacionais, atores da nossa vida política portuguesa, comentadores da nossa praça e até membros de governos a referirem-se às bolsas de valores como um jogo. A referirem-se ao investimento em ações como um jogo. No entanto, no longo prazo, uma carteira diversificada, quer setorialmente quer geograficamente, por exemplo um investimento em instrumentos financeiros que repliquem os principais índices acionistas globais, desde o S&P 500 ao Stoxx 600, passando pelo MSCI World, um portefólio 60/40, ou seja, constituído por 60% ações e 40% obrigações, podendo ser também complementado por mercadorias e moedas, tende a permitir um retorno muito superior a quaisquer depósitos a prazo ou outros instrumentos financeiros conhecidos por serem menos arriscados.


O imobiliário também é uma boa opção, e o investimento neste setor tem sido privilegiado pelos portugueses, permitindo desta forma alguma valorização dos seus patrimónios, ainda que esta estratégia devesse ser complementada por investimentos nos mercados de capitais.


Contudo, o investimento nos mercados financeiros deve ser sempre acompanhado por profissionais verdadeiramente habilitados para o fazer, sendo primordial para o sucesso. Quando as pessoas têm problemas de saúde procuram um médico, quando as dificuldades são jurídicas procuram um advogado, então devem também procurar os profissionais e os economistas das gestoras de patrimónios quando necessitam de conselhos quanto à rentabilização das suas poupanças, evitando de certa forma o aparecimento crónico de ‘lesados’ a cada crise económica que aparece.


VE – De que forma o aumento da literacia financeira pode contribuir para a melhoria da produtividade das empresas e do investimento?


PR - Poupanças amealhadas e investidas de forma responsável, acompanhadas por gestoras de patrimónios, afastam em certa medida a considerável delapidação da tesouraria de algumas empresas e a liquidez de certas famílias nas crises financeiras. Estas perdas, por vezes avultadas, retiram capacidade de investimento das empresas e consumo das famílias, agravando o crescimento económico nesses períodos de crise.


Quando os investimentos não são diversificados, não são acompanhados por profissionais habilitados, quando a literacia financeira é baixa, quando os produtos financeiros não são os adequados ao perfil do investidor ou ao seu horizonte temporal, surgem os ‘lesados’ financeiros.


Assim, consciente da crescente importância da literacia financeira no nosso quotidiano, compilei neste livro alguns dos meus artigos escritos nos últimos 15 anos, esperando contribuir para o aumento da literacia financeira dos portugueses.


Em boa verdade, a iliteracia financeira é semelhante ao analfabetismo dos séculos passados. 


"Os jornais económicos não despertam junto da população o mesmo interesse que os jornais desportivos”


"Contribuir para a crescente literacia financeira dos portugueses é uma das minhas missões” – afirma Paulo Monteiro Rosa, o economista sénior do Banco Carregosa.