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24 julho 2026 01h00

O erro de Malthus vs. destruição criativa de Schumpeter

Vida Económica

O economista, matemático e clérigo inglês Thomas Malthus defendeu que a população tende a crescer em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos aumenta em progressão aritmética. Dessa diferença resultaria, inevitavelmente, escassez, fome, pobreza e conflitos. No entanto, dois séculos depois, percebe-se que o verdadeiro erro de Malthus não foi apenas prever escassez, mas subestimar o progresso tecnológico, assumindo, na lógica do seu modelo, que a inovação e os avanços tecnológicos permaneceriam constantes ao longo do tempo.


A história corrobora precisamente o contrário. A mecanização, os fertilizantes sintéticos, os pesticidas, a irrigação moderna e o desenvolvimento de sementes mais produtivas, permitiram multiplicar a produção agrícola muito acima do que Malthus alguma vez poderia imaginar. Mais recentemente, a agricultura de precisão, recorrendo a sensores, drones, satélites e inteligência artificial, tem aumentado ainda mais a produtividade, reduzindo desperdícios e otimizando a utilização de água, fertilizantes e energia.


Hoje, a transformação continua. A hidroponia nas últimas décadas e, mais recentemente, a aeroponia mostram que é possível cultivar plantas sem solo, permitindo produzir alimentos utilizando menos água e espaço do que na agricultura tradicional. A agricultura vertical multiplica a produção por metro quadrado, aproximando os centros de produção dos centros urbanos. As estufas inteligentes controlam automaticamente a temperatura, a humidade, a luz e os nutrientes. Os avanços na genética permitem desenvolver culturas mais resistentes às pragas, à seca e às alterações climáticas. A dessalinização e a reutilização de água aumentam a disponibilidade de um dos recursos mais críticos para a agricultura. Ao mesmo tempo, a produção de proteínas através de "carne cultivada” tende a afastar eventuais dificuldades futuras em alimentar uma população mundial crescente.


Ou seja, o limite do planeta Terra não é um valor fixo. O conhecimento humano aumenta continuamente essa mesma fronteira de produção. Isto é, a produtividade depende cada vez menos da quantidade de terra disponível, passando a depender, sobretudo, da inovação.


Esta visão aproxima-se da teoria da destruição criativa do economista da escola austríaca Joseph Schumpeter. Enquanto Malthus via a escassez como um destino praticamente inevitável, Schumpeter mostrou que o capitalismo possui uma extraordinária capacidade de renovar continuamente os seus próprios limites através da inovação. Cada nova tecnologia substitui métodos antigos, aumenta a produtividade e cria novas oportunidades de crescimento económico. Nesse sentido, Schumpeter representa quase o contraponto da visão malthusiana. Onde Malthus via limites físicos relativamente rígidos, Schumpeter identificava uma capacidade permanente de os ultrapassar através da criatividade empresarial e da inovação tecnológica.


Também o modelo de crescimento económico de Robert Solow reforça a ideia de Schumpeter. Solow mostrou que a acumulação de capital, por si só, está sujeita a rendimentos decrescentes, e o verdadeiro motor do crescimento sustentado é o progresso tecnológico, que permite produzir mais com os mesmos recursos e aumentar continuamente a produtividade. Solow introduziu precisamente a variável que estava ausente no modelo de Malthus: a inovação.


A inteligência artificial poderá representar o próximo grande salto nesta tendência. Tal como a mecanização transformou a agricultura no século XX, a IA está a revolucionar a investigação científica, a agricultura de precisão, a gestão dos recursos naturais e a biotecnologia.


Todavia, a visão de Malthus deve estar sempre presente, porque tem, pelo menos implicitamente, algum fundo de verdade ao defender que, se a produtividade deixar de crescer e os recursos permanecerem limitados, as pressões malthusianas reaparecerão inevitavelmente. A tecnologia não elimina as restrições físicas, apenas aumenta a fronteira de produção, permitindo obter mais alimentos, energia e riqueza com os mesmos recursos. O maior ensinamento de Malthus talvez seja mesmo que o futuro da humanidade depende mais da capacidade de inovar e transformar recursos em bem-estar do que da quantidade de recursos disponíveis.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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