O futuro dos mercados financeiros
Perspectivas para os mercados financeiros Os desafios da Europa IA nos mercados financeiros
João Silva Lopes "A sustentabilidade das economias portuguesa e europeia está ligada à capacidade de fomentar o empreendedorismo e a inovação, tendo como pano de fundo a IA."
Francisco Oliveira Fernandes anunciou o lançamento da plataforma GoBulling Investor, orientada sobretudo para investidores de perfil buy and hold, em simultâneo com a iniciativa Carregosa NextGen, dirigida especificamente a jovens investidores.
"O Jogo da Bolsa é para o Banco Carregosa uma das principais expressões da sua responsabilidade social no domínio da literacia financeira, um tema cada vez mais central para a tomada de decisões informadas", afirmou Francisco Oliveira Fernandes, presidente da Comissão Executiva do Banco Carregosa, na abertura da 14.ª edição da Grande Conferência 'O Futuro dos Mercados Financeiros' organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa, e que teve lugar no ISCTE, em Lisboa.
O Jogo da Bolsa contou com "mais de mil inscrições, cerca de 30% de estudantes universitários", o que demonstra o crescente interesse dos jovens pelos mercados, e revela o compromisso da instituição com a literacia financeira. Francisco Oliveira Fernandes anunciou ainda o lançamento da plataforma GoBulling Investe, "orientada sobretudo para investidores de perfil buy and hold, que valorizam informação, acompanhamento e uma visão de longo prazo", em simultâneo com a iniciativa Carregosa NextGen, dirigida especificamente a jovens investidores.
"A sustentabilidade a longo prazo das economias portuguesa e europeia está intrinsecamente ligada à capacidade de fomentar o empreendedorismo e a inovação, tendo como pano de fundo a inteligência artificial", afirmou João Silva Lopes, secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, na 14.ª edição da Grande Conferência
Helena Carreiras, vice-reitora do ISCTE, enquadrou a conferência num contexto de transformação global sem precedentes. "Estamos num momento de aceleração de tendências que são uma verdadeira mudança de paradigma. Estamos a ter que, vamos ter que reinventar o futuro", alertou. A acadêmica sublinhou dados preocupantes: "Estamos no primeiro ano no mundo em que o número de autocracias supera o número de democracias".
Para Helena Carreiras, a resposta está na parceria entre conhecimento e ação. "Não há melhor maneira para combater a desinformação se não produzir mais e melhor informação”.
Reconheceu que a Inteligência Artificial (IA) tanto "será uma oportunidade como inevitavelmente um risco". O desafio fundamental é "encurtar o fosso de crescimento e competitividade. A vice-reitora defendeu ainda a importância de "ajudar a construir diagnósticos acertados, de desenhar cenários possíveis, porque este é um futuro muito incerto também, e a nossa capacidade de previsão é sempre limitada, mais ainda agora, mas antecipar e descrever as condições e os efeitos daquilo que são os nossos processos de tomada de decisão".
Celso Filipe, diretor adjunto do Jornal de Negócios, centrou a sua intervenção na volatilidade provocada pelas políticas de Donald Trump. "Trump lançou-nos numa incerteza, já não é uma incerteza nem de curto prazo, eu diria que é uma incerteza instantânea", afirmou, referindo-se às constantes mudanças nas decisões sobre tarifas comerciais. "Não entendo pessoalmente como algo que seja positivo para os mercados, embora do ponto de vista especulativo possa dar alguma ajuda, mas no plano estrutural é óbvio que esta incerteza cria uma dificuldade acrescida".
Francisco Oliveira Fernandes destacou a importância do Jogo da Bolsa como instrumento de promoção da literacia financeira entre os jovens.
Helena Carreiras alertou para a necessidade de repensar o futuro num contexto global marcado por profundas transformações políticas e sociais.
O Jogo da Bolsa é uma das principais expressões da responsabilidade social do Banco Carregosa no domínio da literacia financeira.
FRANCISCO OLIVEIRA FERNANDES Presidente da Comissão Executiva do Banco Carregosa
Portugal aposta na Inteligência Artificial
O secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, João Silva Lopes, colocou a inteligência artificial e a inovação tecnológica no centro da estratégia de crescimento económico do país.
entre a Europa, os Estados Unidos e a China".
João Salvador delineou três prioridades fundamentais. Primeiro, a formação e retenção de talento. Apesar da excelência reconhecida das universidades portuguesas, o país enfrenta dificuldades. "Esta excelência tem também o efeito pernicioso da dificuldade crescente de retenção de talento que representa uma perda significativa de capital humano para o país", alertou. Para combater esta tendência, o Governo aposta em "políticas públicas que permitam inverter esta tendência, com destaque para a isenção do IMT, imposto de selo e a garantia para a compra de habitação pelos jovens".
JOGO 2025 BOLSA
Grande Conferência: O Futuro dos Mercados
Estamos num momento de aceleração de tendências que são uma verdadeira mudança de paradigma. Vamos ter que reinventar o futuro.
HELENA CARREIRAS Vice-Reitora do ISCTE
Regulação e financiamento A segunda prioridade reside na simplificação regulatória. Citando o relatório Draghi, João Silva Lopes destacou que "mais de 50% das PME na Europa identificaram os obstáculos regulatórios e a carga burocrática como os seus maiores desafios". A solução passa por "garantir que a
Mercado em máximos mas sem risco de bolha
Mário Carvalho Fernandes apresentou perspetivas cautelosamente otimistas para os mercados financeiros. Defendeu que os fundamentos justificam as valorizações atuais, mas alertou que a instabilidade política e a dívida francesa são riscos crescentes.
"O PIB anual aponta para valores próximos dos 4%, 3,8%", revelou Mário Carvalho Fernandes, Chief Investment Officer do Banco Carregosa, destacando que "a economia tem estado a crescer a um ritmo bastante acelerado, 3,8% no segundo trimestre". Esta performance contrasta com as previsões iniciais que temiam o impacto das tarifas Trump. "O impacto das tarifas fez-se notar, com o aumento das importações a fazer front-loading às tarifas, impactando negativamente o PIB da economia americana no primeiro trimestre do ano, mas entretanto teve o efeito oposto", explicou Mário Carvalho Fernandes na Grande Conferência O Futuro dos Mercados Financeiros' organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa, sublinhando que muitas tarifas "foram revertidas, ou parcialmente revertidas".
"A taxa de desemprego está nos 4,3%, uma taxa historicamente baixa e, portanto, confortável ainda para a economia norte-americana", afirmou, apesar de reconhecer "alguma fragilidade" que levou a Reserva Federal a descer taxas "precisamente para precaver esta situação de abrandamento".
A grande questão é se os mercados em máximos históricos representam uma bolha. Para Mário Carvalho Fernandes, é normal o questionamento quando o mercado acionista faz novos máximos, o que poderia significar a entrada em alguma bolha.
Mas, "os lucros por ação destas empresas que acompanham o índice também estão em níveis máximos. E, portanto, esta subida do preço do mercado acionista, de certa forma, está fundamentada nos lucros que, efetivamente, existem", acentuou Mário Carvalho Fernandes.
Explicou que "estamos com um múltiplo de 20 vezes e a sua média é de 18", mas defendeu que "estamos num momento de disrupção e que pode valer a pena esse prémio que está a ser pago atualmente e que não é, assim, tão exagerado que se possa falar de uma bolha". E acrescentou dados concretos. "Olhando para várias métricas de múltiplos do mercado acionista norte-americano, vemos que, apesar de estarmos com múltiplos elevados, não estão em máximos, e quando em média temos múltiplos nesta ordem, a 12 meses o S&P 500 dá um retorno de 7,4% em linha com a sua média". Na opinião de Mário Carvalho Fernandes, é "difícil falar-se em bolha para já, apesar de haver alguns indícios de que se possa formar uma no curto prazo".
O secretário de Estado caracterizou o momento como de "convergência entre o mundo físico e o digital", alertando para três desafios: reforçar a cibersegurança, "não deixar para trás aqueles que possuem níveis reduzidos de literacia digital e financeira", e intensificar o combate ao branqueamento de capitais. "O futuro é feito de otimismo", concluiu, manifestando confiança "no nosso capital humano, jovem, e na capacidade da nossa Academia em liderar a investigação".
O grande receio moderado A inflação permanece como preocupação, mas controlável. "Nos Estados Unidos a inflação continua a estar desconfortavelmente ainda elevada, mais próxima dos 3%", admitiu Mário Carvalho Fernandes, referindo que "o corte de taxa de juros em dezembro não é certo" e "a probabilidade está nos 50%. Afirma que "a inflação está, de facto, a deixar de ser um problema gradualmente. Vai demorar mais tempo, tem o impacto das tarifas, mas olhando para os salários e para o preço das matérias-primas em termos globais percebemos que nenhuma destas variáveis está a impulsionar a inflação" e provavelmente no final de 2026 estará mais próxima dos 2% e a política monetária vai, aos poucos, ajustar-se a essa realidade".
"Na Europa temos algumas situações que estão a apontar para uma recessão, nomeadamente a economia francesa, com situações específicas dessa economia, mais questões políticas e de dívida pública", alertou Mário Carvalho Fernandes. "Economias também estagnadas, no caso da Alemanha, com algumas crises em setores específicos importantes do setor industrial alemão". Ainda assim, "em termos de zona euro, a taxa de inflação continua bastante contida", o que permite algum conforto.
A sustentabilidade a longo prazo das economias portuguesa e europeia está intrinsecamente ligada à capacidade de fomentar o empreendedorismo e a inovação, tendo como pano de fundo a inteligência artificial.
JOÃO SILVA LOPES Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças Mário Carvalho Fernandes analisou a evolução da economia e dos mercados destacando o crescimento robusto dos Estados Unidos e defendendo uma carteira diversificada e prudente perante a incerteza global.
Mas o verdadeiro problema está em França. "Nota-se ali o alargamento do spread da dívida francesa, que tem estado a sofrer um pouco com a instabilidade política em França", observou Mário Carvalho Fernandes. E foi mais longe. "Mesmo agora com um potencial acordo para ultrapassar o problema do orçamento, a dívida não retrai porque não estão a resolver o problema, estão a adiá-lo".
Face a este cenário, defende uma abordagem equilibrada. A carteira ideal, segundo Mário Carvalho Fernandes, deve incluir obrigações que "oferecem uma yield interessante e real, algo que já não acontecia há alguns anos", ações, onde "continuamos a ver algumas oportunidades, embora estejamos neutrais e, eventualmente, aproveitado estas valorizações para não aumentar a exposição", e ativos reais como "o imobiliário e até o próprio ouro, que tem estado a valorizar bastante este ano".
João Silva Lopes defendeu que a inteligência artificial deve estar no centro da estratégia de crescimento económico de Portugal, sublinhando a importância da inovação, do talento e do financiamento.
É difícil falar-se em bolha para já, apesar de haver alguns indícios de que se possa formar uma no curto prazo.
MÁRIO CARVALHO FERNANDES Chief Investment Officer do Banco Carregosa Europa entre dois gigantes
Manuel Puerta da Costa ironizou que, apoiado por um movimento MAGA, Donald Trump acabou por criar um movimento MEGA, ao contribuir para tornar a Europa mais forte em vez de voltar a tornar a América grande.
FILIPE S. FERNANDES
"Há duas coisas que a Europa vê como bastante positivas e que aconteceram nos últimos 12 meses. Uma chama-se relatório Draghi", afirmou Manuel Puerta da Costa, presidente da Associação Portuguesa de Analistas Financeiros, no debate "Os Desafios da Europa num Mundo Dominado por Trump", integrado na Grande Conferência 'O Futuro dos Mercados Financeiros' organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa. Manuel Puerta da Costa destacou que o documento "elenca um conjunto de questões essenciais para a Europa" e foi "um mote para a nova Comissão Europeia".
Mas a fonte de otimismo mais inesperada vem, no seu entender, da administração Trump. "Foi apoiado por um movimento MAGA, mas criou um movimento MEGA. Porque, em vez de fazer a America Great Again, está a fazer a Europa Great Again", ironizou Manuel Puerta da Costa, argumentando que a pressão americana está a forçar um despertar europeu em áreas como mercado de capitais, questões tarifárias e tecnologia.
Os números do mercado parecem dar-lhe razão. "Quem investe em ações americanas tem um retorno pior do que se investir em ações europeias, só as ações chinesas é que bateram as ações europeias", revelou, acrescentando que a economia americana enfrenta dificuldades de financiamento a longo prazo, com spreads de 200 pontos base face à Europa.
Maria João Tomás, professora no ISCTE, apresentou um cenário radicalmente diferente. "Já o ano passado, alertava para as tarifas de Trump", recordou, traçando paralelos históricos preocupantes. "Se recuarmos um bocadinho mais no tempo, e se formos para os anos 1930, Hitler fez a mesma coisa, 11 dias depois de chegar ao poder estava a aplicar tarifas".
As dependências fatais A professora e analista denunciou as múltiplas dependências europeias. "Estivemos dependentes do gás barato russo até à invasão da Ucrânia, estivemos dependentes da China em termos de produção e dos Estados Unidos na NATO". E alertou que "a Europa está entalada à beira de uma guerra e entalada entre dois gigantes". Sobre a capacidade de reação europeia, foi categórica, "a única coisa que a Europa faz, e muito bem, é regulação, regulação, regulação. E isso nós exportamos para todo o lado". Mas questionou, "não estou a ver reação da Europa, não só em questões de defesa, que já devíamos ter acordado há muito mais tempo. Temos uma guerra na Ucrânia, que está aqui às portas".
António Mendonça, bastonário da Ordem do Economistas e professor no ISEG, trouxe uma perspectiva estrutural. "Estamos numa mudança de mundo, efetivamente. E, portanto, tudo pode acontecer", afirmou, questionando a própria identidade europeia, "o que é a Europa, atualmente? Qual é a identidade europeia?"
Os números que apresentou são reveladores da transformação em curso. "A Europa representa 17% do PIB mundial, os Estados Unidos, 26%, a China, 17%". Mas o mais significativo é a dinâmica, "a China passou praticamente de 0% nos anos 90, para agora, para 17%". E acrescentou que "em termos de responsabilidade da dinâmica do crescimento da economia mundial, a Ásia é responsável por cerca de 70%". João Queiroz apontou a ausência de estruturas comuns. "Não existe um Fundo de Garantia de Depósitos único" e "não temos uma bolsa europeia", embora tenha defendido que "existe um mercado de capitais único, através do Eurostoxx 600". Maria João Tomás alertou para os riscos políticos internos. "Temos três países na Europa que são um grande problema, a Chéquia, a Eslováquia e a Hungria, todos com líderes pró-Rússia". E advertiu que "o crescimento da extrema-direita pode colocar em causa as democracias".
Fotos: David Cabral Santos
A pressão americana está a forçar um despertar europeu em áreas como mercado de capitais, questões tarifárias e tecnologia.
MANUEL PUERTA DA COSTA Presidente da Associação Portuguesa de Analistas Financeiros
A Europa está entalada à beira de uma guerra e entalada entre dois gigantes.
MARIA JOÃO TOMÁS Professora do ISCTE
A Europa enfrenta uma encruzilhada existencial que pode definir a sua irrelevância no século XXI.
ANTÓNIO MENDONÇA Bastonário da Ordem dos Economistas e professor do ISEG
A Europa terá de encontrar forma de alavancar a inteligência artificial, incorporá-la e conseguir não apenas sobreviver, mas voltar a ganhar o espaço que teve outrora.
JOÃO QUEIROZ Head of Trading do Banco Carregosa
Crise dos motores europeus ameaça futuro
França e Alemanha, os tradicionais pilares da construção europeia, atravessam crises estruturais profundas que colocam em risco o projeto de integração europeia.
A Europa está, desde o início deste ano, perante um stress test bastante importante. A ideia foi formulada por João Queiroz, head of Trading do Banco Carregosa, traçando um paralelo com o primeiro mandato de Trump. "Se olharmos para aquilo que foi o primeiro mandato de Trump, há efetivamente uma "O modelo alemão esgotou-se", afirmou António Mendonça, bastonário da Ordem dos Economistas e professor do ISEG, no debate "Os Desafios da Europa num Mundo Dominado por Trump", integrado na Grande Conferência 'O Futuro dos Mercados Financeiros', organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa. Explicou que este modelo "se desenvolve de forma corporativa, em que os setores industriais tradicionais estão associados aos bancos dos Länder e ao próprio poder político" e recomendou a leitura do livro "Kaput - O fim do Milagre Alemão", de Wolfgang Münchau.
A crise tem causas múltiplas. "A Alemanha dependia de energia barata, que tinha conseguido alcançar nas relações e nos Nord Streams e, de repente, passou a gastar energia quatro ou cinco vezes mais cara", disse António Mendonça. Mas o problema vai além da energia. "O modelo alemão desenvolve-se com base na economia anterior à Segunda Guerra Mundial, projetou-se, evoluiu e acabou por se esgotar, contando hoje com poucas novas tecnologias". E dá como exemplo sintomático que enquanto "Portugal apostou na fibra ótica", os alemães "desenvolveram o fio de cobre" Por sua vez, "a França está numa crise também, que tem expressões políticas, mas que mais não são do que a expressão da crise económica", diagnosticou António Mendonça. Os números são preocupantes. "O défice disparou, a dívida também". E a conclusão é inevitável. "É evidente que eles não vão cumprir nada dos critérios da União Europeia".
António Mendonça alertou para o esgotamento do modelo económico alemão e para a crise simultânea da Alemanha e da França, que ameaça o motor económico da Europa.
" Europa sob stress test de Trump
A pressão exercida por Donald Trump sobre a Europa representa um teste decisivo que pode transformar-se numa oportunidade para o continente reconquistar relevância global, desde que aposte na inteligência e nas ideias.
Mercosul ser extremamente importante." Mas alertou que "temos é de realizar, mostrar esta capacidade de concretizar." Sublinhou ainda que a globalização não ficou suspensa, apenas se transformou. "A forma como esta globalização se vai desenvolver nos próximos anos será muito importante. Não será a mesma que tivemos anteriormente."
Sobre as empresas europeias, foi categórico. "Cada país deve ter os seus melhores, cada empresa, não interessa tanto a sua dimensão, mas sim a sua inteligência e a sua ideia. Os recursos não vão faltar." João Queiroz identificou a inteligência artificial como ferramenta crítica. "Esta nova dimensão da inteligência artificial, o machine learning e a análise preditiva serão uma alavanca importante para compensar a posição da Europa, porque todas as economias o vão fazer." E deixou um alerta sobre os riscos do sobreinvestimento. "Quando se adotou a eletricidade, quando se passou para o cavalo-vapor, quando se utilizou a telefonia, houve sempre excesso, um investimento muito elevado que, durante um período, não gerou retorno suficiente para garantir solvência."
Concluiu sublinhando que "é uma tecnologia que vai ficar embebida e, portanto, a Europa, tal como todas as economias, terá de encontrar forma de a alavancar, incorporá-la e conseguir não apenas sobreviver, mas voltar a ganhar o espaço que teve outrora". O novo petróleo do século XXI
José Almeida identificou a conectividade, a computação e os dados como os três pilares essenciais para o desenvolvimento tecnológico.
FILIPE S. FERNANDES
Para que exista inteligência artificial tem de existir, necessariamente, o hardware que a torne funcional. E isso depende das terras raras", afirmou José Almeida, professor no ISCTE, no debate "IA nos Mercados Financeiros: Revolução ou Risco?", integrado na Grande Conferência 'O Futuro dos Mercados Financeiros', organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa.
José Almeida alertou para a dimensão geopolítica do tema. "A ligação com os conflitos atuais é direta. A guerra na Ucrânia pode estar relacionada com o posicionamento geopolítico das terras raras nesse país. A Ucrânia também possui bastantes terras raras que não estão na Europa e, atualmente, grande parte delas está sob controlo da Rússia", considerou. Referiu-se ainda à dimensão chinesa das terras raras, que tem levado a fortes posicionamentos geopolíticos e a negociações diplomáticas, como as dos Estados
A coexistência entre ativos tradicionais e digitais nos mercados financeiros enfrenta um obstáculo inesperado, a dificuldade em explicar conceitos tecnológicos complexos a investidores de gerações mais velhas. O alerta foi deixado por Paulo Carvalho Martins, responsável pela área de cibersegurança da Euronext, no debate "IA nos Mercados Financeiros: Revolução ou Risco?", integrado na Unidos com a China, devido a este recurso estratégico.
Sobre a evolução tecnológica, foi categórico. "O crescimento que existe neste momento é exponencial" e salientou que a computação quântica está iminente. Os efeitos são já visíveis. "Há um ano, se fizéssemos um pedido ao ChatGPT ou criássemos uma imagem com inteligência artificial, a qualidade que tínhamos há um ano ou há seis meses, comparada com a que temos agora, é completamente descomunal".
Grande Conferência 'O Futuro dos Mercados Financeiros', organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa, que teve lugar no ISCTE. O especialista defendeu uma revolução na educação financeira e tecnológica. "Penso nas pessoas de 40, 50, 60, 70 anos, a quem vou chegar e não vou conseguir explicar o que é encriptação ou desencriptação quântica, porque com o algoritmo pós-encriptação quântica a pessoa já não vai conseguir perceber o que é o ativo", confessou Paulo Carvalho Martins, sublinhando que a compreensão do ativo subjacente é fundamental, seja ele físico ou digital.
-O fim do dinheiro físico Para José Almeida, a ligação entre a inteligência artificial e os criptoativos é inevitável. "As criptomoedas são a tendência do dinheiro; este deixa de ser físico. A inteligência artificial não existe no físico, só existe no digital." E apontou o caminho seguido pelos bancos centrais, "temos os bancos centrais a criar as CBDC (Moedas Digitais de Banco Central). Portanto, o dinheiro vai deixar de ser físico, claramente. Há uma tendência evidente para um alinhamento digital." E destacou duas formas de influência da inteligência artificial, direta, através de machine learning, algorithmic trading e bots de investimento; e indireta, através do uso da inteligência artificial nas próprias empresas, o que permite reduzir custos e potenciar o seu crescimento.
Por outro lado, sublinha que se ganhou eficiência nos mercados com o ChatGPT, porque "há mais acesso à informação e mais informação a ser introduzida nos mercados".
O futuro alia IA e computação quântica
Esta transformação torna ainda mais urgente a necessidade de literacia tecnológica dos investidores, sob pena de criar um fosso intransponível entre gerações nos mercados financeiros.
nha, conseguia ver a casa e perceber a capacidade de pagamento da dívida", recordou Paulo Carvalho Martins. Com os ativos digitais, essa transparência é muito mais difícil de alcançar.
"A pessoa tem de perceber o que está por trás. E esta literacia tecnológica, como já referi antes, é muito importante", insistiu. Apesar dos desafios, o responsável da Euronext mostrou-se confiante na coexistência entre ativos tradicionais e digitais. "É possível a coexistência. E, como já acontece hoje na Euronext, esta convivência entre o ativo digital e o ativo físico é algo que já se faz há vários anos e vai continuar a fazer-se", garantiu Paulo Carvalho Martins.
José Almeida apontou também aplicações práticas. "Podemos utilizar RegTech e tecnologia FinTech até para regulação, o que permite uma melhor governança e o levantamento de alertas em operações de branqueamento de capitais." No credit scoring, "em vez de analisarmos manualmente todos os documentos, a inteligência artificial processa tudo de forma muito mais rápida, eficiente e com uma probabilidade de erro humano muito menor", concluiu José Almeida.
A aposta portuguesa na Inteligência Artificial. A Euronext escolheu Portugal, especificamente o Porto, para sediar um dos seus centros tecnológicos focados em inteligência artificial. "Temos um centro tecnológico com muitas competências em IA e acreditamos bastante nos portugueses", revelou com orgulho.
"Um dos centros tecnológicos do grupo é em Portugal, no Porto, com engenheiros portugueses, formados em universidades portuguesas, com grandes capacidades tecnológicas nas áreas da inteligência artificial, criptografia e estudos avançados de engenharia", detalhou Paulo Carvalho Martins, confirmando que "foi uma das apostas do grupo em Portugal".
A estratégia interna passa pela formação intensiva. "Estamos a trabalhar nesta área, ou seja, a treinar as pessoas para saber o que é a inteligência artificial para o bem", explicou Paulo Carvalho Martins, acrescentando que a empresa está a investir em "educação, formação e treino sobre o que é a inteligência artificial e como utilizá-la da melhor forma".
Uma visão alargada da revolução tecnológica
Miguel Ricon Ferraz, do Banco Carregosa, defendeu que os investidores devem olhar para além das empresas mais óbvias e compreender toda a cadeia de valor desta transformação estrutural da economia global.
O responsável pelo serviço de consultoria do Banco Carregosa, Miguel Ricon Ferraz, propôs uma visão estruturada da cadeia de valor, sublinhando que "a inteligência artificial não é a Nvidia". Apesar da importância da empresa de chips, com uma perspetiva de receitas de 200 mil milhões para 2025, salientou no debate "IA nos Mercados Financeiros: Revolução ou Risco?", integrado na Grande Conferência 'O Futuro dos Mercados Financeiros', organizada pelo Jornal de Negócios e pelo Banco Carregosa, que teve lugar no ISCTE, que a oportunidade de investimento é muito mais ampla, identificando nessa cadeia de valor, "os AI enablers, os capacitadores e os capacitados". Do lado dos capacitadores, apontou três pilares fundamentais, os hyperscalers "Google Cloud, Azure e o AWS da Amazon", as infraestruturas "ligadas à rede energética" e as plataformas "que conectam estas infraestruturas e os hyperscalers aos aplicativos". Do outro lado, explicou, estão "os enabled, aqueles que são capacitados pela IA e que são empresas presentes na economia real, diretamente ligadas ao consumidor", afirmou Miguel Ricon Ferraz. Estas empresas beneficiarão através de "dois fluxos principais, aumento de receitas e redução de custos". Os números do investimento das grandes tecnológicas são impressionantes. "Quatro das cinco maiores empresas têm um Capex estimado por ano acima dos 300 mil milhões de dólares", revelou, detalhando que "a Amazon ronda os 100 mil milhões, a Microsoft 80 mil milhões, a Google 90 mil milhões e a Meta um pouco atrás, com 72 mil milhões de dólares". Este volume de investimento reflete "um certo receio por parte destas empresas de ficarem para trás". No entanto, o analista traçou paralelos históricos tranquilizadores. "Se olharmos para a história, isto não passa de mais um processo natural de criação de uma infraestrutura que todos irão utilizar. Aconteceu o mesmo com os caminhos de ferro, tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, e também com os cabos de fibra ótica no início dos anos 2000". Apesar das comparações com bolhas passadas, Miguel Ricon Ferraz defendeu que "desta vez existe uma noção de precaução muito maior relativamente à questão do investimento em IA". E os números apoiam essa tese. "Os lucros têm acompanhado os índices, o que era a grande prova de que os investidores estavam atentos. As avaliações estão longe daquilo que foi a bolha dos anos 2000".
A próxima revolução. "A inteligência artificial permite-nos aumentar a capacidade e a análise de dados. E, como já foi referido anteriormente, a computação quântica irá, no futuro, aumentar de forma significativa a capacidade de processamento de dados." Para Paulo Carvalho "a inteligência artificial, aliada à computação quântica, será realmente a próxima grande evolução tecnológica". Esta transformação torna ainda mais urgente a necessidade de literacia tecnológica dos investidores, sob pena de criar um fosso intransponível entre gerações nos mercados financeiros.
A inteligência artificial não é uma bolha. Estamos já a assistir a ganhos de produtividade e a benefícios na economia real.
MIGUEL RICON FERRAZ Responsável pelo Serviço de Consultoria do Banco Carregosa
Democratização tecnológica Sobre o impacto do ChatGPT desde outubro de 2022, Miguel Ricon Ferraz foi claro. "Acaba por democratizar uma tecnologia tão poderosa como a inteligência artificial, porque passa a estar disponível para toda a gente, não apenas para quem sabia programar, mas também para quem tem apenas a capacidade de ler, escrever, um telemóvel e acesso à internet". Acrescentou ainda que desde então, "provavelmente não entrei em nenhuma reunião com um cliente que não me tivesse perguntado sobre a inteligência artificial. É um tema unânime, e as pessoas estão cientes de que veio para ficar". Miguel Ricon Ferraz considerou que "a inteligência artificial é um tema estrutural, muitas vezes interpretado e apresentado nos títulos das notícias como cíclico, mas é importante perceber que a tecnologia não é uma bolha. Estamos já a assistir a ganhos de produtividade e a benefícios na economia real". No plano regulatório, defendeu que "o foco deve estar em regular menos, porque estamos atrasados, e responsabilizar mais, de modo a permitir que as empresas invistam e se reduza a burocracia". Só depois, acrescentou, se deve "responsabilizar e implementar a regulação quando já houver um plano bem definido". Entre os riscos identificados, destacou "principalmente o risco de execução" e a questão energética. "É essencial perceber se a rede energética está preparada para responder à crescente necessidade de consumo e à capacidade de processamento destes novos data centers". E alertou que "apenas um terço dos data centers a nível mundial está atualmente dedicado à inteligência artificial. Ainda estamos mesmo no início".
Paulo Carvalho Martins defendeu a importância da literacia tecnológica e destacou o papel de Portugal na estratégia global da empresa para a inteligência artificial.