O futuro é renovável, mas o presente ainda é petróleo
Só quando existirem baterias baratas, duradouras e capazes de reter energia por longos períodos será possível substituir petróleo, gás e carvão sem comprometer a estabilidade do sistema elétrico.
A adoção das energias renováveis tem crescido significativamente, sobretudo a energia solar e a eólica. O investimento global em energia limpa já supera largamente o investimento em combustíveis fósseis, e em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), mais de 2 biliões de dólares foram aplicados em tecnologias limpas, quase o dobro do capital destinado a petróleo, gás e carvão.
Curiosamente, a China, apesar de não ser vista como um país particularmente "verde”, é hoje o maior produtor de energia renovável do mundo, muito acima dos EUA e da União Europeia (UE). Em 2024, a China gerou cerca de 3 500 TWh (terawatt-hora) de eletricidade renovável, enquanto os EUA produziram apenas um quarto desse valor, aproximadamente 875 TWh, e a UE gerou perto de 1 000 TWh.
A China lidera na energia solar, eólica e hídrica, bem como nas baterias e redes elétricas, tendo investido 625 mil milhões de dólares em energia limpa em 2024, correspondendo a 31% de todo o investimento mundial, impulsionando os avanços tecnológicos neste setor. A energia solar tornou-se, de longe, a forma mais barata na produção de eletricidade, enquanto a eólica, sobretudo a onshore , também já é mais competitiva do que os combustíveis fósseis. No total, 91% dos novos projetos globais de solar e eólica são hoje mais baratos do que a energia elétrica gerada com combustíveis fósseis.
Esta diferença é tão grande que, só por si, coloca a China no centro da transição energética mundial. Basta recordar que a barragem chinesa das Três Gargantas, com 22,5 GW de potência instalada (quase 50 vezes superior ao Alqueva), gera perto de 100 TWh anuais, um valor que, isoladamente, representa o dobro da eletricidade produzida e consumida anualmente em Portugal. A supremacia chinesa não se limita à quantidade total, mas também à capacidade deste país de adicionar, a cada 18 a 24 meses, mais 1 000 TWh de eletricidade, e sobretudo ao facto de esses aumentos serem maioritariamente baseados em energia limpa.
Em 2024, o aumento líquido de produção de eletricidade foi de 623 TWh, dos quais 276 TWh vieram da energia solar, 168 TWh da eólica, 109 TWh da hídrica, 49 TWh da nuclear e cerca de 21 TWh de outras fontes renováveis menores, segundo a Ember. O carvão não contribuiu para este aumento, acabando mesmo por perder quota no mix elétrico.
O armazenamento em baterias triplicou na China em apenas três anos e a modernização das redes elétricas tornou-se uma prioridade global. A eletrificação avança rapidamente em edifícios, indústria e transportes, impulsionada também pela expansão dos veículos elétricos. Ao mesmo tempo, grandes empresas multinacionais têm vindo a migrar para a energia limpa por razões de custo e estabilidade. Também muitos mercados emergentes estão hoje a adotar energia solar e eólica mais depressa do que países da OCDE, beneficiando da queda de preços ditada pela colossal capacidade industrial chinesa na produção de todo o tipo de equipamentos para as energias renováveis.
Todavia, apesar do avanço impressionante das renováveis e da aceleração da eletrificação, a realidade energética mundial continua dependente dos combustíveis fósseis. É verdade que o seu peso no mix energético primário tem diminuído, mas apenas muito ligeiramente — e quase exclusivamente devido ao rápido crescimento das energias renováveis. Como a capacidade solar e eólica partiu de uma base historicamente muito pequena face ao domínio absoluto dos combustíveis fósseis, a redução em termos absolutos tem sido lenta.
Assim, petróleo, carvão e gás natural continuaram a representar cerca de 76% da energia primária global em 2024. E embora o investimento em renováveis tenha acelerado sem precedentes, as estimativas internacionais indicam que o consumo de combustíveis fósseis permaneça elevado e dificilmente abrandará no curto prazo. Isto deve-se à forte dependência estrutural de setores como os transportes rodoviários de passageiros e mercadorias, a indústria pesada e a petroquímica — atividades que continuam ancoradas aos hidrocarbonetos.
Em 2024, petróleo, carvão e gás natural representaram respetivamente 29,7%, 24,6% e 22,7% da matriz energética mundial, mais de três quartos do consumo global. A biomassa tradicional respondeu por cerca de 6%. Há 25 anos, petróleo, carvão e gás natural representavam 35,2%, 22,5% e 19,6%, ou seja, 77,3%. Pouca alteração houve para hoje. Como será daqui a 25 anos, em 2050? Mesmo em Portugal, um dos países onde as energias renováveis mais têm crescido, estas representaram quase 40% do mix energético primário em 2024 (14% hídrica, 13% eólica, 7% solar e 5% de outras renováveis como a biomassa), enquanto o petróleo pesou 46% e o gás natural representou 14% (60% de combustíveis fósseis).
A independência estrutural dos combustíveis fósseis exige sobretudo cabais avanços tecnológicos no armazenamento de eletricidade. Só quando existirem baterias baratas, duradouras e capazes de reter energia por longos períodos será possível substituir petróleo, gás e carvão sem comprometer a estabilidade do sistema elétrico. Sem armazenamento, a energia renovável tem de ser consumida no instante em que é produzida. Por exemplo, as albufeiras das barragens são baterias naturais, e os seus níveis podem ser reequilibrados recorrendo-se a bombagem hídrica quando há excesso de produção renovável, mas a sua escala é residual face às enormes necessidades de armazenamento que um sistema elétrico exige.
A energia solar, apesar de atualmente ser central e de longe a mais barata, tem de ser complementada por sistemas de baterias devido à sua natureza intermitente. Além disso, enfrenta limites físicos, ou seja, mesmo ao meio-dia, quando a irradiação do sol atinge o seu máximo, esta não pode fisicamente ultrapassar cerca de 1000 W/m². Assim, depender exclusivamente do solar exigiria vastas áreas e poderia não compensar o crescimento futuro da procura energética.
Colocar painéis solares nos oceanos poderia aumentar significativamente a área disponível e facilitar o arrefecimento, mas esses painéis ficariam longe dos centros de consumo. Com baterias suficientemente duradouras e económicas, o solar, o eólico e o hídrico deixariam de estar limitados pela sua natureza intermitente, e os combustíveis fósseis passariam apenas a desempenhar um papel residual de redundância ou "reserva estratégica”.
Em suma, a dependência dos combustíveis fósseis persistirá enquanto não houver armazenamento elétrico em larga escala, uma eletrificação efetiva dos setores intensivos em energia e a substituição das infraestruturas ainda concebidas para petróleo e gás. A mobilidade, a logística e a indústria continuam estruturalmente ancoradas no petróleo, prolongando o peso dos hidrocarbonetos na economia global.
Em Portugal, a opção tomada há décadas de substituir a ferrovia elétrica pelo transporte rodoviário agravou esta dependência. Para países que não possuem combustíveis fósseis, como a maior parte da Europa e Portugal, os impactos económicos são evidentes, desde a vulnerabilidade aos choques petrolíferos e às oscilações dos preços internacionais até à dependência de importações e à consequente perda de competitividade.
Assim, o verdadeiro game changer das energias renováveis é um cabal armazenamento e, até lá, a transição energética continuará a avançar, mas limitada pelos atuais constrangimentos tecnológicos e económicos. Entretanto, a China acelera a sua libertação dos combustíveis fósseis, investindo de forma extraordinária para quebrar esta dependência secular e posicionando-se como líder global rumo a uma economia menos dependente do petróleo.
Paulo Monteiro Rosa, Economista sénior do Banco Carregosa