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01 fevereiro 2026 13h00
Fonte: Observador

O grama de ouro atinge os 130 euros

Observador

O ouro reassume um papel central na economia global. É o regresso informal do padrão-ouro.

O ouro tem registado máximos históricos consecutivos, tendo esta semana alcançado os 130 euros por grama. Até 2022, a sua evolução era explicada sobretudo pelo comportamento das taxas de juro reais, em particular das do dólar. Por exemplo, o ouro é menos atrativo quando os juros sobem e vice-versa. Ou seja, como o metal amarelo não gera qualquer rendimento, apenas ganhos de capital, o investimento em ouro é semelhante à teoria do tolo nos mercados financeiros, isto é, um investidor compra um ativo e espera que apareça alguém que esteja disposto a pagar mais no futuro, mas no caso do ouro isso acontece há seis mil anos. Assim, taxas de juro próximas de zero reduzem o custo de oportunidade de deter ouro, e se forem negativas revertem mesmo esse custo num benefício. No entanto, esta explicação, embora relevante, tornou-se insuficiente para justificar a forte valorização observada desde então.

Um novo paradigma na negociação do ouro emergiu após a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e o consequente congelamento de ativos russos denominados em moedas ocidentais, nomeadamente em dólares. Este acontecimento revelou que os ativos financeiros internacionais podem ser utilizados como instrumentos de pressão política e económica. Assim, os países do Sul Global, em particular a China, intensificaram a diversificação das suas reservas internacionais, historicamente concentradas no dólar norte-americano. A China detém as maiores reservas do mundo, cerca de 3,5 biliões de dólares, e apenas 10% estão alocadas em ouro, o que contrasta com grandes economias ocidentais como os EUA, a Alemanha ou a França, que concentram entre 70% e 80% das suas reservas neste metal precioso. Assim, a China tem aumentado consistentemente as suas reservas em ouro. É atualmente o maior importador mundial e também o maior produtor global, com uma produção onshore de 400 toneladas anuais. Os elevados e persistentes excedentes comerciais permitiram ao país acumular grandes reservas em dólares, historicamente recicladas em obrigações do Tesouro dos EUA.

Contudo, a deterioração das contas públicas norte-americanas, marcada por défices orçamentais sucessivos à volta de 6% do PIB e por um aumento contínuo da dívida pública, tende a penalizar estruturalmente o dólar. Acresce o risco geopolítico associado à dependência de ativos financeiros ocidentais, num contexto de rivalidade estratégica crescente entre os EUA e a China. Para reduzir essa vulnerabilidade, Pequim tem vindo a trocar gradualmente dólares por ouro. O metal amarelo é a reserva de valor mais antiga da humanidade. Atravessou impérios, enquanto as moedas hegemónicas foram sendo sucessivamente substituídas. O átomo 79 não pode ser criado por decreto, não pode ser "impresso” e, sobretudo, não pode ser facilmente confiscado. É, por isso, o ativo de refúgio por excelência. Alguns defendem que o Bitcoin representa o novo ouro digital, mas tem um histórico de apenas quinze anos e é uma tecnologia, logo tende a tornar-se obsoleta mais cedo ou mais tarde. O ouro, pelo contrário, sobreviveu ao colapso de impérios, à mudança de regimes políticos e a várias revoluções tecnológicas sem nunca perder a sua função central como reserva de valor.

O ouro preserva o poder de compra ao longo do tempo, enquanto as moedas fiduciárias tendem a depreciar-se. Em 2026, o índice S&P 500 valorizou 18% em dólares, mas quando medido em ouro caiu 31%. Ou seja, apesar do ganho nominal, as ações norte-americanas perderam poder de compra real quando avaliadas na unidade monetária mais antiga da história. Em suma, os sucessivos máximos do ouro, já nos 130 euros por grama, não são um fenómeno especulativo isolado. São antes o reflexo de uma reconfiguração estrutural do sistema monetário e financeiro internacional, impulsionada pelas compras dos bancos centrais e, em particular, pela estratégia da segunda maior economia global de redução da dependência do dólar. O ouro reassume um papel central na economia global. É o regresso informal do padrão-ouro.

 

 Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa.

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