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04 março 2026 10h00
Fonte: Expresso

O Médio Oriente e o rácio ouro/petróleo

O Médio Oriente e o rácio ouro/petróleo

por: Paulo Monteiro Rosa, Professor e economista sénior do Banco Carregosa.

 

O rácio é um importante indicador macroeconómico e geopolítico, refletindo não apenas ciclos económicos, mas também alterações no sistema monetário internacional, transições energéticas, agudização das tensões geopolíticas e instabilidade global.

 

O número de barris de petróleo que uma onça de ouro consegue comprar varia ao longo do tempo, sobretudo em função dos ciclos económicos e das tensões geopolíticas. Quando o rácio ouro/petróleo sobe, uma onça de ouro passa a comprar mais barris, isto é, há um aumento do poder de compra do ouro face ao principal hidrocarboneto global.

 

Este comportamento ocorre, geralmente, em períodos de incerteza económica ou recessão, nos quais o ouro é procurado como ativo de refúgio, enquanto a procura por petróleo diminui devido ao abrandamento da atividade económica. Pelo contrário, quando o rácio desce, o petróleo valoriza relativamente ao ouro, refletindo fases de expansão económica, maior consumo energético e maior propensão ao risco nos mercados. Assim, a relação entre ouro e petróleo espelha simultaneamente o equilíbrio entre a procura por segurança financeira e o nível da atividade económica global.

 

Em abril de 2020, uma onça de ouro chegou a comprar 103 barris de petróleo, um máximo histórico deste indicador, pelo menos nos últimos 80 anos, após o colapso económico ditado pelos confinamentos determinados pela pandemia de COVID-19, que reduziram acentuadamente a procura mundial por energia, ao mesmo tempo que reforçaram a procura por ativos de refúgio.

 

No extremo oposto, em agosto de 2005, o rácio atingiu o valor mais baixo, cerca de 6,7 barris por onça. Este período coincidiu com uma fase de forte crescimento económico global e com o superciclo das matérias-primas, impulsionado pela industrialização acelerada das economias emergentes, em particular da China (então na Organização Mundial do Comércio em 2001), após a recuperação da recessão do início da década de 2000 que se seguiu à implosão da bolha das dotcom.

 

Desde 2022, porém, o rácio começou a divergir do padrão habitual. O congelamento dos ativos russos pelo Ocidente, após a invasão da Ucrânia, acelerou a procura de ouro por vários países do Sul Global, numa tentativa de reduzir a exposição ao dólar e reforçar reservas de ouro por motivos estratégicos. Parece que o padrão-ouro está de regresso, pelo menos informalmente. A China, em particular, tem aumentado de forma consistente as suas compras, sustentando a valorização estrutural do metal precioso.

 

Simultaneamente, a transição energética tem vindo a alterar gradualmente o equilíbrio tradicional entre crescimento económico e preço do petróleo. Apesar de continuar a ser a principal fonte de energia da economia mundial, a crescente aposta em energias renováveis — sobretudo solar, hídrica e eólica — e o objetivo de neutralidade carbónica até 2050 têm reduzido a preponderância do petróleo no mix energético global.

 

Assim, mesmo num contexto de crescimento económico significativo nos EUA e na China, houve uma valorização do ouro acompanhada por uma desvalorização da cotação do petróleo, fenómeno pouco comum em ciclos económicos anteriores. O resultado foi um aumento do poder de compra do ouro, que desde 2022 passou a adquirir cada vez mais petróleo. Para esta evolução tem igualmente contribuído o aumento da produção mundial, em parte ditada pela expansão do shale oil (óleo de xisto ou petróleo de xisto) norte-americano desde 2010, contribuindo para a contenção da cotação do barril de petróleo.

 

?? Impacto geopolítico no rácio ouro/petróleo

 

Todavia, os recentes acontecimentos geopolíticos no Médio Oriente inverteram a tendência de alta do rácio ouro/petróleo. A escalada militar envolvendo o Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, ditaram uma forte reação nos mercados energéticos. A cotação do petróleo sobe cerca de 6% nesta segunda-feira, dia 2 de março, refletindo receios de interrupção da oferta global, enquanto o ouro também valorizou como ativo de refúgio, mas ligeiramente, cerca de 1%. Como consequência, o rácio ouro/petróleo recuou.

 

E se na semana anterior uma onça de ouro comprava mais de 80 barris, esta segunda-feira, uma onça comprava cerca de 75 barris. Em termos relativos, o petróleo está mais caro quando medido em ouro, ilustrando como choques de oferta energética podem inverter, mesmo que temporariamente, tendências estruturais de longo prazo, iniciadas há quatro anos, em 2022.

 

Desta forma, o rácio ouro/petróleo é um importante indicador macroeconómico e geopolítico, refletindo não apenas ciclos económicos, mas também alterações no sistema monetário internacional, transições energéticas, agudização das tensões geopolíticas e instabilidade global.