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07 abril 2025 18h50
Fonte: CNN

"O mercado foi apanhado na curva". Bolsas afundam com tarifas de Trump e medo de recessão

"O mercado foi apanhado na curva". Bolsas afundam com tarifas de Trump e medo de recessão

Donald Trump voltou a apertar o cerco às importações com um pacote de tarifas globais, num gesto mais político do que económico, e os mercados norte-americanos colapsaram como não se via desde os tempos da covid-19. Entre rumores de pausas que afinal nunca foram, desmentidos relâmpago da Casa Branca e a expectativa de retaliações da China e da Europa, os analistas antecipam semanas de incerteza


A promessa foi cumprida, só que o mercado parece não ter gostado - nem da forma, nem do momento. Donald Trump avançou com um novo pacote de tarifas sobre cerca de 160 países e territórios, incluindo a União Europeia, a China e o Japão. E os mercados norte-americanos responderam com acentuadas quedas - num movimento de venda que lembra os piores momentos da pandemia ou da crise financeira.


"Não foi surpresa a aplicação das tarifas. Foi a dimensão e a metodologia que apanhou os mercados na curva”, sintetiza Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros. "A insegurança gerada pela forma como as tarifas foram aplicadas, sem base teórica robusta, fragiliza a posição institucional dos EUA.”


Os principais índices norte-americanos – Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq – caíram mais de 5% em cada um dos dois últimos dias da semana passada. O S&P 500 acumula já uma queda de cerca de 20% desde os máximos históricos. "Este é o resultado de uma obra de arte que mistura geopolítica, estrutura económica e fanfarronice”, afirma João Queiroz, economista e Head of Trading do Banco Carregosa.


No epicentro do abalo está a escalada da guerra comercial. A aplicação das tarifas por parte dos EUA foi seguida de resposta imediata da China, num ciclo de retaliações que está a gerar receios de desaceleração global. O Polymarket, por exemplo, atribui uma probabilidade de 61% à entrada dos Estados Unidos em recessão já em 2025.


Boato de alívio durou minutos


Um episódio ajuda a ilustrar a tensão nos mercados é o de Kevin Hassett, diretor do Conselho Económico Nacional da Casa Branca, que afirmou na CNBC que o Presidente norte-americano estava a considerar uma pausa de 90 dias nas tarifas. As bolsas reagiram de imediato, subindo e invertendo a forte queda da passada semana. Mas a Casa Branca veio a público poucas horas depois para desmentir essa intenção. Chamou-lhe "notícias falsas”.


"Mal saiu o rumor, os mercados reagiram. É esse o tipo de sinais que estão à procura: algo que mostre que a guerra comercial pode ser travada ou aliviada”, diz Filipe Garcia.


Portanto, as quedas voltaram com força. O ambiente de instabilidade parece instalado. E os investidores internacionais procuram refúgio – muitos deles nas bolsas europeias, que beneficiaram de uma rotação momentânea de ativos. "O dinheiro está a fugir dos EUA. A Europa conseguiu segurar ganhos, mas pode ser temporário”, refere João Queiroz.


Tarifas sem critério claro


Um dos principais pontos de crítica está na forma como as tarifas foram calculadas. Inicialmente, a Casa Branca prometera um modelo baseado na reciprocidade – aplicar tarifas semelhantes às que cada país já impunha aos EUA. Mas, segundo os economistas, isso não se verificou.


"A fórmula usada teve por base o défice comercial dos EUA com cada país, o que é frágil do ponto de vista económico. E não ajuda a resolver os desequilíbrios estruturais”, explica João Queiroz.


As tarifas foram também aplicadas de forma generalizada, sem distinguir setores, e com pouca margem para negociação. "Tudo isso aumenta o risco. E a resposta da China só agravou a situação. Neste momento, o mercado está à espera de um sinal que indique que não caminhamos para um conflito comercial prolongado”, acrescenta Filipe Garcia.


Risco de contágio global


O impacto começa a ultrapassar as fronteiras norte-americanas. "Há riscos sérios de contágio para as três grandes economias além dos EUA: China, Alemanha e Japão. A União Europeia está reunida para decidir como reagir”, lembra Queiroz. Para já, o bloco europeu tenta manter uma postura prudente, mas o impacto poderá forçar uma resposta mais robusta.


No meio desta tensão, paira a dúvida sobre o que fará Donald Trump nos próximos dias. As tarifas específicas têm entrada em vigor marcada para 9 de abril. Até lá, há quem acredite que poderá haver espaço para recuar ou negociar. "Se Trump quiser ganhar tempo, pode abrir uma janela de 30 dias para discussão. Mas para isso, teria de abdicar da fanfarronice”, refere João Queiroz.


Recessão no horizonte?


A dúvida principal entre os investidores é se estas medidas irão provocar uma recessão nos Estados Unidos. A resposta poderá depender da duração da guerra comercial, da resposta dos bancos centrais – sobretudo da Reserva Federal – e da capacidade de Trump em reverter ou suavizar o conflito.


"Enquanto não houver uma ação clara, seja de Trump ou da FED, o mercado continuará neste ciclo negativo”, resume Filipe Garcia. "O problema não foi tanto as tarifas em si. Foi o tamanho, o momento, a falta de critério. E a reação imediata dos parceiros comerciais, em particular a China.”


Para já, o cenário mantém-se incerto. As bolsas norte-americanas seguem em queda, os investidores aguardam desenvolvimentos e a economia global começa a ajustar-se ao novo paradigma. O que se pensava ser um truque de campanha revelou-se uma política com impacto real. E pesado.


Miguel Sousa Tavares

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