O paradoxo da moeda chinesa
A evolução do renminbi nas últimas quatro décadas revela um padrão tão claro quanto enigmático. Depois de uma desvalorização acentuada até meados dos anos 1990, o yuan estabilizou durante quase uma década e, entre 2005 e 2015, valorizou, acompanhando o robusto crescimento económico chinês e o crescente otimismo global sobre o seu futuro. Porém, a partir de 2015, o movimento inverteu-se, coincidindo com o crash das ações chinesas, e o renminbi voltou a enfraquecer, aproximando-se gradualmente dos valores atuais em torno de 7 a 7,30 por dólar, mantendo-se praticamente inalterado nesses níveis nos últimos três anos, apesar de as contas externas chinesas terem reforçado a sua robustez.
É precisamente esta divergência entre o que o gráfico mostra e aquilo que os fundamentos sugeririam que constitui o paradoxo central do yuan. Trata-se de uma moeda que, num país com excedentes comerciais recorde, exportações em máximos históricos e uma economia que continua a crescer mais rapidamente do que as economias desenvolvidas em termos reais, deveria naturalmente ser forte, tanto mais que Pequim declara há anos a intenção de promover a internacionalização do renminbi. À primeira vista, estes fatores deveriam ser mais do que suficientes para sustentar uma moeda forte.
Nos últimos anos, o renminbi tem-se mantido fraco e frequentemente essa tendência tem sido contrariada pela intervenção direta do Banco Popular da China (PBoC), impedindo a desvalorização. O que explica então este aparente paradoxo? É certo que o diferencial de juros entre os EUA e a China tenha contribuído para pressionar o renminbi, já que taxas de juro mais elevadas nos EUA atraem capital para o dólar. Todavia, este fator não é suficiente para explicar a fraqueza da moeda chinesa, que resulta sobretudo da acentuada fuga de capitais. Nos últimos anos, a China enfrentou um choque de confiança, desde os confinamentos prolongados da era Covid ao colapso do mercado imobiliário, bem como ao receio crescente de um conflito no estreito de Taiwan. À medida que estes riscos se acumulavam, os investidores estrangeiros foram reduzindo significativamente a sua exposição ao país, vendendo ações, obrigações e outros ativos financeiros a um ritmo que o excedente comercial chinês não conseguiu compensar.
Simultaneamente, várias famílias, empresas e parte da elite chinesa transferiram riqueza para o exterior. Esta saída de capitais, combinada com a desaceleração económica interna, revelouse uma pressão constante e contínua sobre o renminbi. Este é o paradoxo central do yuan, uma moeda que, pelos fundamentos económicos clássicos, deveria apreciar, mas que receios e incertezas culminaram na saída de capitais. Assim, nenhum excedente comercial é suficientemente grande para compensar a saída de capital quando a confiança colapsa.
No entanto, este ciclo parece ter chegado ao fim. Após vários anos de desinvestimento, muitos investidores estrangeiros já têm hoje pouca exposição à China e, paradoxalmente, essa saída ocorreu antes de os mercados chineses terem começado a recuperar nos últimos trimestres e a superar os ocidentais. O risco geopolítico parece ter diminuído e Washington e Pequim parecem condenados a entender-se, enquanto os rendimentos soberanos chineses têm recuperado no segundo semestre, com a yield a 30 anos novamente acima dos 2%. Neste contexto, o paradoxo pode inverter-se, pois se a fuga de capitais terminou, o renminbi poderá começar a apreciar gradualmente. Uma moeda mais forte torna os ativos em renminbi mais atrativos, incentiva a entrada de capital e reforça a própria moeda, num ciclo virtuoso que sustenta o desempenho dos mercados financeiros domésticos e o interesse de investidores nacionais e internacionais.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa