O paradoxo ocidental perante a crescente hegemonia chinesa
O peso do setor dos serviços numa economia é um bom indicador do seu grau de desenvolvimento, e os serviços na economia chinesa têm aumentado desde a chegada ao poder de Deng Xiaoping, em 1978. Em 1980, este setor representava 20% do PIB chinês, mas em 2025 pesava 58%. Nas economias avançadas, os serviços representam normalmente cerca de dois terços da atividade económica. Mesmo duas grandes potências industriais e exportadoras como o Japão e a Alemanha apresentam pesos dos serviços de 71% e 65%, respetivamente. A China pode, portanto, continuar a aumentar o peso dos serviços sem deixar de ser a fábrica do mundo.
Entretanto, ao longo destes anos, tem sido habitual ouvir que a China é cada vez mais uma ameaça à economia ocidental. Já na década de 1980, alguns portugueses referiam, é certo que muitas vezes em tom de brincadeira, que um dia ainda iríamos todos falar mandarim. Ao mesmo tempo, também se generalizou durante décadas a ideia de que aquilo que vinha da China não tinha qualidade. Um paradoxo que continua presente. Ainda hoje é habitual, sobretudo no Ocidente, investidores e economistas analisarem a economia chinesa com base num paradoxo semelhante. Por um lado, salientam as fragilidades da economia chinesa, que as tem, como todas as economias. Por outro, apresentam a China como uma ameaça crescente às economias ocidentais e, em particular, à hegemonia económica e tecnológica dos EUA.
É certo que a China tem desequilíbrios importantes, como qualquer grande economia, mas vários deles podem também ser interpretados como dores associadas a um processo de crescimento extraordinariamente rápido. O país que há poucas décadas era essencialmente pobre e rural tornou-se a maior potência industrial mundial e aproxima-se dos EUA em áreas fundamentais como a tecnologia. A China consome atualmente quase 11 mil TWh de eletricidade por ano, mais do dobro dos EUA e dez vezes mais do que há 25 anos. O extraordinário crescimento económico chinês tem sido acompanhado pelo surgimento de uma classe média cada vez maior e com um crescente poder de compra. A terciarização não significa que a China esteja a abandonar a indústria. Pelo contrário, a indústria continua a ter peso, mas os serviços crescem mais rapidamente à medida que a economia amadurece.
A prioridade na China continua a ser a indústria avançada, mas os serviços deixaram de ser encarados como uma atividade secundária. Investigação, software, inteligência artificial e design, entre outros, são cada vez mais considerados componentes essenciais da capacidade industrial. A política do governo chinês não parece ser a de substituir fábricas por serviços, mas utilizar estes últimos para aumentar a produtividade, o valor acrescentado e a rentabilidade da própria indústria. A esta capacidade produtiva junta-se a formação anual de 5 milhões de universitários nas áreas STEM, ciência, tecnologia, engenharia e matemática, dez vezes mais do que os EUA. É uma extraordinária acumulação de capital humano. Milhões de novos engenheiros, cientistas, matemáticos e especialistas em tecnologia entram todos os anos numa economia com uma forte base industrial. É muita gente a pensar, a investigar, a resolver problemas.
A economia chinesa tem desequilíbrios, como todas as economias. Talvez o mais grave seja a crise imobiliária. Tal como aconteceu no Japão na década de 1990, a desvalorização dos imóveis tem contraído os balanços das empresas e das famílias chinesas, culminando numa diminuição do investimento e do consumo. Perante a contração dos privados, o governo chinês tem-se substituído às empresas e famílias e aumentado a despesa para impulsionar a economia. Assim, a dívida pública chinesa aproxima-se atualmente dos 100% do PIB, face a cerca de 50% em 2016 e 25% há 20 anos, criando um novo desequilíbrio.
Todavia, a prioridade chinesa não é necessariamente maximizar os lucros, mas salvaguardar a estabilidade social e a autonomia estratégica. Assim, algumas das fragilidades apontadas à economia chinesa não contradizem o seu crescente peso económico e tecnológico. Em certos casos, resultam precisamente das opções adotadas para reforçar essa posição. É também aqui que reside parte do paradoxo ocidental perante a China, assente em diferentes mentalidades na definição das prioridades económicas.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa