O que esperar de 2026 nas ações e obrigações? Os selecionadores nacionais respondem
O ano de 2025 ficou marcado por um regresso do interesse simultâneo por ações e obrigações, num contexto de normalização gradual da política monetária e de forte divergência económica entre os dois lados do Atlântico. As obrigações beneficiaram do início do ciclo de cortes de taxas por parte do BCE, enquanto a Reserva Federal manteve uma postura mais cautelosa. Nos mercados acionistas, os EUA voltaram a destacar-se, impulsionados pela resiliência económica e, sobretudo, pelo desempenho das grandes tecnológicas, enquanto a Europa enfrentou um ano mais exigente, penalizada por crescimento mais anémico e incerteza política.
O que esperar agora de 2026? Pedro Bravo, selecionador e gestor de fundos da IM Gestão de Ativos, reflete, entre outros temas, sobre o principal motor das ações globais no primeiro semestre deste novo ano, enquanto Filipe Silva, responsável de Obrigações do Banco Carregosa, e Rita González, partner na Baluarte, analisam o mercado obrigacionista.
Pedro Bravo
Selecionador e gestor de fundos da IM Gestão de Ativos
Começando pelo mercado acionista, Pedro Bravo considera que "os principais motores para as ações globais serão a transformação tecnológica, impulsionada pela inteligência artificial, os estímulos fiscais em curso nos Estados Unidos e na Europa e as políticas monetárias acomodatícias que continuam a sustentar a liquidez e a confiança dos investidores”. No caso norte-americano, esclarece o profissional, os estímulos fiscais estão "fortemente ligados à execução da OBBB (One Big Beautiful Bill)”, num contexto em que Donald Trump enfrentará as midterms. "Na Europa, destaca-se a Alemanha, cujo pacote fiscal robusto está direcionado para a defesa e infraestruturas e cujas reformas estruturais em curso pelo governo de Merz visam reduzir o preço da energia, incentivar o investimento em equipamento e maquinaria e, desta forma, dinamizar a procura doméstica e a competitividade da economia”, afirma. Na opinião de Pedro Bravo, "este conjunto cria um cenário favorável para ativos de risco, reforçando a expetativa de crescimento moderado”. Geograficamente, refere o profissional, os investidores parecem manter uma "preferência pelos Estados Unidos, pela sua liderança em inovação e dinamismo económico, mas há sinais claros de maior interesse pela Europa e pelos mercados emergentes, onde múltiplos mais baixos, políticas expansionistas e a desvalorização recente do dólar oferecem uma oportunidade atrativa”.
No último ano, assistimos também a uma forte concentração dos índices em poucas empresas de grande capitalização, sobretudo no setor tecnológico. "Para os próximos meses”, afirma Pedro Bravo, "poderá haver uma rotação mais ampla, com os investidores a procurarem perceber quais os próximos setores e empresas a beneficiar da implementação e adoção da IA e a procurar diversificar um pouco as suas posições com setores mais defensivos”. Esta diversificação poderá, na sua opinião, reduzir a dependência de um número restrito de nomes e abrir espaço para estratégias mais equilibradas.
Desta forma, dentro do universo acionista, na IMGA têm privilegiado "estratégias que combinem uma gestão rigorosa do risco fatorial com uma seleção criteriosa de ações, capazes de remunerar de forma consistente as fontes de risco assumidas”. Procuram soluções que aliem diversificação eficaz a uma abordagem disciplinada na gestão de risco, demonstrando excelência na escolha de títulos e capacidade para gerar retornos ajustados ao risco de forma consistente. "Em suma, 2026 começa com um equilíbrio delicado: um cenário próximo do ideal, mas vulnerável a riscos significativos. Para os investidores, a palavra-chave será adaptação, onde combinar convicção com flexibilidade, diversificação e uma gestão de risco rigorosa será crucial”, conclui Pedro Bravo.
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Filipe Silva
Responsável de Obrigações do Banco Carregosa
Passando para o mercado obrigacionista, Filipe Silva considera que o principal motor para os títulos de rendimento fixo globais será "a normalização final das taxas de juro pelos bancos centrais e ver até onde conseguem ir sem reacender a inflação”. Em 2025, comenta o profissional, "mais de 40 bancos centrais cortaram taxas de juro, sendo que, do núcleo dos maiores, o Japão foi o único que esteve em contraciclo e subiu taxas; os outros nove desceram (Fed, BCE, BOE, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Suécia, Noruega e Suíça)”. Na sua opinião, o primeiro semestre de 2026 deverá então ser marcado por movimentos distintos: "Alguns bancos centrais deverão fazer novos cortes, enquanto outros já deverão ter chegado ao fim do ciclo, como parece ser o caso do BCE”. O profissional acrescenta ainda que o mercado está assente num "contexto de crescimento moderado” e "inflação ainda acima das metas em algumas economias”. Desta forma, Filipe Silva acredita que deveremos assistir a uma convergência da inflação para as metas objetivo de 2% (Fed e BCE), não prevendo um choque de volatilidade como o de 2022/2023, mas sim uma volatilidade de execução, "uma vez que o mercado estará sensível a dados de emprego, produtividade, choques políticos e dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal nos EUA e alguns países europeus, o que pode causar oscilações táticas na curva de rendimentos”, explica.
"A dívida soberana de alta qualidade (EUA, core Europa, alguns DM como Austrália ou Japão) continua a ser pilar defensivo das carteiras, mais para estabilizar e gerir duração”, afirma. O profissional acrescenta ainda que com o abrandamento do crescimento do PIB global, previsto em torno de 1,8% - 2,00%, "esta classe de ativos pode oferecer proteção real contra um abrandamento económico”. Por outro lado, a dívida investment grade oferece "um prémio versus o soberano, mas, com os spreads historicamente comprimidos, o foco deve estar na qualidade e na seletividade setorial, evitando assumir demasiado risco de duração”, afirma. A dívida de high yield tem tido, na sua opinião, "um bom desempenho nos últimos anos”: "A seleção neste setor deverá ainda ser maior, evitar os CCC e manter maturidades mais curtas. O risco de crédito e de liquidez estará sob maior escrutínio em 2026”, acrescenta. Além disso, Filipe Silva refere que a dívida de mercados emergentes, em especial em moeda local, entra em 2026 com "yields atrativas, melhoria de ratings e fundamentais mais robustos”, com a opção a recair sobre os países que beneficiam da reconfiguração das cadeias de valor e que têm políticas monetárias já estabilizadas.
Por fim, como revela o profissional, os investimentos no Banco Carregosa são guiados por uma "filosofia de gestão ativa e seletividade”, onde o prazo do investimento e o perfil de risco são ajustados à sua visão para as taxas de juro e critérios de sustentabilidade. "Para o investimento em prazos curtos”, revela Filipe Silva, "a nossa estratégia concentra-se em maximizar o rendimento sem uma exposição excessiva ao risco de duração”. Além disso, explica que investimentos em fundos de high yield global permitem ao gestor identificar oportunidades de crédito em empresas com balanços resilientes, assim como em geografias nicho, como os países nórdicos "Para os prazos intermédios, a nossa escolha recai sobre gestores ativos e unconstrained, pois acreditamos que ter flexibilidade para navegar entre diferentes geografias e setores sem as restrições de um benchmark são essenciais para um mundo onde as políticas monetárias podem divergir”, afirma. Também procuram valor relativo através de dívida subordinada, tanto financeira como não financeira. Estes instrumentos, explica, permitem-lhes obter um incremento de rendimento face à dívida sénior, sem necessariamente descer muito na escala de rating de crédito. "O setor financeiro encontra-se bem capitalizado, pelo que o risco de crédito da dívida subordinada parece-nos bem remunerado, servindo como um motor adicional de performance para a carteira global”, conclui.
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Rita González
Partner na Baluarte
Já Rita González destaca que o rendimento corrente voltou a assumir um papel central, "sustentado por níveis de yield que permitem gerar retorno de forma mais previsível após vários anos de taxas excessivamente baixas”, explica. Adicionalmente, afirma que, por um lado, o enquadramento macroeconómico "limita o potencial de ganhos de capital duradouros” e, por outro, "a valorização de preços deverá ser episódica e mais frágil, reforçando o peso do rendimento na performance total”. Na sua opinião, a política monetária continuará a influenciar os mercados, mas de forma menos acentuada. "A percepção de taxas neutras estruturalmente mais elevadas está hoje consolidada, favorecendo abordagens centradas no rendimento, na gestão ativa e no controlo rigoroso do rio”, explica, acrescentando que "os níveis atuais de yield refletem um equilíbrio exigente entre crescimento moderado, inflação mais persistente e maior pressão orçamental”. Por último, considera que a volatilidade das taxas deverá manter-se elevada, sobretudo nas maturidades longas, num contexto de maior sensibilidade a riscos fiscais e políticos.
Neste contexto, considera que a dívida soberana desempenha um papel "essencialmente instrumental”. Segundo explica, é utilizada para "a gestão de liquidez, o controlo da volatilidade e o ajuste do risco de taxas, deixando de ser um motor estrutural de retorno”. Desta forma, "a gestão ativa da duração e da curva tornou-se indispensável”afirma a profissional. A abordagem é seletiva: "Privilegiam-se os mercados com previsibilidade institucional e elevada liquidez. A Europa apresenta vantagem relativa pela forma como os riscos são refletidos nos preços. A dívida periférica é utilizada taticamente, apenas quando o prémio compensa claramente os desequilíbrios fiscais”, afirma Rita González.
Por sua vez, a profissional afirma que o crédito investment grade assume o papel de principal gerador de rendimento ajustado ao risco. "Num cenário de crescimento moderado e balanços ainda sólidos, oferece visibilidade e uma relação risco-retorno atrativa. A seleção de emissores e a disciplina setorial são determinantes”, acrescenta. Já o high yield exige, na sua opinião, maior prudência. "Apesar do nível absoluto de yield, a compressão dos spreads reduz a margem de segurança. A exposição é contida e altamente seletiva, privilegiando emissores com geração de caixa resiliente. É tratado como complemento, não como motor principal de performance”, esclarece. Os mercados emergentes, refere Rita González, continuam a oferecer oportunidades, mas com elevada diferenciação. "O enfoque recai sobre países com políticas monetárias credíveis, trajetórias fiscais controladas e enquadramentos institucionais sólidos. A abordagem é disciplinada e integrada à carteira global como fonte de diversificação”, afirma.
Por último, o posicionamento da Baluarte dentro do segmento obrigacionista privilegia rendimento consistente e preservação de capital num ambiente de maior incerteza e volatilidade. "A construção da carteira assenta na flexibilidade e no controlo rigoroso dos riscos”, acrescenta a profissional. A exposição ao risco de deslocações nas curvas de rendimentos, explica, é gerida ativamente e "a duração é ajustada ao longo do ciclo e a distribuição ao longo da curva é utilizada para otimizar o equilíbrio entre risco e retorno, explorando distorções pontuais”. A alocação geográfica é dinâmica e disciplinada, permitindo reduzir exposições em que o risco não é adequadamente remunerado e reforçar posições com prémios mais atrativos "O objetivo é gerar rendimento regular, não antecipar grandes movimentos de mercado”, esclarece. Além disso, afirma Rita González, "a qualidade dos emissores é central”. Privilegiam, por isso, balanços sólidos, elevada visibilidade de fluxos de caixa e estruturas de financiamento robustas. "A exposição a segmentos de maior risco é calibrada com prudência”, acrescenta. Por último, a profissional defende que a Europa assume um papel relevante, beneficiando de maior dispersão entre emissores e setores. "A exposição a mercados emergentes é mantida de forma contida, com gestão ativa do risco cambial”, conclui.