O que mudou na banca privada? Gestão discricionária, mercados privados e apetência pelo risco na mira dos investidores
Na terceira edição do Think Tank BNY Investments, que juntou Ana Nobre, diretora de Banca Privada do ABANCA, António Luna Vaz, diretor-executivo do Private e Wealth do BPI, Bruno Minoya Perez, diretor de Banca Privada do Banco Carregosa, e Pedro Lobo, diretor de Banca Privada do Bankinter Portugal, debateram-se os produtos dentro do segmento de banca privada que têm despertado o interesse, com a gestão discricionária, mercados privados e apetência pelo risco no topo das escolhas dos investidores.
No caso do ABANCA, conta Ana Nobre, diretora de Banca Privada da entidade, não se observa uma alteração substancial nas categorias de produtos que despertam maior interesse, face à última vez que falámos. Segundo explica, a grande maioria dos clientes mantém "um floor de mercado monetário”, enquanto nota "incursões cirúrgicas” no mercado de ETC e ETF. "Continuamos também com uma predominância muito grande na parte dos produtos estruturados, mas a grande novidade é uma procura muito expressiva por gestão profissionalizada, via gestão discricionária”, afirma, acrescentando que nesse campo observou, de facto, uma curva exponencial de crescimento ultimamente. Nota ainda o destaque que os produtos de banca e seguros têm ganho, cujo crescimento se explica, na sua opinião, pela carga tributária a que os investidores estão sujeitos: "Quanto mais o investidor se vê pressionado, maior é o peso que estes produtos passam a ter nas carteiras de investimento”.
Do mesmo modo, no Banco Carregosa, conta Bruno Minoya Perez, também têm notado um aumento na componente de gestão discricionária, especialmente em comparação com a consultoria. "No entanto”, destaca o diretor de Banca Privada da entidade, "houve também um crescimento no segmento de consultoria, acima das nossas expetativas”. Desta forma, na entidade continuam a focar-se em estratégias que classificam de bem-sucedidas, como os fundos imobiliários temáticos, além de manterem a abordagem a outros segmentos dos mercados privados. "Trabalhamos com mercados privados há algum tempo, inicialmente direcionados para clientes profissionais e family offices. Hoje, embora ainda não seja mainstream, os mercados privados estão a tornar-se cada vez mais comuns, constituindo um complemento na alocação de ativos de uma carteira de investimentos, seja através do investimento em private equity, venture capital ou, mais recentemente, em private debt”.
Apetite pelo risco aumenta
Por outro lado, enquanto na primeira edição do Think Tank BNY Investments, António Luna Vaz destacava o facto de as opções mais conservadoras se manterem em cima da mesa apesar das descidas de taxas de juro, agora, o diretor-executivo do Private Wealth do BPI observa agora um crescimento da apetência pelo risco. "Não podemos ignorar o facto de estarmos num bull market desde 2009. O desempenho passado tem impacto nas decisões de investimento”.
Pedro Lobo, diretor de Banca Privada do Bankinter Portugal, destaca também este aumento pela apetência pelo risco, um movimento que, na sua opinião, ocorreu de forma "gradual e natural", havendo, em consequência, um aumento significativo na procura por soluções que acompanham este acréscimo de apetência. O ano passado, acrescenta, foi ainda marcado pelo fim da procura por carteiras buy and hold, e pela forte procura da gestão discricionária, tendo algumas soluções com componente estruturada ganhado relevância. "Também se notou uma maior procura por soluções internacionais, uma tendência que reflete a busca por diversificação geográfica do domicílio das carteiras dos clientes”.
Do lado dos mercados privados, o Bankinter Portugal mantém o percurso iniciado em 2016. O banco está presente nesse segmento desde então e, este ano, lançou três novos produtos. "A procura continua elevada e verifica-se uma crescente consciencialização por parte dos investidores. Estruturámos de forma completa toda a nossa oferta, não adotando um modelo de arquitetura aberta nos investimentos alternativos”, afirma.
Dois tipos de gerações, dois tipos de investidores
Ainda no âmbito dos produtos protagonistas dentro do segmento de banca privada, António Luna Vaz observa ainda que, atualmente, existem dois tipos de gerações cada vez mais distintos: "A geração tradicional, com mais experiência, tem demonstrado uma confiança crescente na gestão discricionária e na gestão profissional delegada. Por outro lado, as gerações mais jovens preferem outro tipo de produtos, o que explica o crescente interesse pelos mercados privados e por investimentos alternativos”.
Além disso, o diretor-executivo do Private e Wealth do BPI considera que, de uma forma geral, os clientes procuram cada vez mais yield. "Há uma maior literacia financeira, maior consciência do que é a inflação e investimentos que geram rentabilidade. As pessoas começam a perceber que a procura de yield é fundamental e, consequentemente, o risco também”. Esta tendência é visível tanto nas gerações mais experientes quanto nas mais jovens, embora através de produtos diferentes. "A democratização dos mercados privados também teve um papel importante nesse movimento. A procura por ETF é, também, cada vez mais óbvia, mas a procura por mercados privados tem sido, sem dúvida, uma das grandes tendências que temos observado”, acrescenta.
Apesar de haver uma maior penetração dos clientes nos mercados privados, Ana Nobre escolhe parcimónia como a palavra para descrever esse movimento. "É preciso saber muito bem aquilo que se está a adquirir, desde a componente da falta de liquidez ao conhecimento de como funcionam as capital calls. Também é crucial que haja um trabalho de preparação cuidadoso entre o private banker e o cliente, para que este saiba qual é o percentual máximo que a sua carteira pode alocar nesse tipo de produto financeiro”. Na sua opinião, há ainda um caminho a ser traçado, "mas é um caminho que tem de ser feito com parcimónia, considerando que a questão da falta de liquidez pode ser um fator dissuasor para alguns clientes”, revela.