O que são as “stablecoins” temidas pelos bancos centrais
Os pagamentos digitais estão a sofrer uma revolução. À medida que novas soluções tecnológicas entram no mercado e ganham tração entre a população, os bancos centrais veem-se numa encruzilhada: responder à necessidade de inovação e tornar menos complexo o processo de transferir dinheiro, principalmente entre fronteiras —, sem pôr em causa a sua autonomia monetária. E as "stablecoins” vêm adensar o dilema.
Estas criptomoedas diferenciam-se de outros ativos digitais pela sua natureza, tal como o nome indica, mais "estável”, uma vez que são indexadas a outros ativos que lhes confere um grau superior de previsibilidade. As "stablecoins” podem servir como reserva de valor, render juros ou até como forma de pagamento, com as transações a serem quase instantâneas, bastante mais baratas do que as feitas através das vias tradicionais e realizadas através da "blockchain".
Apesar da proliferação no número destas moedas digitais, o mercado continua bastante concentrado: 90% da capitalização está centrada em dois grandes emitentes, a Tether e Circle, com o dólar a ser, esmagadoramente, o ativo de indexação predileto. Só as duas maiores "stablecoins”, a USDT e a USDC, movimentam mais de 400 mil milhões de dólares por trimestre, de acordo com dados da Chainalysis.
E os EUA não têm ficado alheios a este crescimento. A Administração liderada por Donald Trump tem apostado todas as fichas nas "stablecoins”, como uma forma de reforçar o papel do dólar no panorama internacional e aumentar o apetite pelos títulos da dívida norte-americana de curto prazo — o ativo preferido de grandes emitentes para garantir a liquidez das suas moedas. Este mercado já detém 150 mil milhões de dólares em obrigações dos EUA, um valor comparável a países como a Arábia Saudita, a Alemanha e o México.
Contudo, a promessa de transações mais rápidas e quase sem custos não se faz sem riscos. De ameaças à autonomia monetária a choques pelo sistema financeiro, a revolução no mundo dos pagamentos e transferências está a fazer soar alarmes por todo o mundo e os bancos centrais estão na linha da frente destas preocupações.
Uma autoestrada para a dolarização das economias?
O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) considera que o aumento descontrolado das "stablecoins” pode não só ameaçar a confiança pública no dinheiro, como também pode deixar em risco a soberania monetária dos países. Com a esmagadora maioria destas criptomoedas indexadas ao dólar, o seu uso massificado pode levar à "dolarização” das economias. Isto significa um escopo de ação bastante mais limitado para os bancos centrais, uma vez que a economia deixa de estar ancorada na moeda local e passa a ser definida pelo que a Reserva Federal (Fed) norte-americana decidir sobre a "nota verde”.
"Vivemos um momento bizarro em que as ‘stablecoins’ denominadas em dólares são dominantes. Sem controlo, estamos a falar de uma autoestrada para a ‘dolarização’ das economias”, explicava em julho Christian Catalini, fundador do Cryptoeconomics Lab no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ao jornal britânico Financial Times. "Este não é o equilíbrio ideal e vários países já perceberam isto. O dilema é: ou tentamos travar as ‘stablecoins’, ou abraçamo-las como uma fonte de inovação financeira, promovendo versões domésticas?”, indagou o economista.
Tether e Circle, as duas maiores stablecoins do mundo, representam cerca de 90% da capitalização de mercado estes criptoativos. A avaliação total atingiu recentemente o máximo histórico de 281 mil milhões de dólares, impulsionado pela regulação norte-americana. tal (CBDC, na sigla anglo-saxónica) — o euro digital. O projeto está ainda em fase preliminar e à espera da "luz verde” do Parlamento Europeu, com o supervisor financeiro a apelar várias vezes durante os últimos meses aos eurodeputados para passarem o projeto antes da data limite estabelecida no calendário do lançamento desta CBDC, que aponta para outubro deste ano.
No entanto, o caminho antecipa-se arriscado para o banco central. Os projetos que já foram lançados têm encontrado sucesso bastante limitado, outros estão a ser deixados de lado e a grande maioria teima em não sair do papel. Neste contexto, o euro digital, considerando a sua envergadura, pode servir como "farol” para futuros CBDC, mas um falhanço pode também deitar por terra os planos de outras autoridades monetárias de lançar a sua própria moeda digital, numa altura em que se desenha um quadro cada vez mais adverso para as mesmas. "Quanto mais tempo os bancos centrais demoram ou mais centralizadoras forem as suas propostas, maior será a atratividade das alternativas privadas, reforçando o paradoxo: aquilo que foi pensado para controlar as criptomoedas pode acabar por lhes dar ainda mais força”, explica Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, ao Negócios.
Os choques para o sistema financeiro
A digitalização do dinheiro, tanto pela via das "stablecoins” como pela via das CBDC, preconiza ainda a substituição do dinheiro físico. O BCE acredita que a adoção do euro digital vai levar à retirada de 5 em cada 10 euros físicos em circulação, com os depósitos bancários a perderem 3 em cada 10 euros. E, enquanto do lado dos bancos centrais podem existir medidas compensatórias ou limitadoras dos impactos para os bancos, do lado das emitentes deste tipo de criptomoedas não existe essa preocupação.
"Se as ‘stablecoins’ que rendem juros se tornarem comuns e mais empresas começarem a utilizá-las, poderão desviar depósitos dos bancos tradicionais, o que, por sua vez, poderá comprometer a intermediação financeira e dificultar a disponibilidade de crédito”, escreveu Jürgen Schaaf, conselheiro do BCE, num artigo disponibilizado no final do mês passado no website do supervisor. "Isso seria um problema ainda maior na Europa, onde os bancos desempenham um papel central no sistema financeiro e os depósitos são a sua principal fonte de refinanciamento”, adicionou.
Neste campo, a solução encontrada pelo BCE passa por compensar os bancos e limitar a quantidade de euros digitais que uma carteira pode vir a ter. A autoridade monetária liderada por Christine Lagarde está a considerar um teto máximo de três mil euros para cada carteira, que vai estar, por sua vez, associada a uma conta bancária para permitir que o dinheiro flua na necessidade de pagar algo acima deste valor.
"Os riscos são óbvios — e não devemos menorizá-los”, apelou Schaaf no mesmo artigo. Apesar de optarem por caminhos divergentes, os bancos centrais e os governos de todo o mundo estão a desenhar, neste momento, o futuro do dinheiro — que mais do que a sua digitalização, promete ainda ser um conflito geopolítico.
As carteiras vão ter um limite máximo de 3 mil euros digitais, caso o BCE avance com o projeto nas condições atuais.
Dona da Coindesk entra na bolsa de Nova Iorque em alta
Após uma revisão em alta do preço por ação, o IPO avaliou a Bullish em mais de cinco mil milhões de dólares.
As políticas "cripto-friendly” de Donald Trump nos Estados Unidos estão a abrir a porta do setor à bolsa. A operadora de criptomoedas Bullish estreou-se esta quarta-feira em Nova Iorque, após uma oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) na qual captou 1,1 mil milhões de dólares. Era uma das mais aguardadas admissões, numa altura em que várias empresas cripto se preparam para seguir o mesmo caminho.
A empresa – que conta com o fundador da Paypal Peter Thiel como investidor – vendeu 30 milhões de ações a 37 dólares cada, acima do valor indicativo, que se situava entre os 32 e os 33 dólares, de acordo com dados avançados pela Bloomberg. Jpmorgan, Jefferies e Citigroup lideraram a subscrição, enquanto a Blackrock e a ARK Invest manifestaram interesse em até 200 milhões de dólares em ações, segundo a Reuters.
O IPO coloca a avaliação da Bullish nos 5,41 mil milhões de dólares. A ação começou a negociar em Wall Street na sessão desta quarta-feira com o ticker BLSH, tendo disparado 143% nas primeiras negociações. O processo de admissão começou a ganhar forma nos últimos meses com o registo junto do supervisor, a SEC, depois de uma tentativa falhada de entrar em bolsa por via do veículo que ficou conhecido como cheque em branco (SPAC) entre 2021 e 2022.
A Bullish é liderada pelo ex-presidente da New York Stock Exchange, Tom Farley, e é responsável por uma bolsa de negociação "spot” de criptomoedas, futuros e derivados, e é também proprietária do meio de comunicação especializado Coindesk. Com a cotação, junta-se assim a uma lista crescente de empresas de criptomoedas que entraram em bolsa este ano, impulsionadas principalmente pelas regulamentações favoráveis de Trump.
Em julho, o Presidente dos EUA assinou uma lei para criar um regime regulatório para criptomoedas indexadas ao dólar, conhecidas como "stablecoins”, que marca uma vitória para os defensores destes ativos e de uma maior legitimação do setor.
A emitente de "stablecoins” Circle Internet aumentou igualmente o tamanho do seu IPO no início de junho devido à forte procura dos investidores, e as suas ações subiram mais de 400% desde então. A Figure Technology, a Grayscale ou a Bitgo estão entre as empresas cripto que já entregaram igualmente os documentos regulatórios necessários para entrar em bolsa.
Além disso, a venda de ações ocorre num momento em que os IPO estão a recuperar nos Estados Unidos após um período de estagnação nos mercados de capitais norte-americanos que durou mais de dois anos. As ações da fabricante de software de design Figma subiram 250% na sua estreia no mercado há pouco mais de duas semanas.
Na estreia em bolsa, a Bullish mais do que duplicou de valor. Já o IPO tinha sido revisto em alta graças ao forte apetite.