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20 junho 2025 00h00

O rácio da dívida pública global face ao PIB nominal

Vida Económica

De acordo com o gráfico, a evolução da dívida pública global por região, em valores nominais (dólares americanos, USD), bem como a trajetória do rácio dívida pública/PIB nominal mundial entre 2010 e 2023, revela uma tendência claramente crescente.


Entre 2010 e 2019, a dívida pública global aumentou de forma constante, passando de 51 biliões para 73 biliões de dólares, destacando-se o peso crescente da dívida dos países desenvolvidos. Durante esse período, o rácio dívida pública/PIB nominal global subiu ligeiramente, dos 76% para quase 83%, o que indica que o crescimento da dívida foi, em larga medida, acompanhado pelo crescimento do PIB nominal mundial.


Entretanto, destaca-se em 2020, o máximo histórico do rácio dívida/PIB, refletindo uma aceleração acentuada da trajetória de endividamento global, ditada pela pandemia de covid-19. Esta enérgica subida resultou, essencialmente, de dois fatores. Por um lado, da diminuição significativa da atividade económica, resultando numa forte contração do PIB real global e, em menor grau, do PIB nominal (que incorpora o efeito da inflação), motivada pela paralisação económica, uma resposta para tentar limitar a propagação da pandemia. Por outro lado, da ativação dos estabilizadores automáticos e da implementação de estímulos orçamentais sem precedentes por parte dos governos em todo o mundo, impulsionando fortemente a despesa pública. A conjugação destas duas variáveis – menor PIB e maior dívida – elevou o rácio da dívida pública global para quase 100%.


A partir de 2021, é bem visível uma trajetória descendente do rácio, acompanhando a forte recuperação económica global, mais visível no forte crescimento do PIB nominal, impulsionado pelo gradual surgimento da inflação. Ainda assim, os níveis absolutos de dívida continuaram a aumentar, embora a um ritmo muito mais moderado. À medida que a atividade económica retomava gradualmente, os estabilizadores automáticos foram sendo desativados, contribuindo para uma desaceleração dos gastos públicos. O gráfico evidencia ainda o peso considerável dos países desenvolvidos na composição da dívida pública mundial, bem como o gradual crescimento da dívida da Ásia e Oceânia, refletindo a ascensão económica destas regiões. As regiões da África e da América Latina e Caraíbas mantiveram um peso reduzido na estrutura total da dívida pública global.


No final de 2024, a dívida pública global ultrapassou os 100 biliões de dólares, representando cerca de 93% do PIB mundial. Os EUA e a China foram os principais responsáveis por grande parte deste aumento, prevendo-se que o rácio se aproxime dos 100% até 2030.


Segundo o FMI, o problema poderá ser mais grave do que aparenta, devido a pressões de despesa crescentes, previsões excessivamente otimistas de crescimento económico e dívida não identificada. De acordo com o FMI, os atuais planos de consolidação — cerca de 1% do PIB anual até 2029 — são insuficientes, sendo necessário um esforço acumulado de 3,8% do PIB para estabilizar a dívida. Todavia, ajustes mal concebidos podem travar o crescimento e agravar as desigualdades. Um exemplo disso foi a insistência, por parte de Bruxelas, numa consolidação orçamental rigorosa na Europa. No entanto, a Alemanha, após dois anos consecutivos de recessão, recorre agora a pacotes de estímulo e parece querer pôr fim a essa abordagem. A este contexto soma-se ainda o aumento das despesas com a defesa, motivado pela guerra às portas da Europa, após a invasão russa da Ucrânia. Perante este cenário, o FMI recomenda uma consolidação fiscal gradual, sustentada e socialmente equilibrada, com reforço da disciplina orçamental e maior transparência na gestão da dívida.

 

Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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