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07 julho 2023
11h50
Fonte:
ECO
O touro voltou a visitar as bolsas, mas pode estar de saída
Os principais índices dos EUA e da Europa acumulam ganhos acima dos 20% desde os mínimos de outubro. Mas os receios de uma recessão e a inflação podem voltar a expulsar os touros das bolsas.
As ações europeias e norte-americanas entraram, tecnicamente, em terreno de bull market . O sinal é dado pelo desempenho dos índices acionistas Stoxx 600 Europe e do S&P 500, que agregam as maiores empresas dos dois lados do Atlântico, e que acumulam valorizações acima dos 20% entre o mínimo histórico alcançado a 13 de outubro do ano passado e esta quinta-feira.
Na Europa, só desde o início do ano, entre as seis centenas de empresas que compõem o Stoxx 600 Europe, contam-se 10 ações com ganhos por cada 6 com perdas. Entre o leque de vencedores de 2023 estão 128 empresas com ganhos acima dos 20%.
Um desses casos é a portuguesa Jerónimo Martins JMT 0,47% , que atualmente está a negociar em recordes históricos, com as ações a transacionarem perto dos 26 euros, acumulando uma valorização de 27% desde o final do ano passado e 40% desde 11 de outubro do ano passado, quando atingiu o valor mais baixo do último ano.
No entanto, o bull market nas ações europeias e norte-americanas pode ser sol de pouca dura. " A postura energicamente contracionista da Fed e do Banco Central Europeu ameaçam abrandar significativamente a economia nestes dois blocos económicos, podendo mesmo culminar numa recessão ", refere Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.
E é isso mesmo que a inflexão das curvas de rendimentos dos EUA e da Alemanha estão a antecipar atualmente, com as obrigações de curto prazo a apresentarem yields mais elevadas que as praticadas pelas obrigações de longo prazo. "Assim sendo, a atual alta acentuada dos mercados acionistas poderá ser apenas um bear market rally se uma recessão ainda estiver para acontecer , tal como é antecipado pela inversão da curva de rendimentos norte-americana e germânica.”
Touros à espera que nuvens de recessão desapareçam
Os analistas contactados pelo ECO acreditam que o espaço para os touros voltarem a tomar conta das bolsas está dependente de a economia entrar ou não em recessão.
Na Zona Euro, a economia da moeda única encontra-se numa recessão técnica , após dois trimestres de contração do PIB . Nos EUA, os dados do primeiro trimestre revelam um abrandamento da economia norte-americana no primeiro trimestre, com o PIB a registar uma taxa de crescimento real homóloga de 2%, face aos 2,6% do último trimestre de 2022.
"Podemos afirmar que estamos em bull market no curto prazo”, refere Vítor Madeira da XTB, notando que "o mercado tem mostrado um comportamento de bull market , principalmente no que toca à baixa volatilidade e a máximos e mínimos crescentes.”
No entanto, o analista da XTB salvaguarda que, "ainda assim, é necessário cautela, pois as valorizações futuras podem ser comprometidas com os dados macroeconómicos que aí se avizinham.”
Isso significa que mesmo numa situação de não recessão, as bolsas podem vir a ser prejudicadas por conta da política monetária dos principais bancos centrais na procura de trazer a taxa de inflação para a meta dos 2%.
"Se a recessão não acontecer no curto/médio prazo e a inflação se mantiver persistentemente acima da estabilidade de preços nos 2%, e tanto a Fed como o BCE não abdicarem desse propósito de ancorar novamente os preços, então novas altas dos juros são esperadas e, consequente, penalização dos mercados acionistas”, refere Paulo Rosa.
Fugir à onda recessiva que alguns anteveem no horizonte e à onda inflacionista nos EUA e na Zona Euro são assim os grandes desafios para os touros e para os investidores nos próximos anos. Mas, se estas barreiras forem derrubadas, Vítor Madeira recomenda seguir o popular slogan "follow the trend, trend is your friend” (segue a tendência, a tendência é tua amiga).
"O setor com maior potencial será o tecnológico, sendo que o mesmo já deu o sinal”, refere o analista, destacando que "devemos sempre seguir o mercado e, neste caso, o mercado está a apontar para essa direção.”
Lisboa ainda longe das subidas europeias
Ao contrário do que se tem notado nos EUA e na Zona Euro, os touros não se têm feito sentir com tanta força na Euronext Lisboa. Desde 13 de outubro, quando bateu no valor mais baixo dos últimos dois anos, o principal índice acionista da bolsa portuguesa (PSI) acumula uma valorização de 15,9% – mas já chegou a acumular ganhos de 22%, quando a 27 de abril alcançou o valor mais elevado desde outubro de 2022.
Entre as 16 empresas que compõem o PSI, há quatro com ganhos acima dos 20% desde o início do ano. Destaque para as ações da construtora Mota-Engil EGL 0,23% , que desde a primeira sessão do ano acumula uma valorização de 92%. No entanto, há nove empresas que estão a acumular perdas.
"O PSI pode ainda ter espaço para subir mais uns 5% a 6% até ao final do ano”, antecipa Vítor Madeira, analista da XTB. Porém, o analista refere que "esse potencial pode ser anulado caso os nossos parceiros europeus sofram quedas nos seus índices acionistas (como o CAC40, EU50, DAX30) ou a conjetura económica portuguesa/global se deteriore.”
Mário Martins, analista da ActiveTrades, lembra que o PSI tem uma forte componente de empresas ligadas à energia e que, por isso, o desempenho do índice "dependerá como se comportarem os preços dos ativos energéticos, petróleo e gás natural”.
Além disso, Mário Martins assinala também que "o aumento dos custos financeiros poderá condicionar os ganhos nos setores não financeiros, com a banca a ter potencial para registar uma boa performance nos próximos meses.”